(Quase) terror

Envolto em polêmicas entre diretores, produtores e a crítica especializada (entenda aqui e aquio novo filme do diretor Jefferson De, O Amuleto, desperta curiosidade muito mais pela estranha publicidade adquirida do que por seu enredo em si. Sendo tratado a socos e pontapés pelos profissionais da área, o filme tentou soar diferente em um cenário dominado por clichês imaculados.

O suspense adolescente conta a história de quatro jovens que partem para uma festa rave dentro de uma floresta em Florianópolis. Porém, ao se perderem, acabam atacados. Durante a investigação, descobre-se que os responsáveis por tais crimes são duas mulheres assassinadas no local, no longínquo século 18.

Utilizando-se de narrativa não linear, Jefferson opta por correr alguns riscos e fugir de algumas convenções já instituídas no cânone dos filmes de terror e suspense. O filme é, assumidamente por seus realizadores, repleto de clichês – personagens, como a loira burra e o surfista lesado, dão as caras por aqui –, mas escorrega ao não recorrer aos que possuem eficácia comprovada.

O que poderia ser algo inovador acaba se transformando em apenas uma tentativa não muito feliz de fazer algo diferente. Primeiro, porque O Amuleto é um filme dócil. Um frágil exemplar que tenta se segurar em cordas fracas. Segundo, porque, num estranho trabalho de fotografia de Marx Vamerlatti, é solar demais, algo incômodo quando se fala em produções desse gênero. As sombras, vegetações e diálogos, que já assustam de antemão em películas mais soturnas, aqui perdem seu potencial. A claridade, no trabalho de Vamerlatti, faz de O Amuleto um filme de terror que não assusta. Assim, evidencia suas personagens pobres, roteiro cru e a preocupação de fugir das convenções do gênero, rejeitando perspectivas que sabidamente funcionam.

A escolha de nomes de peso para protagonizar o filme também não se mostra uma escolha acertada, uma vez que, ao mirar estrelas globais para os principais papéis, indica que a intenção é o sucesso comercial, tirando do espectador médio – e da crítica especializada – a possibilidade de rotular a trama como o famigerado “terror amador, protagonizado por desconhecidos”, que tanto fez sucesso na década passada com exemplares, como A Bruxa de Blair, Atividade Paranormal e os primeiros filmes da franquia Jogos Mortais. O que não se pode dizer de um filme que conta com Maria Fernanda Cândido (Elisabete), Bruna Linzmeyer (Diana) e Michel Melamed (Reginaldo) entre seus protagonistas.

CENA DO LONGA METRAGEM "CELULARES", DO DIRETOR JEFERSON DE, COM BRUNA LINZMEYER E MARIA FERNANDA CANDIDO - RODADO EM FLORIANOPOLIS, SC, 2014 - Foto: Caio Cezar - Todos os diretos reservados à Contraponto Multimeios Ltda.
Narrativa não linear remete a assassinatos cometidos séculos atrás

 

De bom para o público, a sensação de que existem realizadores tentando fugir do padrão “comédia medíocre repleta de atores globais”. Jefferson De arrisca corajosamente ao desenvolver uma obra diversificada. Derrapa, é verdade, mas não se pode tirar o mérito de alguém que, em meio ao cenário saturado de fórmulas e convenções, tentou pensar diferente. O terror ainda sobrevive por meio de determinados clichês, que não se reinventarão tão cedo. Filmes soturnos, sustos provenientes de câmeras amadoras, desconhecidos como protagonistas, entre outras convenções, ainda devem ditar as regras por muitos e muitos anos.

Por que toda comédia-pastelão de sucesso tem um gordinho, uma mulher bonita e gostosa e uma festa? Por que todo terror tem uma casa escura, filmagem pseudocaseira e muito sangue? Por que filmes de fim do mundo sempre contam com protagonistas quebrados, com suas relações familiares destoantes? Por que filmes de ação sempre têm carros capotando e perseguições repletas de trocas de tiros? Simples: porque funcionam. Jefferson De tentou pensar diferente, talvez grande demais para o projeto que tinha nas mãos, e não conseguiu fugir do próprio estereótipo de cineastas que tentam reinventar determinado estilo e fragilizam suas próprias criações.

Ao menos, já é um começo.

Claudicante, mas um começo.

 

Assista ao trailer de O Amuleto:

 

 

Filme: O Amuleto (Brasil, 2015, 89 min.)

Direção e roteiro: Jefferson De

Elenco: Bruna Linzmeyer, Maria Fernanda Cândido, Michel Melamed, Regius Brandão, Margarida Baird, Gustavo Saulle, Isadora Damiani, Tiago Mendes

 

Fotos: Divulgação

 

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