Babilônia brasileira com hipocrisia e muita maldade

Antes de tudo, quero afirmar com todas as letras que não sou a favor da tal hegemonia da audiência que a Rede Globo de Televisão mantém no Brasil. Na verdade, sou absolutamente contra. Porém, que os colegas críticos da sociedade do espetáculo me perdoem, vou elogiar a Rede Globo, sim.

Como boa brasileira que sou, sempre gostei de telenovelas. Assisti a Por amor encantada com a história de Helena (Regina Duarte), que, por amor à filha (Gabriela Duarte), trocou os bebês na maternidade.

Assisti a Sonho meu, Quatro por quatro e tantos outras, enfim. Com o tempo, notei que as telenovelas estavam ficando chatas e burlando muito a realidade. Meio que parei.

Mas nesta segunda-feira, 16 de março de 2015, decidi voltar. A nova aposta da Globo para a trama das nove é Babilônia, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, que já começou com uma polêmica que está, mais uma vez, dividindo o país.

Ora, mas o que seria o assunto? A relação de amor entre duas mulheres, vividas na tela por Fernanda Montenegro (Tereza) e Nathália Timberg (Estela). Duas mulheres maduras, apaixonadas, bem-sucedidas, calmas e amantes.

Afinal quem ainda, ao fim do dia, com todo o egoísmo a que tristemente nos acostumamos, após trinta anos de relacionamento, chega calorosamente e diz: “Como foi o seu dia, meu amor?”.

Hoje tem pastor, tem cantor, tem gente de todo tipo e estirpe julgando para o bem ou para o mal. O fato é que isso não deveria ser assunto. Ninguém comenta o beijo que fulanO deu em fulanA no primeiro capítulo de nada. Por que falar então desse?

Porque somos hipócritas. Um país maculado pelo preconceito e pela ideia de que Deus é este cara mau que joga todos que não seguem a Bíblia no Inferno. Que Bíblia é essa? Aliás, que interpretação da Bíblia é essa? Ela não nos ensinou, antes de tudo, a amarmos uns aos outros como a nós mesmos?

Babilônia, como defendeu erroneamente o pastor e deputado federal Marco Feliciano (só para variar) em sua fan page, não está voltada às noções bíblicas.

Infeliciano
Reprodução da fan page do pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP)

 

 

Babilônia, segundo o dicionário, é uma cidade construída sem preparação, sem planejamento. Um amontoado, assim como o Brasil de hoje, com todos os seus problemas sociais e políticos, e isso nada tem a ver com a opção sexual das pessoas. Me entristece todo esse juízo de valor em nome de uma divindade superior. Para onde vamos? Quem é que pode julgar alguém?

Tiro, sim, o meu chapéu para a Rede Globo, ao apresentar um casal de mulheres apaixonadas, companheiras, respeitosas e que vivem há trinta anos como porto seguro uma da outra.

Fora que o movimento de câmeras, o enquadramento, a fotografia e todo o contexto e atmosfera da novela parecem que vão ainda dar muito o que falar. Uma bela produção, com o padrão de qualidade costumeiro da Rede Globo.

Vamos acompanhar. Vamos acompanhar as peripécias desse exemplar casal gay e o que a Babilônia chamada Brasil vai comentar sobre a Babilônia teledramatúrgica, revelando quem são os demônios a nos atormentar e atrasar a vida. Lhes esconjuro!

 

Imagem 1: Estela (Nathália Timberg) e Tereza (Fernanda Montenegro) em cena de Babilônia, novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares

Imagem 2: Reprodução da fan page do pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP)

 

3 comentários para “Babilônia brasileira com hipocrisia e muita maldade”

  1. Thiago Pimentel

    Gostei sim, e concordo com o que disseram nas redes sociais: “Tão pensando que gay não envelhece não?” Realmente, nossa sociedade hipócrita, como vc disse, parece aos poucos se acostumar com o homossexualismo entre jovens, mas quando duas senhoras idosas demonstram carinho uma pela outra, o bicho pega. Eu achei muito bom ter sido logo na estreia pra acabar com o mistério que tudo isso poderia gerar. E teve outro no terceiro capítulo também. A classificação me parece que é 12 anos, então quem não gostar basta mudar de canal e assistir a reprise de Carrossel no SBT. Gostei também dos tapas entre mãe e filha. Quem nunca ouviu falar em algo assim na vida real? “Meu Deus, filha batendo e cuspindo na mãe, aonde vamos parar?”, escreveu um internauta. Gente, a cena foi exibida por volta das 22h40, ou seja, hora de criança estar dormindo. Se é pra falar de bons costumes, lembro que no meu tempo de criança, isso não era hora de estar na rua, na casa do colega, nem sequer de estar acordado. Mas, nos tempos atuais, vai tentar tirar o celular de um garoto de 8 anos? E dizer pra sua filha de 15 que ela não pode chegar em casa tarde? A casa cai e vira bagunça. Quer dizer, já virou. É hipocrisia pura.
    Adorei quando vc disse: “Afinal, quem ainda, ao fim do dia, com todo o egoísmo a que tristemente nos acostumamos, após trinta anos de relacionamento, chega calorosamente e diz: ‘Como foi o seu dia, meu amor?’”. Se duas mulheres ou dois homens maduros e bem-sucedidos tem o privilégio de ouvir essa pergunta, que morram de inveja aqueles que não ouvem e só estão juntos num casamento arruinado apenas para pagar as contas.
    Espero que a novela continue nesse ritmo, com personagens críveis e humanos com um quê de realidade e que sirva para nos distrair. E a quem não interessar, mude de canal, leia um livro, assista a um filme, vá fazer amor, enfim, tem tanta coisa pra se fazer…

    Parabéns pela matéria!

  2. Edézio

    Mais um belo texto! Parabéns, Carol!

  3. Emmanuele Vidal

    Duas atrizes espetaculares, duas mulheres geniais, que estão interpretando um papel lindo!
    Sobre a hipocrisia? "O choro é livre"!

    Amor acima de tudo. É disso que as pessoas precisam, de amor. Precisam parar de apontar o dedo. A felicidade incomoda, né? Infelizmente!
    Deveria ser um beijo de um casal apaixonado, como qualquer outro. Deveria passar despercebido, como tantos outros passaram, como tantas cenas de sexo passaram, mas não, isso doí. Mas afinal, doí onde?

    Sobre Feliciano? É uma pena ele usar de sua covardia em nome de um Deus, que na realidade, ama à todos sem distinção!

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