Uma ode ao passado

Vencedor de 7 Globos de Ouro (melhor filme de comédia ou musical, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor roteiro, melhor trilha sonora e melhor canção por “City of Stars”), La La Land chega aos cinemas brasileiros com apenas duas propostas: homenagear a época de ouro dos musicais americanos e fazer você vibrar com um sorriso no rosto.

Qualquer outra sensação que você, leitor, esteja esperando do filme, é melhor deixá-la em casa. La La Land é uma pura, simples e graciosa carta de amor ao passado, que, olhando para o futuro, te fará sorrir. E a intenção, nesses amargos e críticos tempos em que vivemos, é sorrir o máximo de vezes que conseguir.

Idealizado em 2010 por Damien Chazelle (de Whiplash: Em Busca da Perfeição), La La Land levou anos para sair do papel. O filme, inclusive, tinha escalado os atores Milles Telles e Emma Watson como casal principal, sendo substituídos por Ryan Gosling e Emma Stone (ambos ótimos no papel) por causa de problemas de agenda, tamanha demora na realização do longa.

Coreografado por Mandy Moore (indicada ao Emmy Awards em quatro ocasiões, pelo reality show americano So You Think You Can Dance), La La Land começa com um número musical em um engarrafamento numa das principais vias de Los Angeles, que, praticamente sem cortes, convida o espectador a embarcar na história de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling).

Ela, uma barista nos estúdios da Warner e aspirante a atriz. Ele, um pianista de jazz idealista. Ela quer o glamour do mundo das celebridades. Ele quer “salvar” o jazz. As desventuras da vida o fazem se encontrar, mas, esperto, Damien Chazelle não direciona sua história para esse lado.

Consciente de que seu filme poderia cair para o simplório “boy-meets-girl“, o jovem diretor (que, apesar da pouca idade, parece um veterano, atrás das câmeras) transforma a saga do casal em uma agridoce história de perseverança em busca dos sonhos e uma conversa sobre as escolhas que, a todo momento, precisamos fazer para seguir em frente com nossas vidas.

Tecnicamente, La La Land é um assombro. Com uma espetacular fotografia – em Cinemascope – saturada, como forma de homenagear os multicoloridos musicais das décadas de 1950 e 1960, Chazelle movimenta sua câmera de forma intensa, apaixonada, com poucos truques de câmera durante os números musicais, quase sempre mantidos em planos médios, o que eleva a qualidade de sua direção e mostra o talento de seus atores, aqui transformados em bons dançarinos.

Ryan Gosling, inclusive, além de aprender a tocar piano de verdade para compor o personagem, teve, junto com Emma Stone, que aprender a cantar e dançar. O resultado pode ser visto da doce “City of Stars”, um singelo dueto capaz de levar às lágrimas até o mais duro dos corações.

Aos mais antigos, o filme é um prato cheio de sutis referências: Guarda Chuvas do Amor (1964), Cantando na Chuva (1952), Voando para o Rio (1933), entre outros. Para os jovens, planos-sequencias, montagens inteligentes e músicas prontas para sair da tela direto para os ipods e playlists do spotify.

O filme tem problemas? Sim, alguns. O diretor possui uma leve deficiência na composição dos segundos atos de suas tramas (problema já evidenciado em seu filme anterior), e sua visão meritocrática de mundo pode soar incomoda à alguns. Nada, porém, que precise de mais do que essas poucas linhas ou que atrapalhe a diversão de assistir ao filme.

O filme aposta em uma nova direção para a realização de musicais na era moderna do cinema. Chazelle se junta ao “lobo solitário irlandês” John Carney (talvez a única pessoa que ainda invista em musicais hoje em dia, mesmo que num espectro menor, com baixos orçamentos e artistas independentes) e mostra para o público – e também para os produtores, os homens do dinheiro de Holywood – que o gênero ainda respira e pode ser viável e concebido com eficácia e doçura.

La La Land é uma declaração de amor à vida. É uma ode ao passado, um olhar para o futuro, e, talvez, tudo que os nossos duros corações precisem assistir nesse começo de 2017, para entrarmos nesse ano com um sorriso no rosto e as esperanças renovadas.

La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazelle
2016, Musical, 128’


Imagem: divulgação

2 comentários para “Uma ode ao passado”

  1. Guilherme Fernandes

    Guilherme Fernandes

    Ah, Sheiloca, meu amor! Obrigado pelos elogios! Realmente, La La Land me encantou. A direção, a história, os protagonistas, as referências, tudo lindo demais. Amei. Saudades, viu! Um beijão nesse coração carioca 😉

  2. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    Oi keridoko!Não sei o k me emocionou mais..Se o filme,em si – "ESTA OBRA DE ARTE FANTÁSTIKA!"k tira o nosso fôlego várias vezes e mixa nossas emoções num cocktail de nostalgia e deslumbramento..ou se sua análise precisa ,de mestre,k sabe o k está vendo,sem perder o fio tênue da trama,e se kolokar, simultâneamente, na platéia e na acuidade do diretor.Assisti ao filme ,e ainda estou em estado de suspensão.Parabéns pelo texto e por compartilhar seu olhar "quase algo" konosko.bjkas kósmikas!

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