Pierrots e estatuetas

A 89ª edição do Oscar, maior prêmio da indústria cinematográfica americana, acontecerá neste domingo, dia 26 de fevereiro, sob os olhares dos espectadores de um mundo que atravessa tempos, no mínimo, estranhos.

Essa edição causou olhares de desconfiança antes mesmo que os seus indicados fossem revelados. Isso porque, após toda a questão do “Oscar So White” – ausência de indicações de atores negros nas categorias principais –, mudanças foram feitas entre os membros votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas numa clara tentativa de modernização e aceno à igualdade de raças e multiplicidade de histórias.

Além de, é claro, a escolha de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, que, além de dividir opiniões, vem esquentando os ânimos do debate político atual, o que respinga diretamente no tom da cerimônia.

 

Jimmy Kimmel

A escolha do apresentador Jimmy Kimmel (Jimmy Kimmel Live!) foi segura. Vindo de duas fracas performances de Chris Rock, em 2016, e Neil Patrick Harris, em 2015, Kimmel chega na cerimônia sem nenhuma expectativa de surpreender em suas costas, o que já alivia bastante as coisas para ele.

Espere, no entanto, brincadeiras com seus artistas-fetiche, como a já consagrada dobradinha entre ele e Matt Damon:

 

Melhor Filme

O maior prêmio da noite mostra que as mudanças feitas pela Academia para controlar os danos referentes às polêmicas das últimas edições surtiram efeito. O que não quer dizer que não houveram exageros, em uma movimentação visivelmente feita para tentar “equilibrar” as coisas.

Dos 8 postulantes a melhor filme da temporada, 4 deles (Lion, Estrelas Além do Tempo, Um Limite Entre Nós e Moonlight) são estrelados por atores não brancos. Seria uma ótima notícia, não fossem as escolhas ligeiramente equivocadas de filmes que definitivamente não mereciam estar ali, como Um Limite Entre Nós e Estrelas Além do Tempo.

Enquanto um é uma peça filmada com dois atores de grife, o outro é um daqueles filmes inofensivos e esquecíveis, que não se sustenta sequer após a sua exibição, apesar os esforço sobre-humano de seu elenco de fazer a história funcionar.

Porém as discrepâncias e exageros vão muito além das políticas em busca da igualdade racial e da tentativa de controle de danos por parte dos votantes da Academia. Expandir a quantidade de possíveis concorrentes a melhor filme da temporada de 5 para 10 reduz o efeito qualitativo das escolhas, o que se viu com a indicação de filmes como Até o Último Homem.

A história dirigida por Mel Gibson é ótima, assim como sua direção e a atuação de Andrew Garfield no papel de um opositor consciente que decide lutar uma guerra sem pegar em armas. Porém a história possui mais qualidades de um filme de Diretor do que de um postulante a melhor filme da temporada. Estranhos exageros à parte, vamos aos 5 filmes que realmente interessam nessa 89ª edição do Oscar.

É evidente que a briga pela estatueta está entre La La Land e Moonlight. Enquanto o primeiro é uma declaração de amor à Hollywood, o segundo é um soco no estômago em forma de história. Tudo dependerá do tom da festa. Se for algo mais politizado, Moonlight leva. Caso contrário, La La Land deverá faturar esse e vários outros prêmios da noite.

O que não quer dizer que Manchester à Beira-Mar, Hell Or High Water e A Chegada não tenham suas qualidades. Porém, na possível concepção dos votantes – o que vem sendo refletido nas premiações anteriores – eles estão um degrau abaixo dos protagonistas da noite. Você pode não concordar (eu mesmo, não concordo), mas os prêmios dos sindicatos vem dizendo exatamente isso.

 

Atores

Se a categoria de melhor filme da temporada teve escolhas, no mínimo, esquisitas, nas categorias de atuação masculina elas se mostraram certeiras.

Tanto nos atores principais quanto nos coadjuvantes a disputa também está polarizada. O que não impede de ficarmos felizes ao vermos gente como Viggo Mortensen (Capitão Fantástico) e Michael Shannon (Animais Noturnos) tendo seu talento reconhecido em corretas indicações.

Na categoria principal de atuação, Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) era soberano até Denzel Washington (Um Limite Entre Nós) levar SAG Awards – prêmio tido como maior termômetro das categorias de atuação – para casa. Affleck ainda é o favorito, mas sua vida agora não será fácil em seu caminho pelo Oscar de melhor ator.

O mesmo acontece na categoria de coadjuvantes, conhecida por guardar surpresas entre seus premiados. Mahershala Ali (Moonlight) ganhou tudo que disputou esse ano, mas Dev Patel (Lion) possui grandes chances de levar o prêmio pra casa, devido ao crescente hype em torno do seu nome. E ainda existe uma possibilidade absurda de que Michael Shannon surpreenda a todos e carregue a estatueta pra casa. Categoria completamente aberta.

 

Atrizes

A categoria de melhor atriz coadjuvante é, junto com a de melhor filme estrangeiro, a mais forte dessa edição. Isso porque qualquer uma que ganhar não será injustiça. Todas elas (muitas com papeis principais, mas concorrendo como secundárias… estamos de olho O.o) fizeram trabalhos impressionantes em seus filmes.

Viola Davis (Um Limite Entre Nós) é a favorita para levar o prêmio pra casa, mas Naomie Haris (Moonlight) e Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar) continuam bem cotadas. Some isso a Nicole Kidman (Lion) e Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo), ambas ganhadoras do Oscar em edições passadas e excelentes em seus papeis. Mais aberta (e forte), impossível.

Já na categoria de atuação principal as coisas mudam um pouco de figura. Amy Adams (A Chegada) foi a grande injustiçada aqui, muitos, inclusive, remetendo à atuação de Ruth Negga (Loving) como causadora de sua não indicação. A verdade é que Adams não deveria ter entrado no lugar de Negga, e sim de Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?), que apenas fez um trabalho básico de brilhar em um filme ruim. Há quem diga que ela foi indicada por causa de seu discurso anti-Trump na última edição do Globo de Ouro. Vai saber.

O que não quer dizer que a categoria esteja fraca. Tanto Isabelle Huppert (Elle) quanto Natalie Portman (Jackie) e Emma Stone (La La Land) tem chances de faturar o prêmio, mesmo que Huppert esteja alguns passos atrás nas listas de preferências dos sindicatos.

 

Diretor e Roteiro

Damien Chazelle (La La Land) e Barry Jenkins (Moonlight) reproduzem a mesma polarização da principal categoria da noite, com amplo favoritismo para o primeiro. Porém, caso La La Land ganhe o prêmio de melhor filme, uma estatueta para Jenkins poderá vir aqui como prêmio de consolação.

A categoria de roteiro original este ano está bem diversificada, o que deixa as previsões um pouco mais difíceis do que o normal. Filmes menores como os interessantes The Lobster e 20th Century Women não devem faturar, assim como Taylor Sheridan por A Qualquer Custo. A briga aqui fica entre Chazelle por La La Land e Kenneth Lonergan por Manchester à Beira-Mar, este último com mais qualidade, mas que deverá ser engolido pelo hype de La La Land.

Já em melhor roteiro adaptado, Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney (Moonlight) nadam de braçadas sob os outros concorrentes. Essa categoria, no entanto – geralmente uma das primeiras da noite da cerimônia – pode servir para distribuir prêmios de consolação para A Chegada, Estrelas Além do Tempo ou Lion. Veremos.

 

Documentários, Animações e Estrangeiros

Mesmo com todo hype em torno de O.J. Made In America, todos os outros títulos (à exceção de 13ª Emenda) podem surpreender. É difícil? Sim. Mas a doçura de Life, Animated e as urgências de Fogo no Mar e Eu Não Sou Seu Negro podem gerar mais impacto do que o relato em 7h42min sobre a ascensão e declínio de O.J. Simpson.

Nas animações, a despeito dos lindos Kubo e As Cordas Mágicas e A Tartaruga Vermelha, a disputa aqui é entre Disney e Disney. Apesar de Moana ser lindo e seus números musicais funcionarem de forma deslumbrante, Zootopia parece (a partir dos prêmios que vem recebendo) estar melhor colocado para receber o prêmio de melhor animação da noite.

Ah, uma dica: espere, nos próximos anos, grandes estúdios de animação lançando dois filmes fortes durante a temporada, na tentativa de “cercar” o prêmio, como a Disney fez essa edição.

Toni Erdmann (Alemanha) corre como franco favorito para melhor filme estrangeiro. A notícia de que sua refilmagem nos EUA poderá contar com ninguém menos que Jack F*CKING Nicholson com certeza movimentou a cabeça dos votantes. Mas todos os filmes indicados são excelentes, com destaques para o doce A Man Called Ove (Suécia) e o tenso Terra de Minas (Dinamarca). Os ótimos O Apartamento (Irã) Tanna (Austrália) estão poucos degraus abaixo, o que não impede de que suas qualidades sejam exaltadas por aqui.

 

A cerimônia será realizada no já icônico Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia e será transmitida ao vivo pela emissora de televisão americana ABC, com sinal que chegará a emissoras de outros países. Aqui no Brasil, além de vários programas na internet que comentarão a cerimônia ao vivo, os canais TNT e Globo (que passará um compacto com os melhores momentos na segunda, dia 27) transmitirão o evento.

 

Lista dos Indicados

Melhor Filme

A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion: Uma Jornada para Casa
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Um Limite Entre Nós
A Qualquer Custo
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

Melhor Diretor

Denis Villeneuve – A Chegada
Mel Gibson – Até o Último Homem
Damien Chazelle – La La Land: Cantando Estações
Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
Barry Jenkins – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor Atriz

Isabelle Huppert – Elle
Ruth Negga – Loving
Natalie Portman – Jackie
Emma Stone – La La Land: Cantando Estações
Meryl Streep – Florence: Quem é Essa Mulher?

Melhor Ator

Casey Affleck – Manchester à Beira-Mar
Andrew Garfield – Até o Último Homem
Ryan Gosling – La La Land: Cantando Estações
Viggo Mortensen – Capitão Fantástico
Denzel Washington – Um Limite Entre Nós

Melhor Ator Coadjuvante

Mahershala Ali – Moonlight: Sob a Luz do Luar
Jeff Bridges – A Qualquer Custo
Lucas Hedges – Manchester à Beira-Mar
Dev Patel – Lion: Uma Jornada para Casa
Michael Shannon – Animais Noturnos

Melhor Atriz Coadjuvante

Viola Davis – Um Limite Entre Nós
Naomie Haris – Moonlight: Sob a Luz do Luar
Nicole Kidman – Lion: Uma Jornada para Casa
Octavia Spencer – Estrelas Além do Tempo
Michelle Williams – Manchester à Beira-Mar

Melhor Roteiro Original

Taylor Sheridan – A Qualquer Custo
Damien Chazelle – La La Land: Cantando Estações
Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou – The Lobster
Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
Mike Mills – 20th Century Women

Melhor Roteiro Adaptado

Eric Heisserer A Chegada
August Wilson – Um Limite Entre Nós
Allison Schroeder e Theodore Melfi – Estrelas Além do Tempo
Luke Davis – Lion: Uma Jornada para Casa
Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor  Animação

Kubo e as Cordas Mágicas
Moana: Um Mar de Aventuras
Minha Vida de Abobrinha
A Tartaruga Vermelha
Zootopia: Essa Cidade é o Bicho

Melhor Documentário em Curta-Metragem

Extremis
4.1 Miles
Joe’s Violin
Watani: My Homeland
Os Capacetes Brancos

Melhor Documentário em Longa-Metragem

Fogo no Mar
Eu Não Sou Seu Negro
Life, Animated
O.J.: Made in America
13ª Emenda

Melhor Longa Estrangeiro

Terra de Minas (Dinamarca)
A Man Called Ove (Suécia)
O Apartamento (Irã)
Tanna (Austrália)
Toni Erdmann (Alemanha)

Melhor Curta-Metragem

Ennemis Intérieurs
La Femme et le TGV
Silent Nights
Sing
Timecode

Melhor Curta em Animação

Blind Vaysha
Borrewed Time
Pear Cider and Cigarettes
Pearl
Piper
Melhor Canção Original

“Audition (The Fools Who Dream)” – La La Land: Cantando Estações
“Can’t Stop the Feeling” – Trolls
“City of Stars” – La La Land: Cantando Estações
“The Empty Chair” –  Jim: The James Foley Story
“How Far I’ll Go” – Moana: Um Mar de Aventuras

Melhor Fotografia

Bradford Young – A Chegada
Linus Sandgren – La La Land: Cantando Estações
Greig Fraser – Lion: Uma Jornada para Casa
James Laxton – Moonlight: Sob a Luz do Luar
Rodrigo Prieto – Silêncio

Melhor Figurino

Joanna Johnston – Aliados
Colleen Atwood – Animais Fantásticos e Onde Habitam
Consolata Boyle – Florence: Quem é Essa Mulher?
Madeline Fontaine – Jackie
Mary Zophres – La La Land: Cantando Estações

Melhor Maquiagem e Cabelo

Eva Von Bahr e Love Larson – A Man Called Ove
Joel Harlow e Richard Alonzo – Star Trek: Sem Fronteiras
Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Nelson – Esquadrão Suicida

Melhor Mixagem de Som

Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye – A Chegada
Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mckenzie e Peter Grace – Até o Último Homem
Andy Nelson, Ai-Ling Lee e Steve A. Morrow – La La Land: Cantando Estações
David Parker, Christopher Scarabosio e Stuart Wilson – Rogue One: Uma História Star Wars
Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Mac Ruth – 13 Horas: Os Soldados ecretos de Benghazi

Melhor Edição de Som

Sylvain Bellemare – A Chegada
Wylie Stateman e Renée Tondelli – Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
Robert Mackenzie e Andy Wright – Até o Último Homem
Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan – La La Land: Cantando Estações
Alan Robert Murray e Bub Asman – Sully: O Herói do Rio Hudson

Melhores Efeitos Visuais

Craig Hammack, Jason Snell, Jason Billington e Burt Dalton – Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
Stephane Ceretti, Richard Bluff, Vincent Cirelli e Paul Corbould – Doutor Estranho
Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon – Mogli: O Menino Lobo
Steve Emerson, Oliver Jones, Brian McLean e Brad Schiff – Kubo e as Cordas Mágicas
John Knoll, Mohen Leo, Hal Hickel e Neil Corbould – Rogue One: Uma História Star Wars

Melhor Design de Produção

Patrice Vermette e Paul Hotte – A Chegada
Stuart Craig e Anna Pinnock – Animais Fantásticos e Onde Habitam
Jess Gonchor e Nancy Haigh – Ave, César!
David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco – La La Land: Cantando Estações
Guy Hendrix Dyas e Gene Serdena – Passageiros

Melhor Edição

Joe Walker – A Chegada
John Gilbert – Até o Último Homem
Jake Roberts – A Qualquer Custo
Tom Cross – La La Land: Cantando Estações
Nat Sanders e Joi McMillon – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Melhor Trilha Sonora

Mica Levi – Jackie
Justin Hurwitz – La La Land: Cantando Estações
Dustin O’Halloran e Hauschka – Lion: Uma Jornada para Casa
Nicholas Britell – Moonlight: Sob a Luz do Luar
Thomas Newman – Passageiros

Imagens: divulgação

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