Para especialistas, Justiça Eleitoral está na contramão da democracia

Os brasileiros se vêem tolhidos de se beneficiar amplamente, no campo político, das ferramentas democráticas da Internet por causa da regulamentação estabelecida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Ironicamente, no momento em que um caso de sucesso na política ocorre pelo uso amplo dos recursos da web, a campanha do candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama.

A restrição eleitoral na Internet brasileira foi um dos temas que marcaram as palestras e debates do Seminário Jornalirismo de Marketing Político, realizado nos dias 2 e 3 de setembro, no auditório da Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, em São Paulo.

Para Antônio Lavareda, diretor-presidente da MCI (empresa de consultoria estratégica e de comunicação política e governamental) e sócio da APPM (Análise, Planejamento e Pesquisas de Mercado), as restrições impostas pelo TSE – que limita o uso da Internet nas campanhas políticas à divulgação de um site oficial dos candidatos e proíbe a utilização de outras importantes ferramentas interativas que são características da chamada web 2.0 – são um contradição, já que vão no caminho contrário à democratização de acesso e à liberdade proporcionadas pela rede, justamente em um segmento, que é o político, tão necessitado de abertura à participação de todos.

”É preciso baratear as campanhas e aumentar a possibilidade de interação entre o eleitor e o candidato”, afirma o consultor, esclarecendo que a liberação do uso da Internet produziria esses efeitos esperados.

Marcelo Coutinho, diretor de análise de mercado do Ibope Inteligência, também lamenta as limitações impostas pela Justiça Eleitoral: “No Brasil, a interação dos candidatos com a web acaba sendo muito pequena, mesmo”.

Foto de Alexandre Azevedo
Marcelo Coutinho no Seminário Jornalirismo de Marketing Político
Marcelo Coutinho lamenta interação restrita entre eleitor e candidato via web no Brasil.


Ele destacou que uma campanha baseada na Internet promove mudanças radicais em relação à tradicional forma de se propagar um candidato, já que ”a web torna a participação política muito mais fácil, porque faz com que essa participação seja mais barata”.

Vale lembrar que os esforços para que tais restrições sejam revertidas – possibilitando o uso mais intenso dos recursos da web, como as redes sociais – vêm produzindo efeitos no próprio Judiciário. Um juiz eleitoral de Fortaleza decidiu, em agosto passado, ampliar o leque de usos da Internet para os candidatos.

Além disso, no próprio TSE, o debate sobre a importância da rede nas campanhas políticas também está sendo retomado e pode, em breve, se transformar em abrandamento das restrições.

Caso de sucesso

Com certeza, a experiência de Barack Obama está no topo das discussões atuais e será mote para estudos futuros; afinal, o uso da Internet e, em especial, das redes sociais (como o Facebook) contribuíram não só para o sucesso de divulgação da campanha do democrata, mas também para a arrecadação de cerca de US$ 200 milhões em doações de mais de 1 milhão de simpatizantes. “A web está redesenhando o conceito de campanha política”, diz Coutinho. ”Pode ser que a gente esteja assistindo, hoje, ao nascimento da democracia das redes.”

É importante ter em mente que o alcance da Internet na sociedade brasileira ainda é restrita. Segundo Marcelo Coutinho, enquanto nos Estados Unidos virtualmente 100% dos eleitores têm acesso à rede mundial de computadores, no Brasil, esse percentual está em torno de 25% dos votantes.

Portanto, a web não é ainda, em nosso país, um veículo de alcance global, limitando consideravelmente a eficácia de seus resultados, principalmente em relação às camadas mais pobres da população que, em geral, concentram os “excluídos digitais”.

“A TV é, sim, o meio dominante, e continuará a sê-lo por um bom tempo”, pondera Marcelo Coutinho. Mas as perspectivas e os números indicam mudanças nesse cenário, reservando mais espaço para a Internet.

O panorama, portanto, vem se transformando rapidamente, em especial pelo barateamento dos equipamentos e serviços relacionados à web, pelas ações oficiais e não-governamentais de inclusão digital e, também, pelo fenômeno da multiplicação de “lan houses” e “cybercafés” em todo o país, que representa acesso barato e disponível àqueles que se sentem atraídos ou necessitam da Internet.

Entusiasta das novas tecnologias de informação e comunicação, Gil Giardelli, sócio-fundador da Permission Inteligência Digital e vice-presidente da Adrenax Venture Capital, afirma, sobre a evolução da Internet: “Eu acredito que vai dar certo”.

Foto de Alexandre Azevedo
Gil Giardelli no Seminário Jornalirismo de Marketing Político
Gil Giardelli explica a força de Barack Obama nas redes sociais digitais.

E dá uma dica a ser conferida: “Quem quer ver a cara política daqui a alguns anos vai acompanhar o que o Estadão Online está fazendo hoje com o especial ‘Vereador Digital’ [veja aqui]”.

Giardelli lembra, inclusive, que o Brasil é caso de estudos internacionais em duas áreas de desenvolvimento das novas tecnologias – Internet Banking e voto eletrônico –, e que a Internet não pára de crescer por aqui.

Modelo “Socialcast”

Levando as discussões para além do campo político, o diretor do Ibope destaca as possibilidades de comunicação e interação oferecidas pela Internet como um novo modelo informacional, diferente daquele que vigorava até há pouco tempo.

Para ele, a web está substituindo o modelo “Broadcast”, em que uma única fonte fala e alcança muitos (exemplos da televisão e rádio), para o modelo que chama de “Socialcast”, em que muitos falam para muitos, referência às possibilidades de interação propiciadas pela Internet.

“O mundo digital veio mostrar que não é mais preciso dispor de equipamentos caríssimos para transmitir-se notícias, não é necessária uma concessão ou uma licença do governo. Isso é um risco tremendo para as empresas e para os candidatos. Os políticos não têm mais o monopólio do discurso”, declara Coutinho.

Dicas de marketing político

Em sua participação no seminário, Antônio Lavareda apresentou um modelo de elaboração de plano de marketing estratégico para uma candidatura política.

Segundo ele, é preciso construir uma análise do mercado e da oferta no cenário da campanha.

Na perspectiva de mercado, ele sugere análises relacionadas a três elementos: sociedade (como é sua distribuição e formatação), cultura política (como a sociedade se comporta em relação à cena política) e opinião pública (o que a sociedade pensa sobre as instituições e sobre a própria sociedade e suas relações).

No campo da oferta, de acordo com Lavareda, é importante conhecer bem: o sistema partidário (como são divididas as forças e como se apresentam os partidos); as regras eleitorais (tempo de tevê, restrições ao uso da Internet etc.); e as campanhas (tanto a própria como as demais, atentando sempre para o posicionamento, candidatos, propostas e circunstâncias de campanha).

Para dar substância adequada a tal análise e à construção da campanha, a ferramenta de base apontada por Lavareda é a pesquisa, enquanto o instrumento de efetivação dos objetivos da campanha é a comunicação.

“As propostas são os produtos com os quais os candidatos acenam para o ‘mercado’. Para elaborar as propostas, é preciso identificar problemas. Aí, o uso de pesquisas é essencial”, exemplifica Lavareda. “É preciso se munir de informações, fazer pesquisas, estar com a visão afiada para perceber tendências”, acrescenta.

Para Marcos Le Pera, presidente da agência de propaganda Le Pera, um dos grandes problemas do marketing político atual é o excesso de personalismo adotado por alguns candidatos. “O candidato se apresenta como sendo maior que a própria causa que defende, maior que a cidade que o elege. A criatura é maior que o criador”, avalia. “Nossa sociedade, na base do sofrimento, vai fazer com que esta visão mude”, prevê.

Marcelo Coutinho lembra que, no modelo atual, os investimentos em uma campanha política têm de ser grandes, já que os meios de propagação são caros. “Você não se elege hoje em um sistema de comunicação de massa se não seguir as regras do sistema de comunicação de massa”, pontua.
Foto de Alexandre Azevedo
Público participa do Seminário Jornalirismo de Marketing Político
Público participou ativamente dos dois dias de palestras e debates do seminário.

Evolução do eleitor

Questionado se o eleitor brasileiro está mais bem preparado hoje em relação à política do que há alguns anos, Antônio Lavareda mostra otimismo. Segundo ele, por dois motivos: o acesso e a qualidade da educação e da informação melhoraram; além da reiteração continuada, isto é, o brasileiro está exercitando com mais freqüência o ato de votar.

Ele destaca, por exemplo, que, desde a redemocraticação do país, em 1985, alguns cidadãos em cidades onde tenha havido realização de segundos turnos constantes podem ter votado mais de 50 vezes. “É lógico que esse eleitor é mais consciente que aquele de 15 ou 20 anos atrás”, conclui.

O Seminário Jornalirismo de Marketing Político foi uma realização do Jornalirismo e da PS Carneiro Eventos, com o apoio da Eventar, da Le Pera, da Livraria Cultura, do Maxpress e da Permission.

2 comentários para “Para especialistas, Justiça Eleitoral está na contramão da democracia”

  1. Alexandre Azevedo

    Horário de Palhaçadas Eleitorais
    Eu me pergunto…
    Como é que o Collor pôde se candidatar novamente?
    Pior que isso… como pôde ele ganhar?
    Maluf, um dos maiores ladrões de todos os tempos, é candidato a prefeitura.
    Serginho Malandro salci fufu?!
    Não há mais respeito pelos políticos, pois só vemos um bando de palhaços na propaganda eleitoral.
    Mas aí percebemos que os verdadeiros palhaços somos nós.
    O nosso dinheiro vai para o bolso dos corruptos.
    Vamos lá… votar no menos pior…

  2. Jucka Anchieta

    Participei do seminário e foi de grande aprendizado, sempre é importante obter informações sobre marketing político e vindo de profissionais da área é de grande valia.

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