Autoproteções

Existe uma grande diferença entre a arte cinematográfica e a dramaturgia teatral. Enquanto um consegue brincar com os sentimentos do espectador através de representações visuais, o outro depende quase exclusivamente da força de seus diálogos para conseguir provocar alguma emoção.

Não à toa que a transposição de peças teatrais para o cinema (e vice-versa) é uma tarefa tão difícil quanto à de obras literárias para as telas. É necessário, primeiro, expandir os ambientes que, no teatro, são limitados. Depois, é preciso selecionar bem os diálogos, a fim de não transformar o pretenso filme em um “blá blá blá” miserável ou perder entradas-chave para o desenvolvimento da história.

Um Limite Entre Nós é dirigido por Denzel Washington e escrito por August Wilson, baseado na peça de teatro Fences, de 1983, também roteirizada por Wilson. O filme está indicado em quatro categorias no Oscar desse ano, incluindo melhor filme e melhor roteiro adaptado.

No filme, Denzel Washington (indicado para o prêmio de melhor ator) é Troy Maxson, um jogador de beisebol aposentado, que nutria esperanças de se tornar uma grande estrela do esporte durante sua infância e agora trabalha como coletor de lixo para sobreviver. Em meio às agruras da vida ‘normal’ de esposa, casa, filhos e amigos, ele precisa lidar com suas frustrações enquanto sobrevive com sua família num limiar de protecionismo e rispidez.

Viola Davis, indicada por sua performance como melhor atriz coadjuvante, é Rose Maxson, uma mulher forte, que procura, de todas as formas, entender a crueza de seu marido, e, através de sua lealdade à família, manter a base forte de toda aquela atomização de seres humanos frustrados e estranhos.

Denzel Washington se mostra correto atrás das câmeras, variando os enquadramentos e aumentando as locações em relação à trama teatral, por mais que em alguns momentos faça escolhas fáceis demais e dê a impressão de que Um Limite Entre Nós se trata de uma “peça filmada”, na pior acepção que a expressão possa ter.

O diretor também derrapa na construção da trama, sempre em função de seu protagonista. O que não deveria ser um problema – haja vista os vários filmes pautados em torno de suas personagens principais – se torna um exercício de paciência para o espectador, principalmente no primeiro terço da obra, já que Troy é uma personagem extremamente arrogante.

Talvez proposital, talvez não, tal situação se mostra favorável a personagem de Viola Davis. Uma vez que o espectador precisa tentar processar a verborragia arrogante do protagonista de Um Limite Entre Nós, a personagem de Davis ilumina o filme em cada cena que aparece, construindo uma expectativa crescente até o último ato do filme, onde as frustrações de Troy e os esforços em prol da família vindos de Rose sofrem um duro golpe da realidade.

Um Limite Entre Nós é um filme que exige um esforço maior do espectador. Seja por sua verborragia, seja pela construção antagônica de seu protagonista, Denzel Washington construiu uma obra forte (e, independente de suas deficiências, um bom filme) sobre as dificuldades dos negros durante a década de 1950, onde o racismo imperava e, relegados a uma posição secundária na sociedade, independente de seus talentos, precisavam lutar contra tudo e todos, inclusive contra seus próprios preconceitos.

Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington
2016, Drama, 139′

Trailer

Imagens: divulgação

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