Dia dos Pais entre a palavra e o abismo

“Passamos juntos por muita mudança, lutamos horas sem conta em lutas sem perspectivas, esperamos sem esperança colheitas que não brotaram, ficamos homens numa ditadura e envelhecemos noutra” (Antônio Candido)

Tentando me desvencilhar da pressão imposta pelo oficialmente denominado dia dos pais, dia 12 de agosto deste ano, no último domingo, fui assistir à Mostra A PALAVRA E O ABISMO, uma das montagens dos Núcleos de Pesquisa do Grupo XIX de Teatro, na Vila Operária Maria Zélia.

Por conta destas coisas que Carl Gustav Jung denomina sincronicidade, o autor homenageado Paulo Emílio Salles Gomes historiador, crítico de cinema professor ensaísta e militante político, encenou este mesmo texto na Vila Maria Zélia em 1936, considerada reduto da verve intelectual da época.

Para me distrair da saudade de meu pai, também  militante político, ambos já mortos, vislumbro o que seria apenas uma cena improvisada, resultante numa colagem madura, em cenários “realistas”, tais como uma cozinha e um banheiro e a finalização improvisada nas ruínas de uma escola incendiada no passado e “prestes a desabar a qualquer momento”, tal e qual o cenário político, econômico e social do país.

Destas cinzas, com mato abundante misturado à vegetação natural dos jardins que em algum tempo e lugar certamente vicejavam cultura e arte, encerraram o processo em que os diálogos se atravessam com a incompreensão característica dos novos tempos.

A Improvisação tem um rico jogo cênico que dobra diálogos e inverte situações que culminam num espelho das  muitas  faces que exibimos pra não nos deixarmos reconhecer.

A falta de olhar para o outro com compaixão e alegria por ter a oportunidade de dialogar com a diversidade .

Pontos de vistas que não se coadunam mas que se agridem ininterruptamente com a   tergiversação demasiado humana de enxergar somente nossa suposta verdade.

Consciências  herméticas, recortadas por preconceitos e estereótipos engessados em um desgoverno psíquico que desconsidera a  unificação,o equilíbrio dinâmico e a reconciliação.

Uma provocação ardente para revisarmos nosso olhar crítico e apontarmos nosso dedo em riste para nós mesmos, e nos questionarmos até onde vai a nossa liberdade e a do outro.

Um espetáculo enxuto sob a batuta do diretor Luiz Fernando Marques, o “Lubi”, cuja criatividade multifacetada sempre nos surpreende positivamente e o seu elenco de jovens e talentosos artistas que discorrem livres de “senões”  pela palavra afiada e seus perigos de causar males irreversíveis.

Sim! O abismo está mais próximo do que imaginamos.

Flertamos com ele todo o tempo.

E insistimos em ignorar  suas profundezas.

E assim, lá se foi o tal dia dos Pais, e me lembrei de uma prática adotada pelo meu, que sempre me dizia :

– “Não podemos nunca dormir sem verbalizarmos nossos sentimentos em relação aos impasses.Chegar a um acordo, não é  concordar em tudo. Senão vira câncer.

“Boralá” prestigiar a galerinha talentosa?

 

Serviço: A PALAVRA E O ABISMO

Direção: Luiz Fernando Marques Lubi

19 de Agosto (sábado) às 16h
20 de Agosto (domingo) às 16h

Classificação: Livre

Artistas:
Alexandre Quintas, Ayiosha Avellar, Carlin Franco, Carlitos Tostes, Carol Kern, Eduardo Pires, Fernanda Stein, Joana Pegorari, Larissa Morais, Leticia Tavares, Luiz Rodrigues, Priscila Jácomo, Mariana Cordeiro Serra, Mariel Fernandes e Tatiana Vinhais

Co-orientação: Paulo Arcuri

FICHA TÉCNICA

Produção: Maria Carolina Dressler e Vanessa Candela
Assistência de Produção na Mostra: Gabi Costa
Fotos, Vídeos, Mídias Sociais e Programação Visual: Jonatas Marques
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli
Técnico do espaço: Luciano Morgado
Assistência Técnica: Roberto Oliveira

SOBRE O GRUPO XIX DE TEATRO

Desde 2001 o Grupo XIX de Teatro vem desenvolvendo uma pesquisa autoral que deu origem aos espetáculos Hysteria, Hygiene, Arrufos, Marcha para Zenturo (em parceria com o Grupo Espanca), Nada aconteceu, tudo acontece e tudo está acontecendo, Estrada do Sul (em parceria com o Teatro Dell’Argine) e Teorema 21. A exploração de espaços não-convencionais, a criação colaborativa e a relação direta com o público nas encenações são elementos constitutivos dessa trajetória. Todos os espetáculos seguem em repertório até hoje tendo sido apresentados em quase uma centena de cidades pelo Brasil e cinco países do mundo com as encenações realizadas em inglês, italiano e francês.

Imagem: divulgação

2 comentários para “Dia dos Pais entre a palavra e o abismo”

  1. Maria Aparecida Costa Brandão Galveas

    Excelente, vivemos numa sociedade do espetáculo ,as pessoas não dialogam, as lacunas emocionais só crescem . Quero ser gente de verdade.

  2. Maria Aparecida Costa Brandão Galveas

    Excelente, nossa quero assistir. Vivemos numa sociedade do espetáculo , oonde o diálogo sumiu .quero ser gente de verdade!

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