Temos uma nova ministra da Cultura. Ana de Hollanda assumiu a pasta que pertencia a Juca Ferreira. Aos 62 anos, é cantora, compositora e gestora cultural, tendo trabalhado na administração pública, como secretária de Cultura da Prefeitura de Osasco, na Grande São Paulo, durante os anos 1986 e 1988, e como chefe do setor musical do Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. Mas, afinal, quem é ela de fato?
Anna Maria Buarque de Hollanda nasceu em 12 de agosto de 1948, em São Paulo. Filha do historiador e intelectual Sérgio Buarque de Hollanda e de Maria Amélia Alvim Buarque de Hollanda, e, portanto, irmã de Chico Buarque, Ana de Hollanda (nome artístico) está ligada ao mundo da arte e da cultura desde 1964. Foi quando iniciou sua carreira como cantora, mais exatamente no Teatro do Colégio Rio Branco, em São Paulo, no show "Primeira Audição", integrando o vocal Chico Buarque e as Quatro Mais.
No ano de 1968, Ana de Hollanda participou da gravação do LP "III Festival Internacional da Canção Popular", interpretando a canção "Dança das Rosas", de Chico Maranhão. Uma década depois, Ana participaria, como vocalista, do show "Tom, Vinícius e Miúcha", realizado no Canecão, no Rio, e no Anhembi, na capital paulista, e do especial de fim de ano do irmão Chico, realizado pela TV Bandeirantes.
Consolidando-se como boa intérprete, Ana resolveu desenvolver seu timbre e começau, em 1979, a estudar técnica vocal com a professora e fonoaudióloga Rosemarie Shock, em São Paulo, interrompendo o curso somente em 1996.
Já na década de 1980, quando gravou seu primeiro LP solo, um homônimo produzido pelo selo Eldorado, Ana também começou carreira teatral, fazendo curso de formação de atores no Teatro Vento Forte, que lhe propiciou as bases conceituais na área de gestão cultural.
Em 1982, seu primeiro trabalho mais ligado à esfera pública: a composição e gravação do jingle "Acorda Meu Povo!", para o então candidato ao governo de São Paulo Franco Montoro. Com prestígio consolidado, excursionou pelo Brasil e pelo exterior, passando por Cuba, Uruguai e França.
Em 1985, com maturidade musical aguçada, a atual ministra aceitou fazer a direção musical do curta-metragem "Vianinha", com direção de Gilmar Candeias e Jorge Achôa.
Nos anos 1990, Ana de Hollanda consolidou também sua carreira teatral. Participou da oficina de técnica vocal com o professor francês Robert Cohen, na Escola Internacional de Teatro da América Latina e Caribe, em Machurucuto, Cuba; atuou, como atriz, no espetáculo baseado no romance "O Reino deste Mundo", de Alejo Carpentier, dirigido por Amir Haddad; escreveu, em conjunto com a dramaturga Consuelo de Castro, a peça "Paixões Provisórias"; e integrou a oficina de técnica vocal ministrada pela fonoaudióloga Glória Beutenmüller, promovido pela Prefeitura de São Paulo.
Nos anos 2000, a artista ministrou cursos nas áreas musical e teatral e lançou mais um álbum, pelo selo Jam Music, e trabalhou no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva, como diretora do Centro de Música da Funarte (Fundação Nacional de Artes).
Desafios
Ana de Hollanda assumiu o Ministério da Cultura em um momento ambíguo. Uma série de ações interessantes e essenciais para o sucesso das diretrizes culturais do governo, como o Mais Cultura, Vale-Cultura e ProCultura, pode ficar em segundo plano. Isso devido a problemas antigos na pasta, como as mudanças da Lei Rouanet e da Lei de Direitos Autorais e o atraso na instituição do Plano Nacional de Cultura.
A ministra é muito sensível à classe artística. Uma de suas primeiras medidas no novo cargo foi reafirmar o compromisso com a democratização da cultura, buscando fomentar a arte em áreas que não pertençam às regiões Sul e Sudeste, que ainda monopolizam a produção cultural nacional.
Ademais, firmou o objetivo de alinhar as políticas culturais com os interesses do PT de erradicação da fome e do analfabetismo. Uma das diretrizes do novo governo é a parceria sistêmica com o Ministério da Educação, fomentando a cultura na base da pirâmide educacional: o ensino fundamental.
Tanto que, este ano, as escolas serão obrigadas, segundo a Lei de Diretrizes e Bases, a inserir, na grade curricular, aulas de música e cultura afro, o que reforça a importância da relação dos dois ministérios. Programas como Mais Cultura e Casas de Cultura contribuirão muito com o ensino brasileiro e nisso a ministra está no rumo certo.
Os maiores problemas que ela deverá enfrentar, sem dúvida, estão ligados à mudança da Rouanet, aos direitos autorais e às novas mídias e tecnologias. A Rouanet está prestes a mudar. De forma geral, o texto busca dar mais alternativas a pequenos grupos, a regiões economicamente menos favorecidas. O que preocupa a maioria dos produtores e atores é que haverá total intromissão do governo nas decisões de patrocínio, que, aliás, ficará menos atraente, em termos de publicidade, para as grandes corporações.
Então, há, de um lado, grupos que podem ter maior oportunidade de obtenção de recursos, hoje dificultados pelo dirigismo dos patrocínios, e, de outro lado, grandes grupos, captadores e uma meia dúzia de "bandidos" (que afanam verbas dos projetos) acostumados com o caráter substancialmente comercial da Rouanet. E isso está na mira da ministra.
Outro desafio que Ana de Hollanda vai encarar é a já flagelada e irreal Lei de Direitos Autorais. Setores da área cultural já apresentaram sugestões de mudanças, que agora precisam ser estudadas. Fato é que a lei atual sobre direitos do autor é patética e muito complexa. E está muito distante da realidade nova, fortemente impactada pelas novas mídias e tecnologias. Por mais que se torça o nariz para o download de obras, isso acontece em larga escala e precisa ser repensado.
Inclusive, o portal do Ministério da Cultura, que detinha o selo do Creative Commons, um tipo de associação que distribui selos de usos diversos de obras, sem ônus de direitos autorais, autorizados pelos criadores, foi retirado. A justificativa é que o portal não necessita de selo de um grupo estrangeiro para ser algo que ele já é: aberto a todo cidadão brasileiro.
Por fim, pelo perfil e histórico profissional de Ana de Hollanda, é legítima a (boa) expectativa com sua gestão. Porém, como o Brasil é um país ainda conturbado, é preciso ter cautela. Mas os laços familiares e a bagagem cultural da ministra dão a confiança que é necessária para acreditar que a cultura vai emplacar de vez no país.
Para saber mais sobre a carreira artística da ministra, visite a página oficial dela.
* Leonardo Cássio é sócio-diretor da CultCultura, empresa de marketing cultural.
Fico mais feliz em saber de sua competencia e ousadia e coragem; o que mais precisamos no setor.

