Itinerário amoroso de um diretor

A exposição sobre François Truffaut, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, “Truffaut: Um cineasta apaixonado”, nos conduz com sutileza e sensibilidade pela vida e obra do grande cineasta. A sensação que advém do ambiente à meia-luz, suave, com escurinhos; do cenário que nos envolve, convidando ora para sentar na cadeira do diretor (e ver trechos clássicos de sua filmografia em telas fixadas na parede), ora para entrar em “rolos de filmes” (muitas das imagens que compõem a mostra foram distribuídas em estruturas circulares, que adentramos nos recurvando); dos múltiplos objetos íntimos (como cadernos de anotações e originais de roteiros manuscritos) pode ser traduzida numa única palavra: intimidade. Truffaut se torna nosso companheiro dileto, à medida que avançamos por filmes, fotografias, objetos, textos, na mostra distribuída em salas de dois andares do MIS e constituída de mais de 600 itens.

Nascido a 6 de fevereiro de 1932 (aquariano!), em Paris, era desde menino um apaixonado pelo cinema, como a mostra comprova. Além de coleção de ingressos de filmes vistos quando criança e adolescente, também admiramos a incursão-mirim como cineclubista, ao lado de amigo. Ali está, por exemplo, a documentação do pedido feito à Cinemateca Francesa de empréstimo de cópias de filmes vanguardistas e cultuados, como o surrealista Um cão andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dalí, e Sangue de um poeta, de Jean Cocteau, para exibição no cineclube dos garotos. Se fosse bom aluno para os padrões convencionais, talvez tivéssemos ganhado um adulto medíocre e perdido um dos melhores cineastas da história: cabulava aulas para ver filmes e, muitas vezes, dava um jeito de entrar sem pagar. Enfant terrible. O episódio da criação do cineclube acabaria provocando, aliás, a internação do adolescente Truffaut em espécie de Fundação Casa francesa da época, motivada por imbróglio com pagamentos de associados e mediada pelo padrasto, Roland Truffaut.

É interessante notar o apadrinhamento do jovem Truffaut por grandes homens da cultura da época, como o crítico André Bazin, da mítica revista Cahiers du Cinéma, de que foi um dos fundadores, em 1951. Bazin ocupou afetivamente o papel de pai e tornou-se um dos grandes incentivadores da carreira do jovem talentoso e inconformado, primeiro como crítico (implacável, tantas vezes). Fato é que uma série de homens de cultura, de funda generosidade, os melhores do seu tempo, ajudou e muito na formação e orientação de Truffaut. Sem eles talvez ele não houvesse. Outra figura também se fez muito presente, agora como um igual, um irmão de caminho: a do cineasta Jean-Luc Godard, expoente, ao lado de Truffaut, de Claude Chabrol e de Alain Resnais, da Nouvelle Vague (Nova Onda), movimento de contestação e renovação do cinema francês, iniciado no finzinho dos anos de 1950. A iconografia revela visitas constantes de Godard a Truffaut, aqui e ali, nos sets de filmagem, cenas que não se repetiriam mais, depois de desavenças talvez mais estéticas que minariam a amizade.

O amor, sentimento complexo

O amor é provavelmente o grande tema da vida e obra de Truffaut, eis a razão do título da mostra. E amor de feição camoniana, da complexidade do sentimento, do “tão contrário a si é o mesmo Amor”. Um dístico, escrito à mão, fala de personagem em dois filmes, nos apresenta a visão do artista sobre o “mais nobre” dos sentimentos: “Nem com você nem sem você (Ni avec toi ni sans toi)”. Uma mútua negação que resulta positiva? A (con)fusão, no sentido de mistura intrínseca de sentimentos aparentemente contraditórios. Um dos painéis informativos sublinha a importância do amor para o diretor: “Sim, o amor é o tema mais importante que existe. É o assunto dos assuntos. Merece que lhe consagrem a metade da vida (como Bergman) ou três quartos dela (como Renoir). Da mesma maneira que cada relato tem seu valor intrínseco, todo amor é único”.

A complexidade do amor, segundo Truffaut.

ni avec toi ni sans toi truffaut MENOR 2
No segundo andar, depois de passar, no patamar da escada, pela seção dedicada à amizade e admiração de François Truffaut por Alfred Hitchcock (que resultaria na série célebre de entrevistas com o mestre do suspense, reunida no livro essencial Hitchcock/Truffaut: Entrevistas), chegamos à parte, digamos, mais interativa e sensorial da exposição. Atravessamos uma sucessão de cortinas de tecidos brancos, leves e diáfanos, em que se projetam cena de Jules e Jim – Uma mulher para dois, lançado por Truffaut em 1962, e alcançamos por fim a cena em si, em grande tela e em bom som. Catherine (Jeanne Moreau) canta Le tourbillon, acompanhada ao violão por Albert (Boris Bassiak, pseudônimo do escritor e pintor Serge Rezvani, autor da música) e observada por Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre). O filme trata de triângulo amoroso, de Jules, Jim e Catherine, com naturalidade. E corresponde à intenção explícita do diretor de fazer com que o espectador aceitasse tranquilamente na tela uma forma de fidelidade diferente, que normalmente rejeitaria em sua vida cotidiana. A arte subversiva, libertária.

Assista à cena clássica de Jules e Jim:

 

Ao deixarmos a companhia do trio amoroso, seguimos por um corredor de muitas portas coloridas. Somos convidados então a exercitar delicioso voyeurismo sem culpa, dando uma espiadinha ou pelo olho mágico ou pela fresta para depósito de cartas, reclinando-se quase ao chão ou genuflexos. Do outro lado, cenas de filmes do diretor protagonizadas por algumas das mulheres mais lindas e sensuais da história do cinema, como Catherine Deneuve. Hum…

Finda a nossa visita, já por volta das oito horas da noite (passou sem sentir, o tempo), uma ternura brincava no coração inda pueril, emocionando. Era como se corrêssemos, corrêssemos, corrêssemos, feito Antoine Doinel, na direção do mar, na direção da praia, da libertação?, de algum futuro?, do amor sereno e bom?, da esperança?, na sequência final tão bonita de Os incompreendidos (1959), que acabáramos de ver. É uma força que não precisa de nome, de palavra, essa que veio junto com a gente, e está ainda aqui, e daqui não sai.

 

francois-truffaut PARA FRASE“Faço filmes para realizar meus sonhos de adolescente, para fazer bem a mim mesmo e, se possível, às outras pessoas também”, François Truffaut. Ele veio a morrer em 21 de outubro de 1984, aos 52 anos.

Serviço

Exposição “Truffaut: Um cineasta apaixonado”

Quando: Até 18 de outubro de 2015. Terça-feira a sábado, das 12h às 20h; domingo e feriado, das 11h às 19h

Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia); grátis na terça-feira

Onde: Museu da Imagem e do Som, avenida Europa, 158, Jardim Europa, Zona Oeste de São Paulo

 

Foto de abertura, da mostra “Truffaut: Um cineasta apaixonado”: Ingrid Francini

Foto da citação manuscrita: Guilherme Azevedo

Foto de François Truffaut: Pierre Zucca/Divulgação

 

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