Normalidade cinematográfica

Primeiro semestre de 2017. Sim, o ano voa. Mais um ano desses que voam, pelo visto. A sensação de que os dias passam acelerados pode ser apenas uma percepção pessoal. Sendo assim, melhorarei a sentença. O ano, para mim, está voando.

Parece que foi ontem que vislumbrei um possível ganhador do Oscar. La La Land ou Moonlight. Um ganhou. Um quase ganhou. Um continuará sendo discutido. Um será lembrado apenas pela confusão. Os dois são bons. Um melhor que o outro, porém.

Alguns meses se passaram. Coisas boas passaram nas telas. Coisas ruins também. Polêmicas em Cannes. Polêmicas no Cine PE. Assisti ao filme do Olavo. Assisti ao filme sobre o Plano Real. Assisti ao estonteante Okja.

Gosto de polêmicas cinematográficas. Tanto o filme do Olavo quanto o do Plano Real, no entanto, nada tem de polêmicos. Para mim, sequer foi uma polêmica cinematográfica. Estão corroendo o cinema autoral. Não é assunto para hoje, no entanto.

Kong: A Ilha da Caveira é um besteirol com alma de filme B. John Wick 2, também. Logan foi interessante. Guardiões da Galáxia, não. Rei Arthur, também não. O que foi feito em Mulher-Maravilha já foi visto em Homem de Ferro (2008), Capitão América: O Primeiro Vingador (2010) e Batman Begins (2005). O que não quer dizer que seja ruim. Alien: Covenant me fez perder a paciência com a franquia. Desliguei o cérebro e tive ótimos momentos com Velozes e Furiosos 8.

Corra! não me conquistou. O que não quer dizer nada sobre a qualidade do filme. Até porque, pouca coisa tem me conquistado ultimamente. Fiz as contas um dia desses. Quase 5.000 filmes assistidos nos últimos 10 anos. Assisti, em média, 40 filmes por mês nos últimos 10 anos. Talvez as minhas vias de sedução cinematográficas estejam obstruídas pelo excesso de títulos.

Tenho visto muita coisa por obrigação, confesso. Apenas para me manter atualizado. Poucos filmes têm conseguido me tirar de casa. Mesmo que eu esteja em uma sala de cinema, religiosamente, no mínimo uma vez por semana. Sem muita animação. Progressão é melhor que perfeição, eles dizem. Acredito. Tomara que esteja certo.

De tudo que vi até agora, poucas coisas fugiram da mesmice que se tornou o cinema. Tenho visto muitos filmes blockbusters pasteurizados. Assim como muitos filmes independentes experimentais demais. O cinema médio tem se acabado silenciosamente. Ou se é grandão e igual, ou pequenino e estranho.

Por isso, listo aqui 5 filmes médios desse semestre. Veja bem. Não são os melhores. Tampouco os piores. São apenas filmes médios. Bem feitos. Interessantes. Que passaram sem fazer alarde. A normalidade não chama atenção. Talvez nunca chame. Ou se é estrondo ou estranheza. Infelizmente.

Sem mais divagações, vamos aos filmes.

 

Free Fire, de Ben Wheatley (2016)


Reza a lenda que para se fazer um bom filme com pouco dinheiro, basta colocar um monte de gente em um único ambiente, dar alguns bons diálogos e uma função para cada ator. Ben Wheatley, com a benção de ninguém menos que Martin Scorsese, que assina como produtor executivo, seguiu esse lema. Porém, ao invés de um monte de gente, colocou gente do calibre de Armie Hammer, Brie Larson, Sharlto Copley, Cillian Murphy, Sam Riley, Michael Smile, deu uma arma na mão de cada um e fez um ótimo e descompromissado filme de ação. Segurado por um fiapo de trama (uma negociação de armas que deu errado), Free Fire é uma dessas pérolas escondidas do cinema médio.

Armas na Mesa, de John Madden (2016)


Com um ritmo frenético que lembra muito os roteiros escritos por Aaron Sorkin, o diretor John Madden se vale da eficácia de Jessica Chastain – retumbantemente ignorada no último Oscar – como a fria e calculista Elizabeth Sloane, brilhante e inescrupulosa lobista do ramo de armas. Para entusiastas dos “walk and talks” de Sorkin, revelações bem estruturadas e entretenimento despretensioso e de qualidade.

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo, de Macon Blair (2017)


Tem um pessoalzinho que está fazendo um cinema honesto e conquistando uma base de fãs cada vez maior ao redor do mundo. Macon Blair faz parte dessa turma. Destaque (como ator) nos filmes de seu amigo Jeremy Saulnier, Blair estreia na direção desse estranho e belo filme, que conta a história de uma improvável amizade que se desenvolve em torno das insatisfações mundanas de seus protagonistas. Macon Blair. Jeremy Saulnier (aqui, como produtor). Guardem esses nomes. Eles ainda farão muito barulho por aí.

 Paro Quando Quero, de Sidney Sibilia (2014)


Para quem acha que o cinema italiano se resume àqueles filmes complexos de Fellini – e imitadores de seu estilo, como Paolo Sorrentino – esse filme lançado em 2014 que chegou ao Brasil apenas esse ano é o oposto de todo aquele cinema intelectualizado. Colorido, espalhafatoso e lisérgico, Paro Quando Quero é uma mistura da série Breaking Bad com um roteiro escrito por algum entusiasta do cinema dos Irmãos Coen. Vale dar uma chance.

Paterson, de Jim Jamursch (2016)


Ainda que seja tratado como eterno cineasta independente, hoje mais sobre a forma de filmar do que pelos valores financeiros envolvidos, desde Flores Partidas (2005) que o cineasta conta boas histórias pautadas orçamentos médios. Em Paterson, Jamursch entrega o que parece ser a obra definitiva sobre a banalidade dos dias normais, em uma atuação irretocável do cada vez maior Adam Driver. Obrigatório.

Imagem: divulgação

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