Nossa esperança é um Palhaço

Escolhido como representante brasileiro na corrida pelo inédito Oscar de melhor filme estrangeiro, Bingo O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende, é o melhor filme nacional desde Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles.

Por mais que alguns não concordem com essa afirmação – elencando o thriller de ação Tropa de Elite (2010) ou o drama familiar Que Horas Ela Volta (2014) como os últimos grandes filmes nacionais – a verdade é que há tempos o cinema brasileiro não era presenteado com uma obra tão coerente e visceral.

Deixando de lados todas as bobagens desconstrucionistas que soterraram a criatividade dos realizadores cinematográficos de nosso país, Daniel Rezende focou-se no básico do básico: contar uma boa história, de forma intensa, com início, meio e fim, focado nos personagens e seus arcos dramáticos. Apenas isso.

Sem a pretensão “ressignificante imagética rocambolesca” que a maioria dos filmes nacionais dos últimos anos – que adoram soar pseudocults – apresentam nas telas. Sem a desculpinha esfarrapada de que é necessário “sentir o filme“. Sem a arrogância estética completamente hermética para o espectador médio, que fazem os filmes parecerem teses de doutorado, ao invés de apenas boas histórias.

Inspirado na vida de Arlindo Barreto, o primeiro e mais polêmico palhaço Bozo da história da televisão brasileira, Bingo – O Rei das Manhãs conta com um elenco afiadíssimo, encabeçado por um explosivo Vladimir Brichta como protagonista. Poucas vezes na história de nosso cinema um ator conseguiu se entregar tanto a uma atuação a ponto de “sumir” dentro do personagem como Brichta consegue fazer neste filme.

Vladimir Brichta é o Palhaço Bingo.

Esperto, Rezende se utiliza dessa mera inspiração na vida de Arlindo/Bozo para não apresentar compromissos com nomes, marcas ou com a verossimilhança biográfica, encadeando realidade e fantasia dramática em um filme com mais músculos que gordura. Da galhofa à ironia, passando pelo melodrama pesado e situações de apuro técnico extremamente instigantes, Bingo – O Rei das Manhãs é, até agora, o melhor filme brasileiro da década.

Sem exageros.

Um palhaço no Oscar?

Mesmo com as polêmicas do ano passado que envolveram o interessante Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e o inócuo Pequeno Segredo, de David Schurmann, é com Bingo – O Rei das Manhãs que o Brasil parece ter mais chances de garantir a tão perseguida – e constantemente desmoralizada, pelo menos até ser conquistada – estatueta de melhor filme estrangeiro no Oscar.

Independente de toda questão política que envolveu o filme de Kleber Mendonça Filho, mesmo que fosse o escolhido para representar o país, independente das muitas premiações que recebeu, Aquarius teria conseguido sequer chegar a shorlist prévia dos nove filmes estrangeiros pré-indicados na edição passada.

Filmes como Land Of Mine (Dinamarca), Toni Erdman (Alemanha) e até o regular Tanna (Austrália) estavam degraus acima da produção brasileira. Isso sem falar nos espetaculares Um Homem Chamado Ove (Suécia) e O Apartamento (Irã), este último o vencedor da última edição.

Bingo – O Rei das Manhãs possui toda uma malemolência que difere completamente de Aquarius, onde a necessidade de se afirmar “brasileiro” salta a tela em vários momentos. O filme de Daniel Rezende, justamente por não tentar se afirmar brasileiro, acaba demonstrando vários atributos positivos e negativos de nossa pátria. Isso, em uma competição de alto nível comercial como o Oscar, conta pontos.

No entanto, mesmo tratando-se de um excelente filme, o caminho do palhaço Bingo até a estatueta não será fácil. A lista de candidatos à melhor filme estrangeiro de 2018, até agora, está tão (ou mais) forte do que a do ano passado.

Nomes como o do sueco Ruben Östlund (do embasbacante Força Maior, 2014, e vencedor da palma de ouro no festival de Cannes deste ano) e do chileno Sebastián Lelio (do sensível Gloria, 2013) dividem espaço com o dinamarquês Joachim Trier (do maravilhoso Oslo, 31 de Agosto, 2011) e com o gigante Michael Haneke (do petardo Amour, vencedor do Oscar em 2013) e fazem com que a estrada de nosso palhaço seja um pouco mais tortuosa.

Nada que nos tire a esperança de ver um representante do cinema brasileiro de qualidade no Doubly Theater em 4 de março de 2018. Apesar do pessimismo de alguns, que enxergam sua nomeação como uma espécie de milagre, visto a notória qualidade dos representantes de outros países – Alôôôô, vira latas! –, vale a pena, mesmo que por alguns meses, tomarmos como conselho as sábias palavras ditas por Augusto (Brichta) em uma determinada altura do filme: “o impossível é a meta”.

O trabalho é árduo, mas eu acredito.
Da-lhe, Bingo! Acaba com eles, seu Palhaço!

Bingo – O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
2017, Drama, Humor, Biografia – Brasil

Trailer

Imagens: divulgação

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