Indiscrições

O filme 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi foi desclassificado da corrida pela estatueta na categoria de melhor mixagem de som. Isso porque Greg P. Russell ligou para alguns votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas pedindo votos, ferindo assim as regras definidas sobre o limite das campanhas por votos em cerimônias do Oscar.

Dirigido pelo odiado Michael Bay (mastermind da franquia Transformers), 13 Horas possuiu um papel importante durante as últimas eleições presidenciais, junto com o vencedor do Framboesa de Ouro desse ano, o documentário Hillary’s America, de Dinesh D’Souza, que expuseram facetas incomodas sobre a vida política da ex-mulher de Bill Clinton, sendo, inclusive, utilizados por seus rivais (Donald Trump, incluso) como instrumento de ataque a candidata.

Devido a uma indiscrição de Russell, 13 Horas ficou de fora da 89ª cerimônia de entrega dos prêmios da Academia. Infelizmente, o deslize de Greg P. Russel não foi a única indiscrição da noite de premiações.

Viola Davis, ganhadora da estatueta de melhor atriz coadjuvante por Um Limite Entre Nós, em meio a um discurso emocionado sobre a força das pessoas comuns, esqueceu de lembrar que concorreu em uma categoria de atuação secundária, mesmo que seu papel seja de protagonista em toda história, apenas por julgar que encontraria o caminho mais fácil para ganhar o Oscar.

Não só ela, como Dev Patel (Lion).

Este, porém, saiu de mãos vazias. Perdeu para Mahershala Ali (Moonlight), um coadjuvante de verdade, que brilhou nas poucas cenas em que esteve presente no filme dirigido por Barry Jenkins, que faturou o maior prêmio da noite.

Mau-caratismo? Não.
Indiscrições. Apenas indiscrições.
Indiscrições que passaram batidas, óbvio.
Mas não passariam, certamente, se os atores fossem brancos.
Em uma época de Oscar So White, quanto mais negro, melhor.

Não que o Oscar seja um primor de coerência e justiça, vide suas várias bolas foras ao longo dos anos (cof, cof… Shakespeare Apaixonado, cof, cof). Porém, em uma temporada marcada pelo discurso de igualdade entre raças, confesso que esperava um pouco mais de retidão moral por parte dos concorrentes. Santa ingenuidade.

Talvez fizeram isso para, sei lá, virar notícia.

Uma vez que a temporada de premiações foi tão previsível, qualquer polemicazinha já valeria para que os holofotes não se direcionassem totalmente para a grande briga da noite, entre La La Land e Moonlight. Não conseguiram.

A cerimônia

Como era de se esperar, a cerimônia de premiação foi marcada pelo discurso político anti-Donald Trump, principalmente nas questões sobre a famigerada construção do muro na fronteira entre EUA e México, e o veto-migratório para 7 países de maioria muçulmana.

Asghar Fahardi, diretor de O Apartamento, indicado a melhor filme estrangeiro, não compareceu, em protesto a medida do presidente americano. Tal medida, anunciada antes que os votantes entregassem suas escolhas, óbvio, beneficiou seu filme, ganhador da estatueta na categoria, deixando para trás o até então favorito Toni Erdmannn.

Irregular, O Apartamento é uma premiação de manifesto. Fahardi, que enviou um discurso para seu representante na cerimônia, levou o seu segundo Oscar na categoria (este, sabemos, indigesto).

Nas categorias de melhor documentário, animação, curta-metragem de animação, deu o garantido: O.J. Made In America, Zootopia e Piper levaram para casa o prêmio sem interferências.

Da mesma forma, tanto em roteiro adaptado quanto em roteiro original, nenhuma surpresa: Moonlight e Manchester à Beira-Mar, respectivamente, garantiram suas estatuetas.

Diferente, no entanto, de Até o Último Homem. O filme dirigido por Mel Gibson surpreendeu a todos e levou as categorias de melhor edição e melhor mixagem de som.

O destaque entre os números musicais da noite ficou por conta de Justin Timberlake, que abriu a cerimônia de forma intensa, apresentando Can’t Stop the Feeling, que faz parte do filme Trolls, colocando o Dolby Theater para dançar.

Timberlake, porém, não teve a mesma sorte na disputa, perdendo a estatueta para City of Stars, de La La Land, que também faturou o prêmio de melhor trilha sonora.

Já sobre Jimmy Kimmel, pode se dizer que ele foi seguro, com um timming interessante para as piadas, desde o seu monólogo de abertura, onde brincou com o discurso que Meryl Streep proferiu na edição passada do Globo de Ouro.

Entre suas várias de suas brincadeiras, Kimmel abordou dois turistas que passeavam pelos arredores do teatro, em um daqueles ônibus de dois andares, os fazendo entrar na cerimônia, e apresentou à eles gente como Nicole Kidman e Ryan Gosling.

Mas Kimmel optou por não correr riscos e jogou no garantido, reciclando eventuais quadros de seu programa, como os mean tweets e mandando mensagens eletrônicas para Donald Trump, que, mesmo sem dar sinal de vida pelas redes sociais durante toda a cerimônia, caminhava para tornar-se a figura mais comentada da noite.

A previsibilidade, porém, ficou apenas nas premiações.

Quando a arte é esquecida…

Para os mais atentos, era visível que a cerimônia estava com sérios problemas de organização. Logo no início, apesar da alegria imposta por Justin Timberlake, o playback vocal que acompanhava o cantor foi nitidamente percebido, enquanto ele, estranhamente, dançava nos momentos em que deveria estar cantando. Falta de ensaio, ousadia, exageros etílicos? Vai saber.

As ordens de entrega dos prêmios mudaram. Até então, a priori, problema nenhum. Mas roteiro adaptado junto com roteiro original, trilha sonora com canção original, ator e atriz após o prêmio de diretor? Não, algo estava errado no reino da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. E isso aparentava estar ligado diretamente ao posicionamento político que a cerimônia tomou.

As piadinhas anti-Trump e os discursos engajados contra o governante não falharam. E tome tweet provocativo para o presidente! E dá-lhe discurso contra o muro! Aparentemente, gastaram muito mais tempo com a propaganda política e se esqueceram do básico.

Sem contar quando a falta de educação reinou e os organizadores empurraram, em duas ocasiões, as pessoas para fora do palco, durante o discurso de vitória em categorias técnicas.

Algo estava estranho, e não era apenas a campanha anti-Trump que incomodava. As campanhas anti-quaisquer coisas chegaram a um nível completamente absurdo. Vide a recepção indiferente que o vencedor de melhor documentário, O.J. Made In America, recebeu em contraponto com a efusiva alegria nos momentos em que 13ª Emenda e Eu Não Sou Seu Negro apareceram na tela.

Todos documentários de temática negra.
Ao que parece, aqui, uns mais negros que os outros.

Falando em negros, a deselegância com que Denzel Washington (Um Limite Entre Nós) tratou o ganhador do Oscar de melhor ator, Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar), foi de uma falta de profissionalismo que não se espera de uma pessoa multipremiada e altamente educada como ele. Ficou feio. Muito feio

Outra coisa incomodou bastante. Sim, você sabe o que foi. Vamos tirar o elefante da sala de uma vez por todas: que coisa feia foi essa campanha velada contra La La Land!

Em tempos onde as polarizações estão atingindo níveis ameaçadores, os próprios convidados da cerimônia tratavam de diminuir a obra de Damien Chazelle a cada prêmio perdido. Nem mesmo quando ganhava algo, Chazelle, que, salvo engano, tornou-se o mais jovem diretor a ganhar a estatueta de direção em toda a história da premiação, tinha paz, com recepções mornas e visível má-vontade por parte dos convidados da cerimônia para com seu filme.

O jovem Damien Chazelle fez um filme que vangloria a Hollywood dos anos de ouro, o que, levando em consideração a idade média dos votantes, era a aposta mais correta da noite. Woody Allen fez isso (Café Society) e ninguém falou um “ai!”. Os Irmãos Coen, idem (Ave, César!).

Porque com La La Land foi diferente?
Inveja? Cobiça? Orgulho ferido?
Indiscrições, meus amigos.
Meras indiscrições.

Estamos em uma época estranha. Entendemos, mas gostamos de fingir desentendimento. Ouvimos, absorvemos, compreendemos, mas colocamos para fora emoções contraditórias, ofensivas e combativas. Reclamamos quando falta luz em nossas vidas, e reclamamos mais ainda quando temos luz demais.

Para coroar uma cerimônia que refletiu exatamente o mundo bagunçado em que vivemos, o prêmio máximo da noite, apresentado pelos veteranos Warren Beatty e Faye Dunaway, foi anunciado errado.

Ao entregarem um envelope errado para Beatty – da categoria de melhor atriz, que foi vencida por Emma Stone, de La La Land –, ele e Dunaway anunciaram o filme de Damien Chazelle como vencedor, quando, na verdade, o grande filme da noite foi Moonlight, de Barry Jenkins.

Os integrantes de La La Land, que comemoravam em cima do palco do Dolby Theater, deram lugar ao elenco de Moonlight, numa celeuma típica de um filme dirigido por M. Night. Shyamalan, que assumiu contornos dramáticos e constrangedores tanto para Beauty e Dunaway, quanto para Jenkins e Chazelle.

Enquanto uns tinham que parar de comemorar, outros comemoravam timidamente, e dois monstros sagrados da Nova Hollywood ficaram sem saber onde colocar suas caras.

Com os prêmios pulverizados entre vários outros filmes, La La Land, ganhador de 6 estatuetas, sagrou-se como o grande vencedor da noite, para a infelicidade geral dos presentes (e da internet). Moonlight, ganhador de melhor filme da noite, conforme previsto , foi ofuscado por um erro grotesco em uma cerimônia que se preocupou muito mais com o “lacre” do que com a arte. Infelizmente, 2017 será o ano do “mico”, não o ano de Moonlight.

O que era para ser um grito de liberdade, se transformou em chacota.
Donald Trump, que nada tem com isso, gargalha mais uma vez.
Absurdo? Desorganização? Não, nada disso.
Apenas indiscrições. Meras indiscrições.

Uma cerimônia que deveria exaltar a diversidade, a igualdade entre raças, diferentes etnias e a paz, se transformou em uma eminente bala de prata na credibilidade da Academia, que já vinha perdendo sua relevância ano após ano. Que tenhamos menos indiscrições, ano que vem.

Você pode conferir as críticas de todos os filmes indicados a principal categoria da noite aqui.

OSCAR 2017 – GANHADORES

ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali, “Moonlight: sob a luz do luar”
MAQUIAGEM E CABELO: “Esquadrão suicida”
FIGURINO: “Animais fantásticos e onde habitam”
LONGA DOCUMENTÁRIO: “O.J.: made in America”, de Ezra Edelman
EDIÇÃO DE SOM: “A chegada”
MIXAGEM DE SOM: “Até o último homem”
ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis, “Um limite entre nós”
FILME ESTRANGEIRO: “O apartamento” (Irã)
CURTA DE ANIMAÇÃO: “Piper”
LONGA DE ANIMAÇÃO: “Zootopia”
DIREÇÃO DE ARTE: “La la land: cantando estações”
EFEITOS VISUAIS: “Mogli: o menino lobo”
EDIÇÃO: “Até o último homem”
CURTA-METRAGEM: “Sing”, Kristof Deak e Anna Udvardy
CURTA DOCUMENTÁRIO: “The White helmets”
FOTOGRAFIA: “La la land: cantando estações”
TRILHA SONORA: “La la land: cantando estações”
CANÇÃO ORIGINAL: “City of stars”, de “La la land: cantando estações”
ROTEIRO ORIGINAL: “Manchester à beira-mar”
ROTEIRO ADAPTADO: “Moonlight: sob a luz do luar”
DIREÇÃO: “La la land: cantando estações”, Damien Chazelle
ATOR: Casey Affleck, “Manchester à beira-mar”
ATRIZ: Emma Stone, “La la land: cantando estações”
MELHOR FILME: “Moonlight: sob a luz do luar”

Imagens: divulgação/reuters

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