A rola e os intolerantes

Ao mandar o pastor Silas Malafaia “procurar uma rola” no programa de rádio que apresenta ao vivo todas as manhãs, o jornalista Ricardo Boechat acendeu uma série de fogueiras inquisitórias. Não me cabe aqui cair na armadilha de fugir do assunto e discutir inutilidades, como Boechat baixou o nível, merece ser processado ou perdeu a razão. Boechat falou o que muitos pensam, foi o porta-voz de muita gente e, se for preciso uma palavra forte para mover os acomodados, que se diga rola e se traga o restante do dicionário!

No entanto, a fogueira que mais arde não é a dos palavrões, mas a da intolerância religiosa. Somos um país que mistura, desde o nascimento, religião e política, em benefício quase sempre de uns, no poder. Atualmente, parte do Congresso Nacional forma a bancada da Bíblia, nada coesa em termos de doutrina, mas bem unida para perseguir vozes dissonantes, exalar preconceito, trabalhar contra a cidadania e a favor de benefícios próprios.

A discussão entre o jornalista e o pastor deveria colocar na mesa o fato de que religiões, cedo ou tarde, se defendem (e se afirmam) a partir do ataque ao outro. É uma guerra pela fé, poder e dinheiro alheio, que transformou as religiões em produtos, empresas e negócios bilionários. Marketing religioso é, hoje, uma área estabelecida e especializada.

Atacar os adversários atende também a duas exigências de um projeto de poder. Para crescer, qualquer religião ou seita precisa roubar fiéis de instituições adversárias. Para que isso aconteça, não valem somente pregações, discursos e interpretações do texto sagrado “que puxam a sardinha” e os outros peixes.

No boxe por Deus, prevalece um dos princípios básicos da propaganda de guerra: envolvimento emocional. Este envolvimento se sustenta no amor a alguém ou a uma causa e, de forma simultânea, à criação e personificação de um inimigo, que precisa ser odiado e, se possível, destruído. A simplicidade maniqueísta – expressão que nasce na religião, por sinal – é o motor da desinformação, do desrespeito e da truculência.

A história das religiões é recheada de prateleiras com exemplos. Das Cruzadas à Jihad Islâmica. Das igrejas neopentecostais ao Estado Islâmico. Da catequização indígena à perseguição contra judeus. Todas as guerras em andamento no século 21 têm, direta ou indiretamente, fundo religioso, a imposição de fé e doutrina via armas e mortes.

Frequentar uma igreja, templo, terreiro ou outro tipo de imóvel nunca salvou ninguém. Conheço espíritas que sorriem e falam serenamente enquanto te prejudicam. Conheço evangélicos que vomitam preconceitos enquanto repetem comportamentos condenáveis entre quatro paredes.

Conheço católicos que falam em Jesus Cristo para, em seguida, prejudicar o próximo e lutar pelas migalhas do poder. Conheço gente que pede proteção aos orixás e, por conveniência, exala segregação e racismo no cotidiano. E conheço pessoas que são adeptas destas e de outras doutrinas e convivem conforme os preceitos que abraçaram, quando colocam a humanidade e o humanismo acima de textos e retóricas.

A segunda fogueira, menos ardente, é a do politicamente correto. Ô, gente chata, sempre disposta a podar pela moral e os bons costumes. A rola, cá entre nós, excita tantos que não conseguem parar de falar nisso. Pouco importa se Boechat chamou Malafaia de homofóbico, tomador de grana, explorador da fé alheia, otário, paspalhão, entre outros qualificativos, a maior parte relevantes para que se compreenda o sentido dado ao pênis em questão. Interessa se comportar como crianças na escola: “Olha, tia, ele falou palavrão!”.

Além disso, a patrulha também tenta desviar o foco, insinuando que Boechat teria sido homofóbico. Uma pitada de contexto nesta salada pornográfica. Ao mandar o pastor “procurar uma rola”, o jornalista usou um sinônimo para “vá para a casa do caralho”, ou para “vá tomar no cu”. Para as senhorinhas horrorizadas, a legenda: “Malafaia, arruma alguma coisa para fazer. Vai ver se estou na esquina”.

Em vez de se analisar o contexto de um problema social extremamente grave, que provocou semana passada casos de violência contra crianças, ficar procurando moralismo em uma palavra é se tornar tão intolerante quanto os líderes religiosos – não apenas neopentecostais – que constroem projetos de poder em cima da alienação, da ingenuidade e da hipocrisia.

A maior ironia desta imbecilidade dos intolerantes que falam em nome de Deus é que não conseguem perceber que vivem em um Brasil misturado pela fé. Basta ver que, quando o calo aperta, se acende vela para todos os santos, entidades, deuses e afins.

Ah, a história das religiões está infestada de perversões sexuais, de várias maneiras, com e sem rola, mas sempre com o gozo pelo poder.

Clique e veja mais sobre a polêmica envolvendo o jornalista Ricardo Boechat, âncora da BandNews FM e do Jornal da Band, e o líder religioso Silas Malafaia.

Imagem: Xilogravura de J. Borges

2 comentários para “A rola e os intolerantes”

  1. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    É verdade ,Marcus Vinicius, como diria Woody Allen, "It´s all about sex" e eu completo "it´s all about power". Da intolerância religiosa, de gênero, social ou de raça ou tudo isto" junto e misturado", o ser humano vai tecendo suas incoerências e deixando cair suas máscaras. Não há como evitar isto :"Somos Todos Iguais Nesta Noite" ,imperfeitos e com o dedo em riste para quem não é espelho.E o exercício do poder é extremamente sedutor , e,mais dia menos dia ,qualquer um de nós ,mostra sua verdadeira face.Felicitações pelas colocações tão verdadeiras.abs kósmikos!

  2. Aurora Seles

    Artigo excelente! Parabéns pela análise.

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