Educação. Dos saberes aos sabores

Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível”,

Roland Barthes, “A aula”

Há quem diga, dentro dos muros da universidade, que não se pode iniciar a escrita de um trabalho sem uma boa taça de vinho. Há, ainda, quem diga que só mesmo com uma boa cachaça é que se consegue extrair as ideias da cabeça e transformá-las em palavras. Há, ainda, alguns outros – uns chatos, na minha opinião – que têm a audácia de dizer: a bebida, a boa bebida!, altera o estado da mente e por isso não deve ser consumida ao se produzir um texto acadêmico.

Eu acho que, no último caso, o que acontece é a continuação, por parte da academia e dos acadêmicos, de uma história de privação dos sabores. Explico: por que se privar de um prazer, que se soma ao prazer da própria atividade acadêmica, em determinados momentos, se não pelo motivo histórico e afirmação de que o conhecimento é difícil? “Somente possui o conhecimento aquele que se dedica a vida inteira às penitências de uma razão crítica”; “Somente possui o conhecimento aquele que abdica dos sabores que o mundo possui”, podem dizer alguns. O conhecimento ficou indigesto, pesado. Gosto amargo.

Contra a amargura desse mundo que só cultiva o saber e não o sabor, encontramos em alguns pensadores, como Rubem Alves, Friedrich Nietzsche e Roland Barthes (na última etapa de sua vida), uma deliciosa postura de resistência. Aproveitam exatamente o sabor como inspiração para conhecer o mundo e concentrar nossos esforços, para que, neste mesmo mundo, encontremos sentidos por meio dos sabores que vamos descobrindo pelo caminho. Um desses lugares, adianto, é o próprio corpo.

Corpo e conhecimento

Nosso corpo. Nosso corpo sabe saborear o mundo. Desfruta o mundo antes mesmo de usar a razão como único meio de conhecê-lo: ninguém se lembra do primeiro contato, mas é pela boca que o bebê experimenta (a própria palavra já remete aos sentidos!). Foi pela boca que aprendemos.

Nosso corpo sabe de coisas em que nem mesmo precisamos pensar. É o mesmo Rubem Alves quem conta a história da centopeia e do grilo. A centopeia andava pelo jardim quando encontrou com o grilo, e ele fez uma pergunta para ela: “Senhora Centopeia, como que você consegue se coordenar para andar? Não te atrapalha ter que pensar e sincronizar as cem patas?”. A Dona Centopeia respondeu: “Senhor Grilo, nunca havia pensado nisso, vou prestar atenção e lhe aviso quando descobrir!”. O Grilo agradeceu, se virou e foi embora. A Centopeia, entretanto, não conseguiu mais se mexer, percebeu que só conseguia andar com as cem patas porque nunca prestara atenção no próprio corpo, nunca tentara racionalizar a experiência do andar. E nós mesmos somos assim: quando aprendemos a andar, é o corpo do pai e da mãe que estão ali, chamando o nosso corpo: e nós atendemos, vamos cambaleando e caindo e aprendendo – ainda que não saibamos que estamos no meio de um processo de aprendizagem. Os pais, igualmente, estão aprendendo: aprendendo a ensinar, sem saber. O sabor que mora no caminhar nos traz à lembrança a experiência de encontrar nossos próprios pais.

Quando era criança – não muito tempo atrás – comecei a andar de skate. Nunca fui muito bom, mas acho que foi porque meus amigos tentavam dar ordens ao meu próprio corpo quando meu corpo, contrariado, não se deixava ser oprimido e fazia como desejava. Aí mora o sabor: ele não queria fazer as manobras que eu via na TV, ele queria simplesmente sentir o vento batendo na pele, jogando o cabelo para trás. Outra experiência foi tentar pilotar um triciclo. Aqueles que são bem parecidos com uma bicicleta, só que com duas rodas na traseira. As dez primeiras tentativas foram completamente um fracasso, pois, diferentemente de uma bicicleta de duas rodas, eu não precisava me equilibrar, bastava apenas que eu pedalasse e usasse o guidão como se fosse um volante de carro. Ora girava para um lado, ora girava para o outro e pronto. Depois de tentativas e outras tantas e tantas tentativas, finalmente consegui andar um pouco. Foi estranho, mas prazeroso.

O saber mora no corpo. O corpo habita o mundo. O mundo é sensível pelo corpo. O corpo é domado pelos homens.

A ideia começa a tomar forma: fazemos com que os alunos, desde crianças, aprendam nas escolas que seus corpos devem ficar parados, sentados, sedados frente a uma figura que vai depositar os conhecimentos todos do mundo cabeça abaixo, na maior parte das vezes pelos olhos. A participação do aluno, qual é?

Nenhuma, ou quase.

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Esse modelo se mantém ainda no ensino médio, no cursinho, na faculdade, nos cursos de pós-graduação (especializações, mestrado e doutorado). Aliás, não é exclusiva de professores essa prática sobre a qual escrevo, vale também para todo um entendimento falido de produção de conhecimento. Nessa forma conteudista, não há espaço para a criatividade dos alunos, não há espaço para a criatividade dos professores.

Esquecer para (re)aprender

O esquecimento, então, aparece como um caminho profundo de dar significado para o mundo. Foi Roland Barthes quem disse que existem três idades: a primeira é aquela em que nós ensinamos aquilo que sabemos, quando vamos falar para os alunos sobre aquilo que estudamos durante nossas vidas; vem logo depois, pois, outra fase, que é a de ensinar o que não se sabe, quando os alunos começam a nos perguntar sobre o que não estudamos ainda, e a dificuldade é a de tentar responder a essas indagações; a terceira fase, a mais complicada a meu ver, é a de desaprender. Sim, isso mesmo que você leu: esquecer dos aprendizados. Esquecer dos saberes, buscar os sabores. Nossa ciência não gosta nada dessa ideia… Mas ela tomou para si o lugar único e exclusivo de forma de aprender o mundo (a escola, em larga medida, entra nessa configuração: só servem para as disciplinas escolares aquilo que está dentro da escola, o que está fora não existe). O esquecimento é, pois, a desestruturação do conhecimento como única opção do conhecimento; esquecer é encontrar o que a janela já não mostra mais; esquecer é quebrar os muros – ou as estruturas – construídos para encubar nosso olhar.

Esquecer é o último estágio do ensino e o primeiro passo para um conhecimento mais humano e pleno de nossas vidas. Escavando ainda mais, podemos dizer que o esquecimento é a mais corajosa atitude cognitiva do sujeito frente ao pensamento racional-tecnicista de nossa era.

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