A caótica quietude de uma devoção

Qual o real significado de uma apostasia? Até quando sua fé é benéfica para os outros? Suas crenças podem machucar as pessoas que acreditam em você? A imagem de Deus é um mero símbolo ou merece o mesmo respeito que uma entidade de carne e osso? É possível encontrar Deus entre os ruídos de seus opositores? Deus escuta a todos e atende à alguns ou ele não escuta ninguém e consentimos essa ignorância em troca de uma suposta misericórdia? Deus, afinal, escuta nossos silêncios ou apenas nossas preces?

Perguntas difíceis, perturbadoras e sem respostas dentro dos conceitos de religião e fé. Até mesmo para quem não acredita em nada. Depois de 28 anos de persistência, Martin Scorsese nos brinda com essas e outras perguntas em Silêncio, possivelmente sua obra mais pessoal desde o documentário Minha Viagem à Itália (2001).

Sua luta para levar o romance do japonês Shūsaku Endō (adaptado para o cinema pela primeira vez em 1971, com roteiro co-escrito pelo próprio autor) logo após todas as polêmicas envoltas durante a produção/exibição de A Última Tentação de Cristo (1988) foram apenas o prelúdio de uma produção complicada, com mortes, atrasos e problemas de financiamento.

Todavia, a ‘via-crúcis’ de Scorsese, no entanto, foi recompensada com um filme que, se não empolga os mais festivos, desafia o espectador inteligente de forma única. E ver Martin Scorsese, aos 74 anos, desafiando seu público, é maravilhoso, para dizer o mínimo.

Em Silêncio, dois missionários jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) têm como objetivo descobrir o que exatamente aconteceu com seu mentor (Liam Neeson), enviado anos antes para o Japão na tentativa de expandir o catolicismo, e que, segundos rumores, teria cometido apostasia para que se mantivesse vivo em uma terra inglória para o cristianismo.

A ‘tour-de-force’ dos padres em busca de respostas sobre o seu mentor é filmada por Scorsese com uma calma assustadora, que funciona, na maioria do filme, como momentos de contemplação intelectual perante as inúmeras perguntas que os missionários se fazem (ou são confrontados) durante a jornada. Apesar de todo trabalho do diretor, muito do esforço intelectual em Silêncio cabe ao espectador, a fim de dar sentido a certas escolhas narrativas da história.

A direção de arte e a fotografia de Silêncio (esta, indicada ao Oscar 2017) ajudam a história a evoluir a partir de uma recriação de época eficiente e alguns enquadramentos criativos, estáticos, nunca, porém, aparentando ser maior do que a história que estão contando. Destaque também para o design de som que valoriza os silêncios naturais gerados pelas ambientações, evidenciando sonoridades tribais em meio a um aparente início de progresso.

Scorsese se apoia num ótimo Andrew Garfield que, esforçado, investe todo seu carisma a serviço do sofrimento de sua personagem. Quando é recepcionado em uma aldeia japonesa cristã, o padre é visto como uma fagulha de salvação do regime governamental que baniu o cristianismo do país, sob justificativa de proteger os cidadãos da influência europeia trazida pela religião.

A esperança, todavia, dura pouco, quando, descoberta sua presença, pessoas inocentes começam a ser torturadas até a morte, seja por suas convicções religiosas descobertas, seja por acobertar a presença do sacerdote em terras nipônicas.

Adam Driver e Liam Neeson, infelizmente, pouco fazem por seus personagens. Todavia, por mais que se tenha a sensação de oportunidade desperdiçada, tamanho o calibre dos atores, tais escolhas deixam espaço para o excelente ator japonês Yôsuke Kubozuka brilhar em suas interações com a personagem de Garfield, numa clara alusão a incomoda relação de traição e perdão entre Jesus de Nazaré e Judas Iscariotes.

Longe de ser um filme standard de Martin Scorsese, Silêncio não apresenta alguns dos trejeitos cinematográficos que fizeram o diretor famoso, além de contar com uma condução lenta e problemática em alguns momentos do segundo ato do filme. Suas 2h41min pesam um pouco durante a experiência, assim como as questões de cunho extremamente pessoais que são levantadas pelo diretor (que adaptou o livro junto com o roteirista Jay Cocks) e ficam sem respostas durante a projeção.

Nada que tire o brilho da obra.
Questionadora, corajosa e bem-feita.
Mesmo assim, Silêncio não é um filme fácil.

Para os amantes de narrativas heroicas, de fácil assimilação, explicações mastigadas e com piadas de 5 em 5 minutos, Silêncio talvez não seja a melhor escolha. Assim como para religiosos cegos, fanáticos e pessoas que não desejam colocar suas crenças a prova de questionamentos pessoais. Ser desafiado intelectualmente por um “simples filme” de um “vovô de 74 anos” talvez não seja a melhor escolha para os que procuram por entretenimento vazio e descompromissado.

Silêncio, de Martin Scorsese
2016, Drama, 161 min.

Trailer (legendado):

Imagens: divulgação

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