Talento a serviço do bom cinema

A carreira de M. Night Shyamalan é um excelente exemplo de como as coisas estão ruins no cinema atual. Exímio diretor, dono de um domínio de câmera único, com pleno controle de todos os aspectos da linguagem cinematográfica clássica, o maior problema de Shyamalan (se é que isso pode ser considerado um problema) é ser criativo demais em um mundo completamente binário como o do business cinematográfico.

Quase todos os seus filmes são exercícios de criatividade e ousadia, onde ele mistura gêneros narrativos, constrói novas formas de estruturação significativa nos roteiros e levam os atores com quem trabalha até o ápice de suas funções, independentemente de serem novatos como Anya Taylor-Joy (A Bruxa, Fragmentado) ou Haley Joel Osment (O Sexto Sentido), ou de star powers como Bruce Willis (Duro de Matar, Corpo Fechado) e Mel Gibson (Mad Max, Sinais).

E quando digo “quase” todos os seus filmes, é porque peças como Depois da Terra (2013) e O Último Mestre do Ar (2009) devem ser desconsideradas como obras originais de M. Night Shyamalan, uma vez que são claramente filmes produzidos por grandes estúdios em que o diretor, com um contrato recheado de cifras consideráveis, emprestou seu nome e suas funções profissionais para alavancar as bilheterias. Nada naqueles filmes (que sequer foram escritos por ele, diga-se) lembram os filmes escritos, dirigidos e produzidos por M. Night Shyamalan.

Seu primeiro filme de orçamento regular, O Sexto Sentido, lançado em 1999, explodiu cabeças ao redor do mundo, pegando carona justamente em uma época em que o cinema acordava de um sono dogmático de criatividade e estava sendo bombardeado por cabeças revolucionárias como Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich) e os Wachowski (Matrix), além de grandes trabalhos de nomes já consagrados como Paul Thomas Anderson (Magnólia), Stanley Kubrick (De Olhos Bem Fechados) e David Fincher (Clube da Luta).

Infelizmente, junto com o sucesso, grande parte dos problemas de M. Night Shyamalan começaram a partir da grande reviravolta na trama do garotinho que via gente morta. Fazendo caminhões de dinheiro nas bilheterias e sendo aclamado pela crítica especializada como “o novo Spielberg“, Shyamalan tornou-se a galinha dos ovos de ouro dos estúdios, produtores e do público cinéfilo, todos ansiosos por seus próximos passos. Infelizmente, a mentalidade binária de todos estes três grupos começou a minar a emergente carreira do diretor.

Estúdios querem lucro, independente da qualidade. Produtores querem fama, independente do produto que estejam vendendo. Cinéfilos querem sempre o maior, o melhor e o mais surpreendente filme, mesmo que isso os façam ser constantemente enganados  por charlatões do audiovisual (cof, cof… Nolan), sempre prontos a ludibriar os espectadores com picaretagens.

Dessa forma, passou-se a esperar um novo grande filme de M. Night Shyamalan, com uma grande reviravolta, que fizesse rios de dinheiro e que pudesse ser aclamado em premiações. Esperavam, apenas, um novo O Sexto Sentido, verdade seja dita. Porém Shyamalan, ousado, escolheu ser talentoso ao invés de lucrativo, e, claro, pagou por isso.

Corpo Fechado (2000) é um dos melhores filmes sobre super-heróis da história do cinema, justamente porque não se preocupa em ser um filme sobre super-herói. Sinais (2002) é um dos melhores filmes de sci-fis modernos, justamente porque não se preocupa em ser um sci-fi moderno. A Vila (2004) é um dos melhores estudos sobre a religiosidade humana da história do cinema, justamente por não se preocupar em ser um estudo sobre a religiosidade humana. A Dama na Água (2006) é um dos melhores contos de fadas do cinema neste século, justamente porque… bem, você entendeu, certo?

Quase todos os filmes de M. Night Shyamalan se utilizam dos estilos clássicos do cinema para abordar um aspecto angustiante sobre condição humana ordinária como pano de fundo. O diretor, então, produziu interessantes reflexões sobre os relacionamentos familiares disfuncionais (O Sexto Sentido, Corpo Fechado, Fim dos Tempos, A Visita), fé e religião (Sinais, A Vila), luto (A Dama na Água) e abuso infantil (Fragmentado), sempre de mãos dadas com conceitos literários como o realismo fantástico, o simulacro narrativo, os acontecimentos que extrapolam o campo do estranhamento e a instrumentalização psicológica negativa de suas personagens.

Porém o público, distribuidoras e estúdios querem sempre retroalimentar suas nostalgias (e cofres) em detrimento da produção de novas e surpreendentes experiências. Haja vista que os cartazes dos filmes subsequentes de M. Night Shyamalan se utilizem sempre frases como “Do diretor de O Sexto Sentido” e que as traduções brasileiras dos títulos de seus filmes sempre façam alusões ao misticismo de seu maior sucesso comercial, como, por exemplo, Corpo Fechado, que originalmente poderia ser corretamente traduzido como Inquebrável e preservar o mesmo efeito narrativo da obra ao redor do mundo.

Todos querem se sentir como se sentiram na época de O Sexto Sentido, ao invés de predisporem-se a experimentarem novos sentimentos. Ninguém quer ser surpreendido pelo desconhecido. Querem apenas uma surpresa moderada, já experimentada, indolor.

Querem o desconhecido, pero no mucho!

M. Night Shyamalan volta às telas com Fragmentado, seu mais novo filme. Aqui, James McAvoy interpreta Kevin Wendell Crumb, portador de TDI (transtorno dissociativo de identidade), que foi diagnosticado com 23 personalidades dentro de si. A construção dessa personagem possui ligação real com a história de Billy Milligan, criminoso que sofria de TDI e foi absolvido dos crimes que cometeu, ao alegar que estava possuído por outras personalidades durante os eventos.

Porém, de volta à Fragmentado, o filme se utiliza do conceito do TDI para criar um thriller de suspense escorado na impressionante atuação de James McAvoy, no papel que possivelmente redefinirá toda sua carreira.

McAvoy, além de interpretar Kevin, dá vida a Dennis, um maníaco que gosta de ver jovens garotas dançando nuas; à Patrícia, uma mulher cuidadosa, sempre disposta a encontrar as melhores soluções para os problemas; à Barry, um potencial estilista gay, cheio de boas ideias; à Hedwig, uma criança de nove anos; e a outros personagens que não serão revelados aqui neste texto, a fim de resguardar a experiência cinematográfica dos leitores do Jornalirismo.

Kevin (ou uma de suas personalidades?) sequestra três adolescentes e as mantém em cativeiro, a fim de utiliza-las como parte de um plano maior. Enquanto isso, trata-se com uma psiquiatra (Betty Buckley) na tentativa de controlar suas múltiplas personas, algumas delas extremamente ardilosas e negativas.

Shyamalan conduz Fragmentado com a mão talentosa de um diretor que sabe exatamente o que está fazendo. Seus enquadramentos fechados reforçam o caráter claustrofóbico do filme, assim como a utilização inteligente da iluminação cenográfica para modificar aspectos básicos da fotografia e do desenvolvimento narrativo do filme.

Além de James McAvoy, a novata atriz Anya Taylor-Joy funciona muito bem como uma espécie de representante do público, fazendo as perguntas certas às várias personas de Kevin, sem desrespeitar a inteligência de quem assiste ao filme.

Como peça estanque em sua filmografia, Fragmentado possui todas as características que fizeram o cinema de M. Night Shyamalan tão brilhante no que tange aos aspectos técnicos/narrativos: o domínio da linguagem cinematográfica, o uso da teoria das cores para transmitir informações importantes sobre a trama, os longos e calmos planos utilizados para a construção do suspense, o estudo aprofundado e inteligente de seus protagonistas, e, claro, suas já conhecidas reviravoltas na trama.

Faz-se necessário, aqui, um parêntese sobre isso: desde A Dama na Água, o diretor vem conseguindo refinar este recurso, fazendo com que suas histórias funcionem bem sem a utilização deste artifício narrativo. Elas ainda acontecem, porém, retiradas da equação da trama, as histórias escritas por Shyamalan se sustentam sem nenhum problema narrativo.

Fragmentado, sem as reviravoltas, torna-se um ótimo suspense sobre pessoas que sofreram abusos em suas mais variadas formas durante a vida. A inteligência narrativa de M. Night Shyamalan, no entanto, produziu talvez a melhor reviravolta da história recente do cinema.

Quando se entende o que o diretor está fazendo em Fragmentado, nenhum fã de sua carreira consegue ficar alheio. É preciso, no entanto, conhecer bem a obra do diretor, para que determinadas situações apresentas no filme tenham o efeito avassalador à que elas se propõem.

Todavia, conforme dito acima, tais sequencias funcionam perfeitamente para os que não estão familiarizados com a mitologia cinematográfica criada pelo diretor ao longo dos anos. Funciona bem para quem não faz ideia do que está assistindo, e funciona ainda melhor para os fãs mais “hardcores” da filmografia de M. Night Shyamalan.

Fragmentado é, além de um excelente filme, um presente para os fãs de um dos cineastas mais criativos e ousados da história do cinema recente. Assista sem medo. Ou melhor, tenha medo.

Muito medo.

Fragmentado, de M. Night Shyamalan
2017, Thriller, Suspense, 1h57min

Trailer (legendado)

Imagens: divulgação

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