A dor que é só sua

Certos papeis na história do cinema são verdadeiros presentes.

Seja um lutador mediano que “só quer ficar de pé durante 10 rounds” (Sylvester Stallone, em Rocky, 1976), seja um ator pornô estreante (Mark Wahlberg, em Boogie Nights, 1997), seja um jovem negro que, em pleno racismo dos anos 1950, deseja se tornar um mergulhador de resgate militar (Cuba Gooding Jr., em Homens de Honra, 2000), quando se recebe o presente perfeito, é quase impossível que o seu nome não seja lembrado para sempre pelos amantes da história do cinema.

Casey Affleck, irmão mais novo de Ben Affleck, recebeu esse presente.

Não de seu irmão. Não de Kenneth Lonergan, diretor de Manchester à Beira-Mar. Tampouco de Matt Damon, seu amigo de infância, que, por problemas de agenda, indicou Affleck para o papel. Casey Affleck recebeu esse presente, possivelmente, dos deuses do cinema. Pode parecer balela, mas os deuses do cinema adoram reparar injustiças.

Sempre visto à sombra de seu irmão mais velho, roteirista e diretor aclamado (e o novo Batman do universo cinematográfico da DC Comics/Warner), Casey Affleck sempre foi tido como um ator normal, low profile, estranho, que fazia uns filmes como coadjuvante de luxo em produções de médio/baixo orçamento.

Pouca gente viu o thriller Medo da Verdade, de 2007. Menos gente ainda assistiu ao faroeste O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, também de 2007. Por isso, hoje, todos estranham a monstruosidade dramática de Casey Affleck em Manchester à Beira-Mar, merecedor de todos os prêmios que vem recebendo (e franco-favorito ao Oscar de melhor ator por sua performance).

Casey Affleck, Joaquin Phoenix, Scoot Mcnairy, Joseph Gordon-Levitt, Guy Pearce…

Eu poderia citar mais uns trezentos nomes de maravilhosos atores que são esnobados pela grande crítica apenas por serem “estranhos” demais para o status quo vigente. O deslumbramento da crítica perante à atuação de Affleck em Manchester à Beira-Mar é, para este que vos escreve, apenas a confirmação de algo que Casey sempre entregou em seus filmes: atuações irretocáveis.

Em Manchester à Beira-Mar, Casey Affleck é Lee Chandler, um homem oco. Lacônico, mal-humorado e briguento, Lee é forçado a voltar para sua cidade natal por causa de uma tragédia familiar e precisará encarar todos os seus demônios em meio a dolorosas rememorações de um passado que ele ainda não conseguiu superar.

Kenneth Lonergan, que escreve e dirige o filme, posiciona sua câmera de forma crua, com enquadramentos típicos de peças teatrais filmadas, nunca de forma intrusiva, nunca querendo ser maior que suas personagens. A montagem, perfeita, intercala momentos de puro sofrimento com flashbacks que vão preenchendo os espaços negativos da trama, até culminar em uma atordoante revelação quanto ao passado de Lee Chandler.

Não é só Casey Affleck que está perfeito. Michelle Williams, em duas ou três cenas, também beira a perfeição de seu colega de cena, e o jovem Lucas Hedges dá um show de dramaticidade, na pele do sobrinho do personagem principal.

Manchester à Beira-Mar é um filme incômodo, triste e sem nenhuma sutileza. Todos os sentimentos são jogados no espectador como um tijolo, e o filme se questiona, a todo momento, sobre as dores que sentimos e o tempo subjetivo de cura. Afinal, seja qual for a sua dor, ela é sua. Apenas sua. Ninguém precisa aceita-la, tampouco respeita-la. Ela não deixará de doer mais ou menos por causa disso.

Um belíssimo soco no estômago em forma de cinema.

Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan
2016, Drama, 137′

Trailer:

Imagens: divulgação

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