Trumbo: a vida ou a obra?

Você que me lê tente descobrir o que acontece aqui e, quando o souber, ouse perguntar a qualquer homem: onde está a Justiça?

E, se necessário, exigi-la, porque ela, a Justiça, jamais foi solidária com aqueles que, para manterem o status, assumem a dupla máscara do bufão e do lacaio, da delação e da traição.

Não há intenção aqui de eleger alguma doutrina, seita, filosofia ou ismos de quaisquer espécies como os detentores da mais absoluta verdade, porquanto todos cometem os erros dos seus líderes humanos.

Ou de seus animais racionais?

Vamos nos ater aos fatos, posto que o filme Trumbo: Lista Negra, dirigido por Jay Roach, é baseado numa história real.

O Macartismo foi cunhado a partir da figura do senador norte-americano Joseph Raymond McCarthy (1908-1957), cuja intensa patrulha anticomunista (ou contra quem tivesse algum suposto envolvimento com “atividades antiamericanas”, como se difundiu) gerou perseguição política, desrespeito aos direitos civis e um arcabouço de leis de exceção, nos Estados Unidos do final dos anos de 1940 até meados dos anos de 1950.

A suspeita de infiltração comunista no exército e na sociedade norte-americana resultou numa caça obsessiva e implacável a pessoas comunistas e/ou simpatizantes da esquerda.

Grupo de resistência

James Dalton Trumbo (1905-1975), vivido no filme pelo ator Bryan Cranston, foi um roteirista de sucesso norte-americano. Ele integrou o Hollywood Ten, grupo de profissionais de cinema que se recusou a testemunhar e denunciar os companheiros perante uma Comissão Parlamentar de Inquérito montada em 1947 pela Câmara dos Representantes dos Estados Unidos para averiguar a suposta infiltração comunista na indústria cinematográfica.

Portanto, é preso. O episódio é a origem do filme Trumbo: Lista Negra. Nessa lista de perseguidos, esses profissionais de cinema estariam incluídos e, por isso, seriam impedidos de trabalhar nos estúdios.

Hedda Hopper (1890-1976), atriz norte-americana e colunista influente sobre Hollywood, defende em sua coluna um discurso esquizofrênico e monocórdio para seus pares, feito de um nacionalismo exacerbado contra o inimigo comum: os comunistas. Legitima e estimula a postura intolerante de milhões.

Propositalmente, Jay Roach, o diretor, também responsável pela bem-sucedida série de filmes Austin Powers, passeia a câmera pela plateia “uniforme e branca”.

Muito bem caracterizada por Helen Mirren, Hopper é o retrato da elite (só norte-americana?) que ora pincela com tintas cordiais, ora carrega nas tintas de ameaças, para tornar seu discurso digno de fé.

Entretanto, os pontos altos do filme são dados pela cumplicidade e apoio familiar, que, apesar dos conflitos gerados pela necessidade de sobrevivência, ainda dão o tom da coerência entre discurso e ação do personagem.

Após onze meses de prisão, Trumbo retorna e continua escrevendo roteiros, com remuneração aquém de sua performance. Mesmo atuando no anonimato, é perseguido pelos seus ferrenhos opositores na indústria do cinema, que, ao final, são obrigados a se render à sua excelência. E a premiá-la.

No discurso final, o olhar de Trumbo varre um mar de rostos, um por um, com atenção, cuidado, respeito, remorso e compaixão pela situação imposta que os fizeram machucar uns aos outros. Um pensador infalível, vigiando seus iguais com um entusiasmo exausto e uma dignidade solitária.

Quem tem olhos de ver certamente vai compartilhar do meu nó na garganta, com o choro contido e amargurado da mulher Cleo Beth Fincher (Diane Lane), quando Trumbo finalmente reassume seu lugar no cenário cinematográfico.

E vibrar, quando a sua resoluta filha Nikola Trumbo (Elle Fanning), que segue seus passos, se alia ao Movimento pelos Direitos Civis dos negros e provoca o pai para reassumir sua autoria e receber seus prêmios, como o Oscar por A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday, 1953) e Valente (The Brave One, 1956).

Até os letreiros

Sugiro que você assista ao filme até o fim, quando da descida dos créditos, para ver o depoimento emocionado do roteirista ao homenagear a filha, a quem dedica o Oscar recebido.

O rumor que sobe de todos os cantos do planeta, esta angústia que por séculos reúne rancores e ódios dispersos, pode entoar o canto de uma terrível colheita.

“Todo comunismo que fracassa chama seu fascismo. Mas todo fascismo que fracassa chama seu comunismo. A antítese assume facilmente o lugar do argumento.”

Quando a filha Nikola, ainda menina, pergunta a Dalton se ela é comunista, ele a questiona: “Se você levar para a escola um sanduíche que você gosta muito e um amigo estiver sem lanche, você compartilha sem pestanejar e sem se arrepender?”. Ela responde que sim.

Claro que não podemos deixar de ignorar os radicalismos e barbárie que cada facção política e/ou religiosa carrega em si. Entretanto, a grandeza deste filme-documento, que tem sido ignorado pela mídia, é um hino aos amanhãs, que cantam em uníssono, que não basta fotografar uma época para que nasça uma literatura majestosa.

A revolução liberta nas palavras seu potencial máximo.

Forja novas consciências, provoca a urgência da reflexão e tenta sacudir uma burguesia moribunda e grávida de um passado remoto.

O discurso carregado de metáforas elípticas está morto.

E este luto dá lugar ao renascimento. E o prodigioso talento de Dalton Trumbo eclode com um poder exorcizante e com o silêncio eloquente que descansa nas grandes obras, apesar do cinismo e da cegueira.

Hoje, atuante e atual, este filme vem elucidar as injustiças que se cometem penalizando os “pensamentos” contrários ao sistema vigente.

 

Assista ao trailer:

 

Filme: Trumbo: Lista Negra (Trumbo, Estados Unidos, 2015, 125 min.)

Direção: Jay Roach

Elenco: Bryan Cranston, Diane Lane, Helen Mirren, Elle Fanning, Michael Stuhlbarg

 

Foto: Divulgação

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