O descanso de um Mestre

Poucos realizadores enxergaram o cinema brasileiro de forma tão verdadeira quanto Héctor Babenco, que nos deixou na última quarta-feira (13), vítima de uma parada cardíaca. Argentino de nascença, brasileiro por escolha, esse cineasta de alma beatnik foi um dos artistas audiovisuais mais corajosos de nosso país.

Defensor ferrenho de que o cinema pode ser comercial e inteligente, preocupado com a resposta do mercado da mesma forma com que se preocupa com a qualidade, Babenco comprovou suas teorias referentes ao mercado cinematográfico da melhor forma possível: fazendo bons filmes.

Pequenas obras de arte como o thriller policial “Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia” (1977) e a ficção documental “Carandiru” (2003) fazem parte do inconsciente coletivo de nosso país, frutos de uma rica e intensa cinematografia, sempre marcada por uma poderosa e desafiadora estética na execução e nos roteiros.

Exímio diretor de atores, Babenco soube tirar o melhor de seus comandados, seja transformando a atriz Marília Pêra em uma força da natureza em “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1981), seu trabalho mais famoso, seja entregando novas e até então inexploradas facetas de estrelas conceituadas no cenário hollywoodiano como Willian Hurt, vencedor do Oscar por seu “O Beijo da Mulher Aranha” (1985).

Fernando Ramos e Marília Pêra em “Pixote: A Lei do Mais Fraco”

Apesar de filmar em inglês e conseguir o reconhecimento mundial, a carreira internacional de Héctor Babenco não obteve o sucesso financeiro esperado, o que não lhe furtou de conceber os ótimos “Ironweed” (1987) e “Brincando nos Campos do Senhor” (1991).

Em 1998, com “Coração Iluminado”, Babenco decide se voltar para sua própria história, ao inserir notas autobiográficas em suas narrativas – com exceção de “Carandiru”. Em “O Passado” (2007), o cineasta inspira-se no romance homônimo do argentino Alan Pauls e conta uma tocante história sobre amor e separação. Em 2015, “Meu Amigo Hindu” volta à sua busca autobiográfica e abre a Mostra São Paulo de Cinema com chave de ouro.

Héctor Babenco, o homem, se foi, mas deixou, como artista, uma obra forte, corajosa e interessante. Com altos e baixos, erros e acertos, como qualquer realizador que desafiou os limites do cinema teve que lidar, o argentino mais brasileiro de todos os tempos revolucionou a linguagem cinematográfica brasileira desde o seu primeiro trabalho, um documentário encomendado sobre o MASP, em 1972, até seu último trabalho.

Deixará saudades por seu talento, genialidade e por suas já corriqueiras polêmicas declarações. Babenco se atreveu a viver de verdade, mesmo sendo um dos mestres da ficção de nosso país. Homens como Héctor Babenco não passam pela vida sem deixar inesquecíveis contribuições, e assim ele o fez. Lutou um bom combate e caiu atirando, como todo bom guerreiro deve fazer. Descanse em paz, Mestre.

Héctor Eduardo Babenco
Nascimento: 7 de fevereiro de 1946, Mar del Plata, Argentina
Morte: 13 de julho de 2016, São Paulo, São Paulo

Créditos das imagens: divulgação UOL

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