O melhor do cinema em 2016

O ano de 2016 termina em uma nota negativa. Seja na vida real, seja na fantasia, 2016 foi um ano complicado. Se no campo da realidade várias tragédias nos tiraram o brio, no campo do audiovisual estamos passando por uma fase ruim que não quer melhorar de jeito nenhum.

As premiações estão cada vez mais vazias, sendo seguidas por críticas que se pautam na mesma toada, muitas vezes embasadas em vídeos curtos ou em parágrafos minúsculos, fazendo com que a profissão de crítico cinematográfico se transforme num mero consultor de qualidade dos lançamentos da semana e só.

Isso quando a tal qualidade não é discordante com as opiniões de quem as procura. Caso contrário, o crítico cinematográfico se transforma em alguém ressentido, que não possui capacidade de analisar cinema, ou que gosta de polemizar, quando um filme que o leitor gosta possui uma nota negativa, ou vice-versa.

Claro, nem tudo são espinhos.
Coisas impressionantes aconteceram.

A computação gráfica de qualidade encheu os nossos olhos (Mogli: O Menino Lobo, de Jon Favreau); a qualidade narrativa, quando existiu, atravessou as fronteiras da língua (Invasão Zumbi, de Yeon Sang-ho, e The Salesman, de Asghar Fahardi); e tivemos fagulhas sobre boas discussões ainda em voga (Torre de Marfim, de Andrew Rossi, Snowden: Heroi ou Traidor?, de Oliver Stone e Decisão de Risco, de Gavin Hood).

Mas a dura sina continua, como nos anos anteriores: filmes divertidos (Dois Caras Legais, de Shane Black) passaram pelas salas e ninguém assistiu, assim como arriscadas e interessantes produções vindas do streaming (Rebirth, de Karl Mueller) sequer foram notadas.

Quando muito, tivemos um terror de baixo orçamento (O Homem das Trevas, de Fede Alvarez) que conseguiu uma pequena atenção aqui e ali, ou diretores que lotaram os filmes de estrelas para conseguir fazer algum barulho (Jogo do Dinheiro, de Jodie Foster e A Grande Aposta, de Adam McKay), mesmo se tratando de assuntos sérios e importantes.

Isso, em um ano em que nem as animações deram muito certo, ficando entre o esteticamente lindo, mas previsível (Kubo e as Cordas Mágicas, de Travis Knight) e o legalzinho, divertido e ponto final (Zootopia, de Byron Howard e Rich Moore).

Vivemos tempos complicados.
Tempos em que a desvalorização é mais importante que a informação.
Conhecimento e opinião séria caminham para um triste abismo.

Porém vamos deixar de chorar as pitangas e vamos nos focar no que de melhor aconteceu no cinema em 2016. Os filmes acima podem ser tratados como “menções honrosas“, e, os que vêm a seguir são, na opinião da redação de cinema do Jornalirismo, o crème de la crème do que passou nas telonas esse ano.

Listas de melhores filmes são, em sua essência, complicadas por dois motivos: 1) os esquisitos contratos de distribuição brasileiros fazem filmes estrearem com até 6 meses de atraso quanto ao resto do mundo, além de filmes que são exibidos em festivais e são comprados posteriormente, estreando com mais atraso ainda; e 2) o critério altamente subjetivo de quem elege os melhores.

Assim, foi elencado os melhores filmes que tiveram lançamento mundial até dia 16/12/2016, lançados ou não no Brasil (o que, para alguém que se interessa por cinema e sabe dar uma garimpada mínima na internet, convenhamos, não é nada de mais, certo?).

Posto isso, use a lista abaixo como uma espécie de curadoria pro-bono. Se o filme que você gostou está aqui, comemore e compartilhe. Caso contrário, corra atrás dos títulos que você não assistiu e/ou desconhecia antes de serem citados aqui. Com Natal e Ano-Novo caindo em finais de semana, talvez você ainda possa ter boas surpresas cinematográficas antes que 2017 bata à sua porta.

10º Mundo Cão, de Marcos Jorge

O badalado e esquisito Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, se perdeu no debate ideológico recente, e, por mais que tenha sua qualidade reconhecida pela crítica especializada, polariza opiniões perante o público. Diferente desse aqui, que, sem sombra de dúvidas, é um dos mais interessantes filmes nacionais de 2016. Com atuações irretocáveis de Lázaro Ramos e Babu Santana, Mundo Cão possui, de longe, o melhor roteiro do cinema brasileiro de entretenimento em anos. Um filme para o público, seja ele de direita, de esquerda, isentão ou apenas alguém à procura de bons filmes falados em português.

9º O Valor de um Homem, de Stéphane Brizé

Nesse drama sociocultural francês, o ator Vincent Lindon é o filme. Sua atuação como um homem desempregado que consegue um inusitado emprego e passa a se tornar uma espécie de guardião da lei e da ordem dentro de seu espectro de vida é avassaladora. Infelizmente, o título original do filme (La Loi Du Marché, A Lei do Mercado, em tradução livre), que complementa a história com uma rima narrativa tão forte e interessante, se perdeu na tradução para o português.

8º A Bruxa, de Robert Eggers

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar claro que existe uma diferente enorme entre terror e horror (Google it!). Assim sendo, não, A Bruxa não é o melhor filme de sustos, e sim o melhor filme de terror de 2016. Peças como Invocação do Mal 2 e Quando as Luzes se Apagam cumprem melhor a função de assustar os dispostos a serem assustados. No entanto, se você quiser assistir a um filme onde roteiro, direção, atuações (principalmente as infantis), fotografia e criação de um ambiente assustador estão impecáveis, faça um favor a você mesmo e assista A Bruxa. Se possível, com as luzes acessas.

7º Rogue One, de Gareth Edwards

Um filme dentro do universo de Star Wars que mexe com a infância de todos os fãs trintões e quarentões da saga. Gareth Edwards fez um filme de guerra, com machucados e explosões “reais”, vidas sendo ceifadas, infiltração militar e deu vida ao que todo(a) garoto(a) fã do universo criado por George Lucas já fez na vida: criar uma guerra e colocar Stormtroopers para lutar contra os G.I. Joe’s e outros personagens que sempre estiveram presentes em suas caixas de brinquedos. Nem de longe é o filme mais perfeito do ano, mas é o filme que todo fã de Star Wars que já brincou de bonequinhos sonhou em ver um dia e nunca achou possível que pudesse ser concebido para além de seus sonhos mais otimistas.

6º Zero Days, de Alex Gibney

Toda vez que o nome de Alex Gibney estiver envolvido em alguma produção, não pense duas vezes e assista-a. Em Zero Days, o polêmico documentarista investiga as origens do Stuxnet, arma cibernética criada por EUA e Israel que destruiu os softwares das principais reservas de energia nuclear do Irã, em 2010. Com toques de filme de horror, Gibney mostra que a tão falada 3ª Guerra Mundial poderá (deverá) acontecer através de programadores e vírus, ao invés de soldados e armas.

5º Capitão Fantástico, de Matt Ross

Em uma época onde remakes, sequências, prelúdios e spin-offs abundam na produção audiovisual, o cinema independente deita e rola, produzindo pequenos clássicos modernos e pérolas como Capitão Fantástico. Aqui, um pai decide levar seus filhos para um sítio afastado da humanidade, a fim de educá-los fora dos moldes sociais contemporâneos. Tudo vira uma bagunça quando a criançada, versada em ciência política, alta literatura, sobrevivência e artes marciais precisam voltar ao mundo real e lidar com os seres humanos domesticados pelo sistema. Uma dica: lembre-se de pegar o lenço antes de começar a assistir.

4º A Chegada, de Denis Villeneuve

Se existe alguém capaz de acabar com a polarização entre Blockbusters e Filmes de Arte, esse alguém atende pelo nome de Denis Villeneuve. Sua ficção científica é pesada, cheia de referências escondidas, com ecos em peças clássicas do cinema arthouse como 2001: Uma Odisseia no Espaço, Contato e Solaris, porém, transborda beleza estética e é palatável para todos os públicos. Fora isso, ainda consegue deixar um urgente alerta a um mundo em que, cada vez mais, se comunica menos.

3º Elle, de Paul Verhoeven

Paul Verhoeven voltou. E voltou com tudo. Enquanto uma espécie censura branca não deixa os realizadores ousarem em suas produções, Verhoeven catou suas malas e foi para a França filmar a história de uma mulher que tenta manter o controle de sua vida após ser violentada. Com ajuda da maravilhosa Isabele Huppert, Paul Verhoeven bate no feminismo, bate no politicamente correto e bate em todos os cineastas que tem medo de usar a linguagem cinematográfica para desafiar o publico. Estranhamente esnobado na shortlist do Oscar de 2017 para melhor filme estrangeiro, Elle ainda pode abocanhar pelo menos duas indicações em categorias principais, como melhor Diretor e Atriz.

2º A Qualquer Custo, de David Mackenzie

Um filme duro, que mostra uma realidade que é tão cruel, tão brutal, que faz com que as pessoas se escondam nas felicidades de plástico presentes de suas timelines. A história dos irmãos que decidem fazer pequenos assaltos para conseguir pagar a hipoteca de um sítio deixado pela mãe deles é comovente, triste e machuca a alma de todos os espectadores que se dão ao trabalho de entender as reais consequências de uma crise financeira de grandes proporções, como foi a das hipotecas subprime de 2008, nos EUA. Um tijolo que, de vez em quando, precisa cair em nossas verdades preconcebidas pelos algoritmos das redes sociais.

1º A Criada, de Park Chan-wook

É interessante perceber que o melhor filme do ano foi feito na Coreia do Sul. Falta coragem onde sobra business, e o resultado é vermos clássicos do cinema moderno surgirem, cada vez mais, em línguas diferentes do inglês. Park Chan-wook, diretor do aclamado Oldboy, acerta novamente com A Criada. Seu filme é uma daquelas aulas de cinema onde tudo funciona: da riquíssima direção de arte até as atuações dos figurantes. Nada é por acaso nesse que talvez seja o único filme obrigatório de 2016. Se você tiver tempo para assistir a apenas mais um filme nesse ano, nem pense duas vezes antes de assistir A Criada. Estupendo.

Imagens filmes: Divulgação
Imagem Capa: Michael Cho (for The New Yorker Magazine)

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