Os eleitores de Trump que a sua timeline tenta esconder

Desde 2013 o brasileiro médio, aquele que fica no facebook durante a maior parte do seu tempo livre, voltou a interessar-se por política. Protestos, discussões e polarizações sobre os mais variados assuntos marcaram esses três últimos anos de existência virtual de nossa população. Além disso, o advento da internet levou o conceito de ilusão de competência para outro patamar: hoje, todos nós somos especialistas em qualquer assunto com um simples clique na janela do lado.

Temos vários especialistas em processos de votação de vários países, geopolítica clássica, interpretação de leis e projetos obscuros do(s) governo(s). Normal. A facilidade com que tais informações são arremessadas em nossas timelines nos proporciona tal ilusão de forma inconsciente. A última, porém, sobre as últimas eleições americanas, onde o magnata Donald Trump sagrou-se vencedor, surpreendeu a quase toda imprensa e usuários de redes sociais, que apostavam em uma vitória acachapante de Hillary Clinton.

Não tardou para aparecer os especialistas políticos do facebook com suas mais bizarras teorias: fake-news, pós-verdade, aceno à Rússia, atl-rights, 3ª Guerra Mundial, compra de votos e várias outras atrocidades que são cuspidas em nosso ambiente virtual e faz com que incautos que sempre tiveram sua voz reprimida por anos tenha um discurso genérico para poder defender.

Digo discurso para ser polido, uma vez que ele tem sido cada vez mais reduzido ao pastiche, assemelhando muitas vezes a um grunhido de poucas sílabas e muitos gritos.

Infelizmente tais pessoas estão muito mais interessadas em lutar contra PECs, gritar palavras de ordem nas ruas e atacar seus divergentes em suas timelines do que tentar entender como um dono de uma rede de hotéis e apresentador de um popular reality-show tornou-se o presidente dos Estados Unidos da América.

Qualquer pesquisa um pouco mais elaborada pode te jogar para informações interessantes, como esse texto aqui , que correlaciona a vitória de Trump com o que é mostrado na segunda temporada da “melhor série feita por um canal de televisão que quase ninguém assistiu“, The Wire.

O entretenimento audiovisual vem dando pistas claras do porquê Donald Trump desbancou Hillary Clinton e tornou-se presidente. Filmes como o documentário Inside Job, A Grande Virada, The Big Short e o tesouro escondido (que quase ninguém viu, pra variar) 99 Homes traçam um paralelo social bem interessante, conseguindo mostrar de forma clara quem são os reais eleitores que colocaram o apresentador d’O Aprendiz no poder, porque eles fizeram isso e quem são os verdadeiros vilões dessa história toda.

Por mais assustador que isso possa parecer ao brasileiro engajado, não, os EUA ainda não se recuperaram do crash das subprimes imobiliárias de 2008 (a famosa “marolinha“, que desde o ano passado vem afogando mais de 12 milhões de brasileiros desempregados). Somos iludidos por cartões postais e vloggers galerosos que maquiam a realidade em um discurso facilmente identificável.

Assim, o brasileiro médio conhece a América da Times Square, de Manhattan e do Central Park. Lugares lindos, limpos e assépticos à pobreza que desola a maioria do país há muito tempo. Terminologias politico-geográficas como rust belt são desconhecidas, assim como a realidade de cidades como Baltimore, Toledo, Boston e boa parte do Texas.

Nesses lugares, o sonho americano acabou. Não existem mais empregos. Hipotecas atrasadas fazem com que as pessoas se tornem escravas dos bancos, que, por mais que tenham “quebrado” anos antes, continuam no poder. As fábricas foram embora e levaram consigo, além dos empregos, a esperança de uma vida melhor após esses e outros catastróficos eventos.

Não à toa, ao utilizar-se do mesmo slogan de campanha de Ronald Reagan, nos anos 1980, Make America Great Again, Donald Trump, independente dos impropérios destilados durante sua campanha, se aproximou desse povo. Seus esforços foram focados nessas cinco letras: A-G-A-I-N (novamente). Qualquer estudioso ou entusiasta da Análise do Discurso consegue dimensionar o poder que essas cinco letras tiveram para tirar os eleitores mais velhos de casa para dar a vitória ao candidato Republicano.

Quem votou nele escolheu o “again”, escolheu a esperança de que a realidade dos dias de hoje possa melhorar, mesmo que ela seja apenas um vislumbre de algo completamente retrogrado e descabido.

A Qualquer Custo mostra muito bem essa cruel realidade. Dirigido por David Mackienze, o filme conta a história de dois irmãos (Chris Pine e Bem Foster) que decidem organizar pequenos assaltos a bancos a fim de arrecadar o dinheiro necessário para quitar a hipoteca de um velho sítio que a mãe deles deixou de herança.

Veja bem: não são grandes assaltos. Não existe o FBI na cola dos irmãos. São assaltos às chamadas agencias de bairro, onde eles entram, pegam apenas o que tem nos caixas e vão embora. Não querem enriquecer. Querem apenas o suficiente para pagar suas próprias dívidas, uma vez que o banco só emprestou à mãe deles o suficiente para mantê-la pobre e endividada para sempre.

Na cola deles, um patrulheiro (Jeff Bridges) tenta adivinhar os próximos passos dos irmãos, enquanto precisa lidar com sua iminente aposentadoria. Também não existe um grande plano por parte desse oficial da lei. Ele, junto com seu parceiro (Gil Birminghan), apenas está dentro de um carro tentando antecipar os próximos passos da dupla, errando (ou chegando atrasado) na maioria das vezes.

No caminho, porém, percebem o óbvio: tais assaltos refletem uma América que foi desgraçada por sua própria cobiça. Alguns bancos assaltados sequer possuem sistemas de segurança, por serem caros demais. Algumas pessoas prestam depoimentos claramente acobertando as atitudes dos ladrões. No fundo, talvez, essas mesmas pessoas queriam ter a coragem daqueles dois assaltantes.

Uma frase pichada na parede, na cena inicial, é emblemática: “três investidas no Iraque e nenhuma possibilidade de renegociarem nossas hipotecas“.

O roteiro de Taylor Sheridan contempla perfeitamente essa dicotomia. Os irmãos estão praticando assaltos, ato que, sabemos, está fora da lei. Porém, como classificá-los como ladrões, uma vez que eles estão roubando dos grandes causadores de todo aquele cenário de dor e sofrimento que vemos durante as várias cenas do filme?

Da mesma forma que a legislação diz que acobertar criminosos é errado, porém, como não sentir uma pontinha de orgulho ao ver que dois rapazes tiveram a genial ideia de “pagar os bancos com o próprio dinheiro dos bancos“?

A fotografia árida realça a falta de esperança daquela parte do país. Os tons amarelados das estradas e casas contrastam perfeitamente com os banners reluzentes de dinheiro já e renegocie sua dívida que aparecem entre um frame e outro, deixando claro o subtexto de que os bancos nunca ruíram de verdade (vide Too Big To Fail, telefilme da HBO sobre o crash de 2008).

Os movimentos de câmera são milimetricamente calculados, com alguns planos-sequencias que modificam os enquadramentos de acordo com a necessidade da cena, sendo complementados por takes que nunca se afastam o suficiente da ação, sufocando o espectador naquela incomoda realidade.

A todo momento o espectador tem o senso de certo e errado questionados durante a projeção. Dois momentos, no entanto, conseguem definir perfeitamente o que é a realidade dos que hoje são classificados na internet apenas como os eleitores de Trump.

Em um deles, uma garçonete acoberta os criminosos apenas por ter recebido uma gorjeta generosa, e justifica para os policiais, que tentavam fazer com que o dinheiro se transformasse em uma evidência investigativa, que aquela quantia era equivalente à metade de sua hipoteca.

A moça se recusa a entregar o dinheiro, dizendo que enquanto os criminosos não forem pegos, ela usará a gorjeta recebida para manter o teto sob a cabeça de seus filhos. Pesado, cruel e extremamente realista.

No outro, um dos ladrões se explica sobre a razão pela qual os assaltos são cometidos: os filhos. Para ele, a pobreza que acomete sua família é igual a uma doença, e tudo que ele não quer para a vida de seus rebentos é que eles sejam infectados por ela. Desempregado e sem oportunidades de cumprir seu objetivo da forma correta, ele decide assaltar bancos nos primeiros horários da manhã, tentar pagar a dívida do sítio e deixa-lo de herança para sua família.

Ele não quer assaltar os bancos de Wall Street, ter Ferraris e mulheres seminuas acordando ao seu lado. Ele apenas quer que seus filhos tenham o suficiente para não precisar seguir o mesmo caminho que ele e seu irmão. É quase um matar ou morrer moderno, com requintes de sadismo e recheados de juros e alíquotas bancárias.

Tais cenas mostram o que realmente está em jogo em A Qualquer Custo: a dignidade. Dignidade de conseguir pagar as suas dívidas. Dignidade de conseguir honrar o seu legado, custe o que custar. Dignidade essa que foi prometida por Donald Trump durante toda sua campanha através de seu discurso, de seu slogan até a sua fala meramente simplória e xucra (possivelmente preconcebida para se aproximar justamente dessa fatia da população).

As personagens dessa história são, em maior ou menor grau de exagero narrativo, pessoas reais. São as mesmas que estão sendo rotuladas de racistas, fascistas, xenófobas, homofóbicas e alt-rights nos meios virtuais. Pessoas que tiveram suas vidas obliteradas por uma catástrofe financeira e que até hoje ainda não conseguiram se reerguer. Seres humanos de carne e osso que decidiram escolher um candidato e agora estão sendo tratados como as piores e mais burras pessoas do mundo.

Esquecido pelo público – talvez por ser americano demais para o mercado internacional e para os especialistas em política americana do facebook, que teriam um choque em ver que a realidade é bem diferente do que o que a sua timeline diz – e reavivado pela crítica especializada, A Qualquer Custo foi indicado para o Globo de Ouro nas categorias de Melhor drama, Melhor ator coadjuvante (Jeff Bridges) e Melhor roteiro (Taylor Sheridan), se livrando da pecha de azarão justamente na reta final das premiações que antecipam as indicações para o Oscar.

É um filme necessário para os dias de hoje, em que a vida no facebook é tratada como a realidade pura e simples, onde qualquer pessoa pode se tornar o mito ou o lixo da semana, dependendo do que a máquina de moer reputações, chamada atualmente de redes sociais, decidir.

A Qualquer Custo é um tapa na cara dos especialistas virtuais em geopolítica, que não conseguem perceber que, assim como existe gente de bem em Parelheiros e no Capão Redondo que votou no Dória – assim como pessoas do morro do Turano que não votaram no Freixo –, existem americanos que votaram no Trump que não são alienígenas xenófobos prontos para começar o “Quarto Reich”.

Eis aqui uma boa oportunidade de conhecermos uma boa parcela dos reais eleitores do mais novo Presidente dos Estados Unidos da América.

Saia do facebook, silencie seu twitter e “perca” 100 minutos de sua preciosa e importante vida para entender alguma coisa de verdade em sua essência, ao invés de continuar com a sua sacrossanta cagação de regra unilateral diária que transformou a estadia da maioria dos usuários regulares dos meios virtuais, desde o advento das redes sociais, num inferno.

A Qualquer Custo (Hell Or High Water), de David Mackenzie
Drama, Ação, 100 minutos, EUA

Trailer:

Imagens: Divulgação

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