O primeiro dos muitos Brooks da minha vida

 

 

Meu irmão Arnaldo, o Banzé, gênio do marketing quando essa palavra não tinha o mesmo sentido de hoje, tinha sempre uns, como eu diria, “agregados” na sua oficina de lapidação de diamantes, que funcionava em casa.

 

E um desses “agregados” se chamava Osvaldo, que nutria sentimentos antinorte-americanos que, em sua algaravia, imitava um nativo de Tio Sam, falando um suposto idioma, que se encerrava quase sempre com uma presumível palavra ― Brooks. Daí, para que o próprio Osvaldo se transformasse ele próprio em Brooks, foi um pulo.

 

Brooks pra cá, Brooks pra lá, transformaram o Osvaldo em Brooks. E assim foi.

 

Descendente de italianos, moreno como um meridionale, Brooks foi um dos heróis da minha infância, pois esmerava-se em falar mal dos sobrinhos do Tio Sam, inevitavelmente falando naquela improvável língua da “Norte América”, no dizer dele.

 

Mas o traço mais marcante do meu relacionamento com o Brooks, na minha opinião hoje de adulto, foi que ele sempre me tratou como um igual, embora tivesse já naqueles anos dourados algo em torno de trinta anos, enquanto eu beirava os dez anos de idade.

 

Conversávamos muito, principalmente quando saíamos para “fazer o quilo”, dando a volta no quarteirão depois do almoço, pois uma das suas preocupações era sempre manter a forma física, comendo menos do que o habitual, mesmo que ainda sentisse um pouco de fome, ocasiões em que costumava exercer um dos seus pensamentos preparatórios visando estar sempre pronto para uma briga inesperada: “Sabe cumé, de repente surge um cara querendo comprar briga e a gente tem de estar sempre preparado; daí, tem de deixar um espaço no estômago pra poder encarar”.

 

Educado, um cavalheiro, um gentleman como era o Brooks, dificilmente acabaria participando de uma briga ― ainda mais logo depois do almoço!

 

Mas outros Brooks se juntaram à minha coleção de Brooks, ainda que em dias e anos distantes uns dos outros.

 

Eu já era casado e estava procurando emagrecer, quando encontro no elevador da Alcântara Machado com o Zé de Alcântara, que passou a exibir um físico apolíneo, pois havia perdido acima de dez ou quinze quilos graças a um médico de Nova York que havia lançado uma dieta revolucionária. O Zé de Alcântara ficou de me dar uma cópia das recomendações e dietas que tinha recebido do tal médico, mas brasileiramente não levei em conta aquele papo de elevador, que me parecia típico do “aparece lá em casa”.

 

Dias depois, eu era redator do Grupo Volkswagen, no quarto andar da agência, quando chega à porta da minha sala o Zé de Alcântara, em carne e osso (àquela altura muito mais osso do que carne, devido à dieta), me entregando o livro que, imagino, tinha sido escrito pelo Dr. Atkins, ainda em forma de uma apostila escolar.

 

Caramba, o homem era presidente de uma das maiores agências do Brasil (e, sem dúvida, a mais criativa) e tinha se dado ao trabalho de subir dois andares de escadas e vir me trazer o novo livro de dietas de um médico de Nova York, quando podia perfeitamente ter deixado o livro com sua secretária ou ter me chamado à sua sala para me entregar a “apostila”. Foi um gesto de grandeza que me marcou muito, foi a transformação do empresário em um dos muitos Brooks da minha vida.

 

Outro Brooks da minha vida foi o sócio do Zé de Alcântara, o vice-presidente de criação Alex Periscinoto, que, quando soube que eu havia me demitido da MPM em São Paulo, me telefonou ele mesmo para combinarmos um almoço ao meio-dia lá na Alcântara.

 

Quando cheguei, o Alex pediu desculpas por não podermos almoçar juntos, mas tinha sido lembrado pela secretária do almoço que ele já tinha marcado com a diretoria do Mappin (onde ele havia trabalhado durante muitos anos), um compromisso mensal a que ele não podia deixar de ir.

 

Propôs então o Alex que, durante a caminhada da Alcântara (na Praça da República) até o Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, fôssemos combinando os detalhes da proposta salarial. Naquela altura, eu ganhava na MPM algo em torno de 300 mil qualquer coisa (como sempre, é muito difícil de saber qual a moeda da época) e o Alex me ofereceu 500 mil. Como já éramos muito amigos, desde o tempo da Standard Propaganda, o Alex se ofereceu para me pagar em dinheiro 400 mil, guardando 100 mil até dezembro, quando então eu teria grana pra comprar um Fusca, coisa que poucos podiam fazer naqueles primeiros anos da década de sessenta. Com a posse do Castello Branco e a política econômica do Roberto Campos, a inflação tinha baixado para perto de zero. Sem prejuízo para ambas as partes.

 

Juntou-se então o Alex ao grupo dos meus Brooks, pois tinha cumprido o acordo que fizemos “de palavra”, durante uma caminhada da Praça da República até a Praça Ramos. Houve outros, muitos outros Brooks, de quem pretendo falar em um próximo artigo. Até lá.

*Juvenal Azevedo é jornalista, publicitário e assessor de imprensa.

 

2 comentários para “O primeiro dos muitos Brooks da minha vida”

  1. Shellah Avellar

    ÀGUA DE BEBER CAMARÀ!
    OI JUVNHA!Vc e sua memória tão generosa para com seus BROOKS..Considerando que "Brook" pode significar " riacho"que ele continue sendo um riacho de águas claras onde vc e nós todos possamos nos dessedentar.E que "brook",no sentido de "tolerar" nos irrigue sempre para que nos irriguemos "uns aos outros"..Daí,impossível não evocar TOM JOBIM (sempre ele em minha memória afetiva) :"ÁGUA DE BEBER!ÁGUA DE BEBER,CAMARÁ(DA)
    A minha casa vive aberta
    Abri todas as portas do coração…Água de beber….Àgua de beber….CAMARÁ!bjkas kósmikas!THE BROOKS GO ON…

  2. Antônio Torres

    Salve, Juvenal Azevedo!
    Boas lembranças, quando São Paulo ainda era uma doce província, mas com a voz cheia de dinheiro.
    Antônio Torres

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