Onde arte e ideologia deveriam se encontrar

Se existe um filme que pode tirar o Oscar de La La Land na principal categoria da noite de premiações, este filme é Moonlight: Sob a Luz do Luar. Dirigido por Barry Jenkins (também indicado à melhor diretor), o drama “adaptado” da peça In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney, chegou devagarinho e se colocou à frente dos outros possíveis postulantes ao maior prêmio da indústria cinematográfica americana.

Coloco o termo “adaptado” entre aspas por um fato curioso: Moonlight foi inspirado em uma peça que nunca viu a cor dos palcos. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas decidiu por considerar o drama como roteiro adaptado, diferente do, vejam só a ironia!, Writers Guild of America, que o considerou como melhor roteiro original, uma vez que a peça escrita por McCraney nunca viu a luz do dia.

(des)Convencionalidades à parte, seja peça, seja filme, a história de Moonlight poderia passar despercebida durante a temporada de premiações, não fossem dois acontecimentos de extrema grandeza que impulsionaram o filme (além, é claro, de sua extrema qualidade narrativa): as acusações a Nate Parker e a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos.

Semanas depois da edição passada do Oscar, ainda envolto em toda polêmica do #oscarsowhite, Nate Parker e seu Birth Of A Nation surgiram como “o filme negro do momento”, e foi, ainda em Sundance (que ocorre entre janeiro e fevereiro após o Oscar), içado à postulante do prêmio de melhor filme do ano. Atores negros, filme independente, apropriando-se do título de um dos primeiros filmes da história do cinema – que, à época, fazia alusões positivas à organização racista Klu Klux Klan.

Não tinha como dar errado.
Bem… deu. E muito.

Passados alguns meses, descobriram o inevitável: o filme era ruim. Muito ruim. Birth Of A Nation é um mero exercício de individualismo de Nate Parker, que, ao protagonizar, dirigir, escrever e produzir, se pintou como um suposto herói de um evento risível da história dos Estados Unidos, e, como qualquer entusiasta da história do cinema pode perceber, teve algumas de suas cenas ridiculamente copiadas do clássico moderno Coração Valente, de 1995, dirigido por Mel Gibson.

E as acusações de estupro? E o fato de Nate Parker ser negro? Balela. O filme é ruim, independente de Nate Parker ser culpado ou ser um anjo de candura. Casey Affleck está aí, com os mesmos problemas, porém em um filme bom, e possivelmente levará um Oscar por sua atuação no impecável Manchester à Beira-Mar, para provar que, se Birth Of A Nation fosse excelente, os caminhos poderiam ser diferentes.

Ah, mas Casey Affleck é branco e Nate Parker é negro“!

Assista aos dois filmes, se possível em sequência, volte aqui, releia os dois parágrafos acima, e veja se mantém a mesma opinião. Dica: desconsidere a cor dos atores e foque no filme em si.

Eu, que já sei a resposta, sigo por aqui.
Andiamo!

Além de toda essa celeuma em torno de Nate Parker e seu filme, Donald Trump já liderava as pesquisas para concorrer ao cargo de presidente dos Estados Unidos. Especialistas e público procuravam um novo filme que fosse de encontro aos discursos (e possivelmente de temática negra) do agora presidente para defender. Dessa forma, Moonlight apareceu entre os postulantes à melhor filme do ano.

Não que Moonlight seja um filme ruim.
Longe disso. Pelo contrário, é um filmaço.

Orçado em apenas Us$ 5 milhões, Barry Jenkins dirige com maestria a jornada de Chiron (Trevante Rhodes, Ashton Sanders, Alex Hibbert) em busca do autoconhecimento. Contada em três tempos, com três atores diferentes, que, mesmo não tendo muitas semelhanças físicas, mantém as mesmas nuances dramáticas de Chiron durante o filme inteiro, o que eleva Moonlight, merecidamente, a um dos melhores filmes da última temporada.

Moonlight é uma aula de como fazer cinema barato, de forma concisa e sensível aos dilemas pessoais e sentimentais dos seres humanos, negros ou brancos.

Para abrilhantar ainda mais a história, o elenco de apoio dá um show. Mahershala Ali (indicado como melhor ator coadjuvante) enche os olhos do espectador de lágrimas durante as poucas cenas em que aparece, enquanto Naomie Harris (também indicada, porem na categoria melhor atriz coadjuvante) entrega uma das atuações femininas mais fortes entre os 9 indicados da categoria principal (se cuida, Viola Davis!).

O grande problema de Moonlight é que o filme, aparentemente, vem assumindo uma postura (pela campanha de divulgação, público e crítica) mais como uma “resposta” aos acontecimentos sociais recentes do que como uma peça cinematográfica de excelência, o que pode confundir os votantes da Academia. Bons filmes de orçamento limitado advindos de festivais pululam todos os anos para as telas dos cinéfilos de carteirinha, e Moonlight pode ser encarado como “apenas mais um deles”.

Tudo dependerá da tônica da celebração de entrega dos prêmios. Se os votantes premiarão o agridoce “american way of life” de La La Land, ou se partirão para a briga contra Trump com Moolight. Voltarei ao assunto nos próximos textos.

Por enquanto, assista Moonlight!

Sendo um postulante ao Oscar, ou apenas um excelente filme, Moonlight é uma daquelas histórias que não podem passar despercebidas pelo público em geral. É uma possibilidade para você, leitor/espectador, sair de sua zona de conforto cinematográfica e entender um pouco do mundo real que as redes sociais e as polarizações atuais vêm tirando, lentamente, de nossas vistas.

Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins
2016, Drama, 110′

Trailer:

Imagens: divulgação

Comentário