Comunidade abraça jornalismo por mudança social


Susana Sarmiento, Paulo Fehlauer e André Deak debatem mídia e desenvolvimento.
 
Por meio de três workshops, o público presente ao “Mídia e Desenvolvimento em Debate”, realizado na sexta-feira, 27 de novembro, durante a Expo Brasil Desenvolvimento Local, em São Paulo, teve a oportunidade de vivenciar as relações da mídia com as comunidades locais e, simultaneamente, interagir com os palestrantes.
As atividades do dia tiveram início com o workshop “Como podem ser feitas reportagens de desenvolvimento por meio do jornalismo colaborativo?”.
André Deak, jornalista do Cultura Digital Brasileira (veja site aqui) e da FLi Multimídia (veja site aqui), propôs trabalhar a comunicação de forma ampla, desenvolvendo projetos especiais com foco no cidadão comum.
“Dá para fazer tudo com o que está em nossas mãos, um simples celular, por exemplo”, sugeriu Deak, referindo-se à produção de conteúdo e à disponibilidade das ferramentas e dos meios. Para ele, “a ideia é compartilhar conhecimento, ocupar os espaços, compartilhar a informação”.
 

O jornalista André Deak: Defesa do jornalismo livre e independente.

 
Paulo Fehlauer, do Coletivo Garapa de jornalismo multimídia (veja site aqui), defendeu a proposta de conteúdo independente: “A ideia é ser uma comunicação aberta, sem, necessariamente, precisar de um diploma [de jornalista]”. O jornalista acrescentou que “ninguém melhor que a comunidade local para conhecer e divulgar a própria região”.
 

O jornalista Paulo Fehlauer: Capacidade da comunidade se autodivulgar.
 
Em meio à interação com os participantes, que, ora perguntavam, ora relatavam suas experiências, ora se surpreendiam e, atentos, captavam aquelas reflexões para si, os jornalistas mostraram um pouco dos seus trabalhos.
Apresentaram vídeos e iniciativas de algumas empresas de comunicação, como a revista Página 22 (veja site aqui), que têm abordado questões de responsabilidade socioambiental utilizando novas ferramentas e redes sociais, para se comunicar com seus públicos.
Entre os vídeos exibidos, Crônica de uma catástrofe ambiental, reportagem multimídia sobre a história do derramamento de agrotóxico no rio Paraíba do Sul, produzida para a revista Fórum (veja a reportagem aqui).
Outro vídeo mostrado foi Nação Palmares (veja aqui), reportagem multimídia  sobre quilombolas, difundido pela Agência Brasil e vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Internet.
Admirador da corrente do jornalismo chamada de jornalismo literário, que combina recursos de apreensão do real do jornalismo com técnicas de narração da literatura, André Deak disse que, hoje, mudou de opinião: “É muito mais interessante uma história com jornalismo multimídia”.
Paulo Fehlauer concorda com as possibilidades abertas pelas ferramentas de conteúdo disponíveis: “Elas existem e basta apenas saber usá-las, para adequá-las à sua necessidade”.
Mídia e cultura de paz
O workshop “Como a comunicação pode ser pacífica e de que forma a mídia pode contribuir com esse movimento?” iniciou as atividades do período da tarde.
Lia Diskin, professora e jornalista da Associação Palas Athena (veja site aqui), abriu o debate explicando o conceito de paz inscrito na Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz (veja texto aqui), da ONU (Organização das Nações Unidas).
Na sequência, contextualizou os desafios à paz: “As pesquisas sobre a paz revelam as múltiplas faces da violência e, por outro lado, revelam também as novas tecnologias da comunicação, em que estão presentes o diálogo, a mediação de conflitos, a justiça restaurativa, a comunicação não violenta, os jogos cooperativos e as dinâmicas relacionais”.
 


Lia Diskin e a cultura de paz: Uma outra comunidade é possível.

 
Para a professora, as novas tecnologias de informação provocaram a “proliferação de organizações da sociedade civil de modo inusitado” e ainda o alargamento de liberdades: “Há uma democratização dos relacionamentos, uma horizontalidade na comunicação e, portanto, temos uma comunicação mais aberta, considerando que, antigamente, não existiam questionamentos”.
Logo, segundo Lia, para se ter uma comunicação mais pacífica, é fundamental haver novas formas de convivência e uma postura totalmente comprometida com a humanização.
Como exemplos, citou algumas práticas bem-sucedidas no Brasil e afirmou, categórica: “O humano sempre está presente”.
Finalizando sua reflexão, Lia fez o lançamento oficial da cartilha Cultura de Paz – Redes de Convivência, criada por ela para o Senac São Paulo e distribuída ao público durante os debates.
A cartilha visa promover a prática da cultura de paz e despertar nos cidadãos comportamentos condizentes com os valores universais de respeito à vida, liberdade, justiça, solidariedade, tolerância, direitos humanos e igualdade.
Consequentemente, o leitor tem à disposição um conteúdo aprofundado com foco na não violência, na educação, na promoção da saúde e na sustentabilidade que, por sua vez, poderá ser utilizado para discussões mais aprofundadas sobre os assuntos, para mobilização de novos debates, novas formas de comunicação e para viabilização de projetos nas comunidades.
 
 
 
Cartilha Cultura de Paz: Publicação do Senac São Paulo estimula tolerância.

 
Medo versus paz
Complementando e enriquecendo essa reflexão, Edvaldo Pereira Lima, da ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário, veja site aqui), lembrou que a mídia não é neutra.
“A comunicação produz efeitos em quem a recebe, e os efeitos podem ser construtivos ou destrutivos. Boa parte do trabalho atual da mídia está no nível da letargia, pois mostra uma quantidade imensa de notícias negativas. O negativismo gera o medo. Os meios de comunicação criam um estado de pânico e medo. E o medo é inimigo da paz”, criticou.
Contrapondo-se a essa situação, Edvaldo cobrou mudança de postura do jornalista: “Está em nossas mãos fazermos mais, temos um poder extraordinário de comunicação e sensibilização. Devemos ter consciência desses efeitos que são gerados nas pessoas”. E completou: “É possível, com a comunicação, mudar os efeitos e construir modelos positivistas”.
 
 

Edvaldo Pereira Lima cobrou pautas positivas na imprensa brasileira.

 
O jornalista da ABJL destacou a necessidade de humanização na comunicação e sugeriu um caminho prático: por intermédio de um simples exercício, no qual um grupo é estimulado a ser mais receptivo, deixando de lado a crítica e trocando experiências e compartilhando histórias.
Com base nessa vivência, surgem as mudanças de atitude e comportamento. Edvaldo assegurou que “todos nós, seres humanos, temos a possibilidade de ampliarmos nossa consciência, afastando o medo e trazendo a paz”.
Como exemplo positivo, citou a também jornalista e escritora Eliane Brum, repórter especial da revista Época, que conta histórias de vida buscando transformar o mundo por meio de uma comunicação mais consciente e generosa.
O professor e jornalista concluiu sua apresentação com uma recomendação: “Cada um de nós, se procurar, encontrará milhões de histórias positivas para contar. Mas, para isso, é preciso abrir o nosso olhar e dar voz às pessoas. É preciso sensibilizar o jornalista para, quando for à rua, colocar em primeiro lugar o ser humano”.
Desenvolvimento local
Encerrando o dia, o workshop “Metodologia e práticas de desenvolvimento local” teve a participação de Lourdes Alves de Souza e Cristina Prado, da área de desenvolvimento social do Senac São Paulo.
Lourdes e Cristina divulgaram os projetos que a instituição incentiva nas comunidades próximas, proporcionando mais qualidade de vida às pessoas envolvidas. Lourdes destacou que, “desde 1970, o Senac São Paulo desenvolve um trabalho de responsabilidade social, oferecendo cursos gratuitos, fazendo parcerias com organizações sociais e identificando o que as comunidades têm em comum”.
Segundo a responsável pelo desenvolvimento de metodologias e capacitação de mediadores do Programa Rede Social (veja site aqui), do Senac São Paulo, “a rede é sistema capaz de reunir pessoas em que todos ganham, uma forma mais solidária e humanitária de organização social”. Em tempos de globalização, disse Lourdes, “desenvolvimento local se faz junto”.
 

Lourdes Alves de Souza: Importância da conexão da comunidade em rede.

 
Para legitimar esse processo, Cristina Prado, agente de desenvolvimento local da Rede Social Águas de São Pedro, demonstrou a prática desenvolvida no município paulista de Águas de São Pedro, referência nacional.
 

Cristina Prado: Prática de desenvolvimento local em Águas de São Pedro, SP.
 
Para saber mais sobre o Programa de Desenvolvimento Local do Senac São Paulo, acesse o site www.sp.senac.br/dlamericalatina.
Na noite de sexta-feira, eu ainda precisava pegar dois ônibus e o trem, para chegar à minha “comunidade”. Mas ia feliz e cheia de ideias para compartilhar com você.
O “Mídia e Desenvolvimento em Debate” foi uma realização do Setor3, portal de desenvolvimento sustentável do Senac São Paulo (veja site aqui), e a área de desenvolvimento social do Senac São Paulo, com organização e produção do Jornalirismo.
 
Veja agora mais imagens do “Mídia e Desenvolvimento em Debate”:
 

Cerca de 250 pessoas participaram dos workshops do “Mídia e Desenvolvimento”.

 

Público queria saber como demitir o patrão e sobreviver com jornalismo.
 
 
Plateia reuniu gente de todo o Brasil, incluindo assentados do MST da Bahia.
 

Susana Sarmiento, editora do Setor3, moderou debates.

 

Juliana Barroso, do desenvolvimento social do Senac São Paulo: Participação.
 

Comunidade Jornalirismo: Suely Bandeira e Andréia Vieira de Moraes.
 

Público ganhou presente de boas-vindas: Sacola ecológica.
 
Fotos: Valdecir Carvalho (veja site aqui)
 

5 comentários para “Comunidade abraça jornalismo por mudança social”

  1. Marcio Alvarenga

    Um novo sentido para o rádio.
    Quando surgiu a televisão, tentaram matar o rádio. Quando surgiu a internet, nova tentativa. O rádio continua fazendo parte da vida das pessoas. Mantenho um programa que está completando 23 anos no ar, o que é uma raridade.Pela gama diversificada de quadros e temas tratados, percebe-se a grande sede de informação que o público continua apresentando.Encontrei um caminho para conduzir a informação da pesquisa academica até a comunidade. Claro, isso implica em esforço que nem todo profissional está disposto a fazer. Convido-os a conhecer o nosso trabalho.
    www.programatrocandoemmiudos.combr

  2. Josilene Barbosa Marins

    Eventos desse tipo precisam sair de São Paulo. Correr o país. Sei que as características continentais do nosso país não ajuda muito. Mas uma importante função do jornalismo é disceminar o conhecimento, trocar experiências e conhecer outras realidades. Convido todos a pensarem numa edição itinerante. Eu adoraria ter a oportunidade de participar de evento desse tipo em meu estado, Pernambuco.

  3. André Garcia

    Papel do jornalista
    Muito bom debater a responsabilidade social e o papel do comunicador. Aplicar os frutos do debate é certeza de melhora na sociedade.

  4. andré trigueiro

    Novos significados para o jornalismo
    Parabéns a Andréia pelo maravilhoso resumo de um encontro que lamentei muito não ter tido a chance de participar. É de movimentos como esse que nascem novas perspectivas, idéias-semente, que emprestam novos significados ao jornalismo.
    Um grande abraço,

    André Trigueiro

  5. Juliana Rocha Barroso

    Em crise constante
    Eu estava lá e digo: valeu muito ter estado. E de estado físico e mental principalmente. Trocar informações e multiplicar experiências são, para mim, o verdadeiro sentido de mídia. Sou jornalista de formação e desde que comecei a entender o sentido das palavras ouço que o jornalismo está em crise. Em crise é bom, melhor que estagnado, sem movimento, sem autoanálise. Mudar, rever, inventar, propor, fazer, refazer sempre, estar vivo. Sempre pensei sobre o quanto seria bom estar viva no meio do trubilhão, em momentos de grandes viradas, em que toda a comunidade humana fosse colocada em cheque, questionada sobre sua presença e seu papel nessa giganda hospedeira que é a Terra. Sou pela crise, que considero a grande promotora de desenvolvimento entre nós, humanos. A todos ficam meus votos de constante crise.

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