Deus, ajude-me a salvar mais um

Objetores de consciência são pessoas que por causa de seus princípios religiosos (quase sempre protestantes) não se alinham com a filosofia militar. Muitas pessoas, inclusive, consideram os objetores de consciência antimilitaristas ou fanáticos pacifistas.

Desmond Doss (1919-2006) foi um objetor consciente que trabalhou como soldado socorrista do exército dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Filho de um carpinteiro com uma dona de casa, Desmond foi designado para uma companhia de atiradores durante a Batalha de Okinawa, e tornou-se o único – e primeiro na história – objetor consciente a receber a medalha de honra naquela batalha.

Por qual razão um “antimilitarista” recebeu a honraria máxima do exército americano? Doss salvou nada mais, nada menos, do que 75 soldados em uma única batalha. Isso mesmo: Desmond Doss, sem dar um único tiro, salvou a vida de 75 soldados durante a Batalha de Hacksaw Ridge, em Okinawa.

Sua história é recriada em Até o último homem, indicado à seis Oscars, incluindo o de melhor filme. O longa metragem também marca o retorno de Mel Gibson à direção, dez anos depois de seu último filme (Apocalypto, 2006) e alguns probleminhas com judeus, ex-mulheres e excesso de bebidas. Coisa pouca.

Brincadeiras à parte, independente dos problemas referentes a sua vida pessoal, é inegável o talento de Mel Gibson atrás das câmeras. Não é exagerado dizer que, caso mantivesse uma regularidade mais comercial entre os tempos de seus filmes e ficasse longe das polêmicas, Mel Gibson possivelmente seria um diretor do tamanho de Steven Spielberg, Martin Scorsese e Ridley Scott.

Porém Mel Gibson não é muito bom em fazer exatamente o que esperam dele.

Em Até o Último Homem, Andrew Garfield (cada vez melhor, merecidamente indicado ao Oscar por sua atuação) interpreta Desmond Doss em sua batalha pessoal e religiosa para servir o seu país no campo de batalha sem a necessidade de pegar em armas.

Mel Gibson filma com sua crueza e talento habitual, garantindo o pulso firme nas cenas de batalha. Até o Último Homem não é um filme para estômagos fracos, tendo vísceras, membros mutilados e sangue para tudo quanto é lado durante a história. Para os admiradores do cinema chocante de Mel Gibson – geralmente reconhecido pelo polêmico A Paixão de Cristo, 2004 – o filme cumpre seu papel ao mostrar a brutalidade de uma guerra.

Para iniciantes, no entanto, talvez o filme seja forte demais.

Até o Último Homem se sai muito bem em seu ato inicial. Mel Gibson e Andrew Garfield entregam um excelente trabalho de condução da trama, fazendo com que o espectador fique investido sentimentalmente com a frágil e estranha figura de Desmond Doss.

Porém no final do primeiro ato e durante boa parte do segundo, o filme assume ares de ‘deja-vu‘, principalmente para os fãs mais fervorosos de Stanley Kubrick. Várias passagens lembram Nascido Para Matar (1987), um estudo pessimista sobre psique humana submetida aos maus tratos provenientes de um treinamento militar de guerra.

Nada que tire, porém, os méritos da história. Se Mel Gibson perde um pouco a mão durante as cenas de preparação para a batalha (antes do filme ser indicado à maior premiação da indústria cinematográfica, o diretor apareceu reclamando, em entrevistas, da falta de liberdade criativa e das constantes discussões com os produtores), durante as sequências de combate o diretor é soberano e mostra ao mundo todo talento que ficou “enlatado” durante dez anos por causa da estranha mania do ser humano de não conseguir separar a vida pessoal da vida profissional.

O que se vê nas cenas de batalha é de um assombro técnico de deixar qualquer fã de filmes de guerra de queixo caído. A ‘cereja do bolo’, no entanto, está nas sequências de salvamento que Desmond Doss executa.

Em um misto de história de superação e thriller de guerra, Andrew Garfield mostra porque foi indicado para melhor ator e entrega uma atuação que, pelos melhores motivos, está longe dos manuais metodológicos de preparação de atores.

Até o Último Homem é uma daquelas histórias que precisavam ser contadas para além dos documentários e livros. É a história de um homem que desafiou todas as forças militares de sua época apenas para conseguir cumprir o seu propósito religioso de salvar pessoas. E mesmo sem pegar em uma arma, sem disparar um tiro sequer, Desmond Doss foi um dos mais corajosos soldados de campo que se teve notícias até os dias de hoje

Indicado à melhor filme, melhor ator, edição, mixagem e desenho de som, Até o Último Homem pode ser encarado também como o perdão definitivo a Mel Gibson, indicado na categoria de melhor diretor. O público, sempre carente de bons filmes, agradece.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge), de Mel Gibson
2016, Drama, Guerra, 139′

Trailer:

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Imagens: divulgação

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