Um dos temas latentes no campo da cultura atualmente é a importância da diversidade cultural para o desenvolvimento das múltiplas sociedades. Observando o panorama, a UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, publicou em 2001 a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural.
O documento ratifica um plano de ação com pontos importantes sobre a diversidade e pluralismo cultural e é um grande avanço para estes tempos de globalização, avanço tecnológico e disseminação desenfreada de informações.
A UNESCO utiliza uma definição de cultura cunhada na Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais (MONDIACULT, México, 1982), que diz: “A cultura deve ser considerada como o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as maneiras de viver juntos, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”.
Partindo dessa definição de cultura, é possível observar a importância da diversidade e pluralidade cultural nos dias de hoje. Durante séculos, as nações hegemônicas (Império Grego e Romano; Portugal e Espanha; Inglaterra e Estados Unidos) buscaram, sempre, delinear uma cultura própria, única, singular, que pudesse ser entendida de forma universal. Daí se poderia “impor” a sua diante de outras, na forma de legitimação.
Era, inclusive, uma das táticas de guerra e domínio a total destruição das culturas subjugadas, a fim de impor não só poderio bélico, mas também poderio intelectual e cultural. Aniquilar o patrimônio material e imaterial foi uma das principais táticas dos impérios, mesmo que isso tenha sido feito de forma “mais sutil” (como os portugueses fizeram com nossos índios, ao catequizá-los.)
No entanto, toda essa confluência de pessoas, materiais e costumes, ritos e outros, entre os diversos impérios/nações ao longo de séculos, acabou por mesclar, misturar, um sem-número de culturas milenares, fazendo surgir sociedades heterogêneas, como a nossa, a brasileira.
Brasil: identidade cultural definida?
Partindo dos clichês das matrizes africana, europeia e indígena, que formam a base do povo brasileiro, já se tem a resposta: não. Mas o ponto não é esse. Quando se pensa em buscar uma identidade, um traço específico, o raciocínio lógico é encontrar singularidades que permeiam unicamente dada sociedade. Acontece que, com essa mescla de culturas e a acentuação das trocas de informações e bens simbólicos, hoje facilitados pela internet, a busca por uma linha de diferenciação em âmbito territorial – de um país, por exemplo – está caindo por terra.
Veja, algumas nações possuem traços e costumes inexoráveis e distintos de qualquer outro povo no mundo. No entanto, o intercâmbio entre as culturas, que se dá em larga escala, não acontece sem que haja uma mudança, mesmo que mínima, entre os povos participantes.
O Brasil já é, de berço, um país étnica e culturalmente plural. Ao longo de sua existência, a complexidade das relações culturais acabou por criar os chamados “Brasis”, que nada mais são do que diversas culturas similares em um mesmo Estado/Nação. O movimento antropofágico de Oswald de Andrade ajudou a acentuar essa troca, essa mescla internacional de culturas e criou uma identidade cultural brasileira: a da diversidade e pluralidade.
O Brasil é um dos países mais heterogêneos, culturalmente falando. Tal complexidade se observa nas diversas manifestações folclóricas, artísticas e sociais que observamos país afora. E esse é o DNA brasileiro.
Portanto, quando a UNESCO busca aprofundar o debate internacional sobre os problemas relativos à diversidade cultural; quando busca favorecer o intercâmbio de conhecimentos e práticas recomendáveis em matéria de pluralismo cultural; quando busca avançar na salvaguarda do patrimônio linguístico e no fomento à diversidade linguística; quando busca aumentar a “alfabetização digital” e conceber e entender novas formas de distribuição de conteúdos e informação através da tecnologia; quando a UNESCO busca tudo isso é preciso entender que o Brasil sempre esteve um passo à frente com relação a boa parte dos tópicos do plano de ação do documento. Porém, não de forma organizada.
É preciso entender também que sociedades e nações que buscam criar uma cultura própria, heterogênea, estão indo na contramão do que se espera que aconteça. Isso vale, por exemplo, para a França, de Nicolas Sarkozy. A busca pela diversidade cultural é a mesma busca pelos direitos civis, pela igualdade e fraternidade francesa, pela diminuição da xenofobia, pelo aumento de renda para os menos favorecidos etc.
É o princípio da troca, da participação, da miscelânea, do entrosamento. Ser plural, ser diverso é buscar, nas diferenças, traços de união e de igualdade, que possam juntar pessoas e culturas, visando unicamente o desenvolvimento de todos.
O Brasil, nesse cenário, tem muito a mostrar para o mundo. É um país diverso e plural desde a gênese. Porém, tem muito a aprender, pois ainda não explorou suficientemente seus valores culturais. Mas há de sermos otimistas; afinal, nossa identidade cultural é das mais indefinidas que existem. E por isso mesmo uma das mais ricas que podem existir. A UNESCO que o diga.
*Leonardo Cássio é sócio-diretor da CultCultura, empresa de marketing cultural.

