Censura privada no âmbito digital

Nos últimos dias tive o privilégio de ler dois artigos intrigantes e instigantes sobre a rede social Facebook e sua relação com o conteúdo digital: um de autoria do ministro da Cultura, Juca Ferreira (leia aqui ) e outro publicado no YouPix, escrito por Bia Granja (veja aqui ).

Os dois artigos têm em comum o fato de alertar os leitores sobre o modus operandi do Facebook em relação à questão da fruição dos conteúdos na esfera digital, tema abordado nesta coluna com um enfoque um pouco diferente (veja aqui).

Do início: a hegemonia da internet está nas mãos de duas empresas privadas, o Google e o Facebook. O primeiro tem um algoritmo de busca inigualável, que o transformou no “Oráculo” do século XXI. Com serviços de busca, mapas (assustador, este serviço), vídeos (Youtube), tradução, entre outros, a companhia detém pelo menos dois terços do tráfego do planeta via web. A empresa do prodígio Mark Zuckerberg detém uma audiência de 1,4 bilhão de pessoas, sendo a principal rede social do planeta, dona de um algoritmo macabro, que filtra e determina o que chegará à sua linha do tempo, ou à sua página principal.

Tamanho poder, comparável ao Partido (Socing) do Grande Irmão, da mais ilustre obra de George Orwell, 1984, só poderia dar em abusos inexplicáveis. Vejamos: apesar de a internet ser um organismo impossível de ser dimensionado, tamanha a quantidade de conteúdos existentes, muita gente restringe a internet ao Google e principalmente ao Facebook, pois este é a grande ferramenta de socialização online. Ou seja: a maioria das pessoas busca as principais informações sobre qualquer coisa nas duas ferramentas. Quem não ouviu a expressão “dá um Google”, para procurar alguma coisa, não é mesmo?

Liberdade de ver o que quero que você veja

O problema é o seguinte: o Google e sobretudo o Facebook editam os conteúdos a ser apresentados, chegando ao passo de censurarem ao bel-prazer (ao “bel-interesse” é mais correto) informações por motivos diversos. Além dos problemas evidentes destes atos, há ainda um pior: a violação das leis de diversos países. É como se as duas companhias se autolegitimassem e se autorregulassem, à parte das legislações vigentes, para alcançar o maior número de cidadãos possível. Olha o tamanho da encrenca.

Aos casos: no citado artigo escrito por Juca Ferreira, a questão abordada é a de se repensar a cultura digital, pois o Ministério da Cultura foi alvo de censura do Facebook. Uma foto do acervo da Biblioteca Nacional, que mostra uma indígena com os seios à mostra (nossa, que coisa!), foi proibida de ser publicada na Zuckernet. A falta de parâmetros para julgar o que é pornografia e o que é patrimônio histórico e social, que retrata um modo de vida específico, é lamentável. E nem perguntam, simplesmente proíbem. Acontece que há leis no Brasil, como há em todos os países, que regulamentam de formas específicas assuntos peculiares, como a difusão do patrimônio nacional, que, por acaso, é repleto de conteúdo indígena.

Eu, que trabalho na Cult Cultura, empresa de marketing cultural, já sofri censura do Facebook: ao tentar publicar uma matéria sobre Nelson Rodrigues, cuja foto mostra o escritor e duas garotas de biquíni, não tive a “aprovação” da corporação.

Esses são casos graves, mas não os mais graves. Nos Estados Unidos, um jornalista envolvido com política (cujo nome não me recordo) lia diariamente posts sobre os democratas e os republicanos. Ele divulgava as informações do seu partido de preferência (não me recordo qual dos dois) e monitorava os posts do partido concorrente. Com o passar dos dias, o sujeito percebeu que as matérias do partido concorrente não apareciam mais na sua linha do tempo, certamente por causa do algoritmo de “preferência” do Facebook (sabe quando procuramos um livro na Amazon, por exemplo, e ela indica obras similares? É isso). É bizarro, pois acaba por acontecer uma censura disfarçada de filtro de preferência, que deturpa o princípio do debate e da legitimidade da democratização da informação, tema de base da conectividade digital e que vem sendo expurgado por algumas empresas online, em nome não se muito bem de quem ou do quê.

A internet descentralizou o monopólio dos conteúdos, dando a milhões de pessoas a possibilidade de criar e divulgar pensamentos, textos, fotos e quaisquer outros conteúdos. Contudo, justamente no ápice do avanço tecnológico, no auge do alcance interplanetário das redes sociais e plataformas online, vivemos um retrocesso claro, quando se disfarça censura de “filtro de preferência”.

A rede mundial não é uma terra de ninguém. Obviamente coisas julgadas tenebrosas, como pedofilia, devem ser combatidas. No entanto, a forma como a cultura digital vem sendo determinada mundo afora é preocupante. Imagine a quantidade de fotos de indígenas que foram “condenadas” pelo Facebook aqui no Brasil e não sabemos, só para citar um exemplo? E quantas pessoas foram brigar para conseguir publicar algo que a lei brasileira permite? E na África? Na Austrália? Ou em qualquer lugar do planeta em que existam culturas particulares, fora do eixo hegemônico da mídia e da economia, o que será que acontece? A diversidade cultural não pode se curvar ao despotismo de empresas online.

Importa entender por que Facebook ou Google, acusados de envolvimento em casos de espionagem e detentores de informações de bilhões de pessoas, não se adaptam aos parâmetros locais de cada país e, ao contrário, simplesmente impõem suas regras, e aceita quem quer, afinal, não resta alternativa.

Batalha digital

Mas importa mesmo muito mais é que nós tenhamos consciência de que a internet é um emaranhado sem fim de portais, blogs, vlogs e plataformas de todo tipo e finalidade. Portanto, a difusão do conteúdo digital é possível através de milhares de caminhos, não se restringindo aos dois Grandes Irmãos da atualidade. Mais: os princípios de cultura livre, democratização, acesso universal e cultura colaborativa devem continuar sendo o cerne da web e cada vez que alguma imposição, mascarada de “regra de uso”, surgir, a resposta deverá vir pela própria web. O que deve prevalecer na web é a livre fruição da diversidade cultural mundial e não a censura privada que hoje predomina no âmbito digital. Essa é decerto uma das grandes batalhas do nosso tempo. É, portanto, tempo de luta.

 

Imagem: Charge do norte-americano Erik Drooker (http://www.drooker.com/)

 

Comentário