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"NEGRO: POETA DE ESQUINA"
Meia-noite no gueto, tem um preto parado na esquina.
— Deve ser ladrão ou vendedor de cocaína. – se perguntam os tripulantes da barca são-paulina que se aproxima para abordá-lo, interrogá-lo e espancá-lo. Não necessariamente nessa ordem, é claro.
O homem permanece inerte. Ainda assim, recebe um soco no rosto, que é dado com gosto, enquanto um segundo soldado, de um posto maior, desfere-lhe um chute. Não há quem não escute, naquela noite, o açoite moderno.
Mas só quem vê é o azul eterno, celeste noturno... cacetete, coturno; cacetete, coturno!
Por um momento, cessam então o linchamento, e ordenam:
— Fala, negro, não me enrola, o que faz na rua a essa hora?
— Venho aqui para fazer poesia. Sou poeta da lua, por isso troco a noite pelo dia. E tão triste é quem nela se inspira, apaixona-se, tornando-a sua lira. Mas, apesar dessa paixão que no peito tranca, não pode com a mão tocar a bola branca. Invejo os astronautas. Eu, poeta, aqui tão distante, e eles, meros militares, lá em cima, nos braços da minha amante. Sou poeta da rua. Nesse caminho estreito, aprendi a andar, a cair, a levantar, a ter respeito... Mas nunca temer! Isso, senhores, é o que eu tenho a lhes dizer. Agora espero que me deixem continuar olhando o céu, pois negro já nasce poeta, mas também já nasce réu.
Ah, mas negro poeta... Isso é afronta, é passar demais da conta!
Meia-noite no gueto. Tem um preto morto na esquina. Os olhos abertos, o corpo ferido. O céu todo refletido no centro da retina. Não era ladrão, nem vendedor de cocaína. Era simplesmente um poeta, sem escola, sem berço... Um poeta de esquina.
Leia agora a entrevista do autor para o Jornalirismo:
O POETA DA ESQUINA
POR GUILHERME AZEVEDO
Ele tem um jeito muito humilde, simples de ser. E é também um verdadeiro cavalheiro, daqueles à boa moda antiga, de galanteios ternos e divertidos às damas, de palavras que brotam no ar como flores. "Você enfeitou hoje o lugar", disse, para a morena bonita que passava. A moça corou, como as moças de antigamente.
Esse élan, essa disposição, o escritor mantém, apesar dos percalços do seu caminho lírico, difícil como aqueles que enfrentava de moto, como motoboy, a entregar encomendas pelas ruas da cidade de São Paulo.
Seu nome é Sérgio Luis Oliveira Mesiano, o Serginho Poeta. Vamos até a ele.
Jornalirismo – Vamos começar do começo. Quando e onde você nasceu?
Serginho Poeta – Eu nasci numa manjedoura, aí veio uma estrela cadente assim por cima... (risos). Eu sou de São Paulo, capital. Tenho 36 anos.
Jornalirismo – Gostaria de saber como a literatura entrou na sua vida.
Serginho Poeta – Meu caso é atípico. Quando o Zeca Pagodinho estourou em 1986, eu comprei um disco dele e não tinha onde ouvir. Então ficava lendo as letras e comecei a gostar muito. A gente costuma considerar Álvares de Azevedo, Castro Alves... Mas acho que Cartola, esses caras do samba têm a mesma importância. Ver as letras deles me incentivou a escrever poesia. Depois comecei a me interessar por poetas também. Gostei muito do Ferreira Gullar e do Castro Alves.
Jornalirismo – O que atraiu você nesses dois escritores?
Serginho Poeta – O contexto social, a questão do negro. Do Ferreira Gullar, eu gostei porque ele falava muito da Ditadura, e meu pai foi do Partido Comunista, foi preso. Me tocou bastante. Outro cara que eu sempre falo que me incentivou foi o Mano Brown (do grupo Racionais MCs). Acho perfeito.
Jornalirismo – Você desenvolveu algum processo de criação?
Serginho Poeta – Geralmente é de noite, quando estou em casa. Tenho insônia para caramba. Meu metabolismo é ao contrário: eu só tenho sono de dia. Mas não tem lugar, de repente eu estou vendo alguma coisa e acontece. Às vezes eu tento escrever e não consigo, às vezes acontece por acaso. Não tem ritual nenhum. Como dizia o Drummond (Carlos Drummond de Andrade, poeta), é mais transpiração do que inspiração.
Jornalirismo – Essa sua sensibilidade com a questão social, com a situação do negro, veio de onde?
Serginho Poeta – Até uns 10 anos, eu morei mais na Bela Vista, na Vila Mariana (bairros mais centrais da capital paulista), morava de aluguel. Aí meu pai comprou uma casa na periferia.
Jornalirismo – Periferia onde?
Serginho Poeta – Parque Santo Antônio, perto do Capão Redondo (zona sul de São Paulo). Parece brincadeira, mas uns 20 anos atrás eu era um dos poucos brancos que tinha ali. Aí eu conheci a cultura negra de perto, o pessoal que fazia o samba nos botecos. Dizem que o Brasil não é racista, mas o Brasil é racista para caramba. Tenho muitos amigos negros e numa geral da polícia, por exemplo, o tratamento sempre foi bem diferente.
Eu arrumava emprego, um amigo meu, negro, que tinha mais cacife, não arrumava. Às vezes a gente disputando a mesma vaga.
Jornalirismo – Isso provocou uma revolta em você?
Serginho Poeta – É, porque você tem uma amizade com o cara, e o cara passa por isso. Você se sensibiliza, não tem como, parece que é com você. Tem branco que fala assim: "Eu sou negão também". Eu não, eu sou branco. Meus amigos são negros e me sensibiliza ver isso.
Jornalirismo – A questão do negro parece não ter mudado muito no Brasil desde Castro Alves.
Serginho Poeta – É uma mentira dizer que o branco pobre também é negro.
O preto pobre sofre muito mais do que o branco pobre. Alguns negros tiveram ascensão social, mas geralmente o negro fica rico quando é artista ou jogador de futebol. Ele tem que ser o palhaço do circo.
Jornalirismo – O que a literatura representa na sua vida, essa coisa de escrever, de poder transmitir para o outro essa sensibilidade?
Serginho Poeta – A literatura é um dos melhores instrumentos de transformação, é a base de tudo. Quero trabalhar com jovens da periferia. E uma oficina de poesia não tem custo nenhum, precisa de uma caneta e de um papel, é uma coisa tão simples de fazer. A literatura, para mim, é também um anestésico. A literatura me fortalece, em cima disso que vou guiando minha vida.
Jornalirismo – Qual é o seu sonho? Eu sei que você quer lançar um livro, mas o que mais?
Serginho Poeta – Meu sonho é meio utópico. Queria que a literatura revolucionasse todas as coisas erradas que têm na classe mais desfavorecida.
Os artistas têm um compromisso muito grande com os jovens, porque tem duas coisas que os jovens admiram: o criminoso e o artista. São os dois caras que desafiam o sistema. De criminoso está cheio, está faltando artista.
Jornalirismo – Você, como exemplo, pode transformar outras pessoas.
Serginho Poeta – Eu sou limitado, mas um monte de gente tem veia literária. E, de repente, você ajuda a desenvolver um cara que vai ser muito mais do que eu, vai ser um Castro Alves.
Eu quero dar a minha contribuição para que o cara veja que pode fazer literatura também. Que ele veja: "Se o cara é motoboy e pode fazer, por que eu não posso?".
Jornalirismo – Gostaria que você falasse um pouco sobre o poema "Negro: Poeta de Esquina". Como você o escreveu?
Serginho Poeta – Foi num dia em que o Magno (músico do Quinteto em Preto e Branco, de samba, nascido na Comunidade do Samba da Vela, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo) me pediu um poema sobre a Semana da Consciência Negra. Então me lembrei daquele rapaz que foi assassinado na favela Naval (o conferente Mário José Josino, morto pela polícia em março de 1997 na favela Naval, em Diadema, SP). Eu tinha aquela imagem na minha cabeça e vinha tentando escrever alguma coisa. Quando o Magno falou, a primeira coisa que me veio à cabeça foi aquilo. Então escrevi, e o cara, que eu saiba, não era poeta, mas eu fiz como uma metáfora.
Jornalirismo – Fez num dia só?
Serginho Poeta – Foi, de uma vez só, numa madrugada.
Jornalirismo – O que você poderia recomendar para o cara que está começando a escrever?Serginho Poeta – Em primeiro lugar,
tem que escrever porque está sentindo, não pode falar uma coisa que não está sentindo. Senão, não vai tocar ninguém.
Em segundo lugar, nunca tenha pretensão de escrever para ganhar dinheiro. Até porque nunca ouvi falar de poeta rico. Não precisa fazer o que todo o mundo faz. Até pode fazer, mas tem que ser uma coisa que você queira. A literatura é um caminho para isso, ali é lindo, você pode criar o mundo que quiser.
Jornalirismo – Você falou aquilo do criminoso e do artista, e você é um soldado, mas um soldado da paz. E a sua luta é pela literatura, para mudar através dela.
Serginho Poeta – Tem uma frase do Che (Che Guevara):
"Um homem não é ninguém, ele é parte de alguma coisa".
Eu quero ser parte de alguma coisa. Sei que eu, sozinho, não vou fazer nada.
É preciso criar um elo entre todos os projetos, sem vaidades, sem dizer "Eu estou à frente".
Jornalirismo – Queria falar um pouco da questão da ternura. Noto em você uma força da doçura e isso me faz lembrar do poeta Manuel Bandeira (1886-1968). De resistir a esse mundo perverso pela ternura.
Serginho Poeta – Meu pai me falava muito sobre luta armada. Acho muito difícil a gente tomar o que é nosso, por direito, sem a classe dominante reagir. Nessa hora, então, fica difícil de você ter uma questão pacífica. Mas você tem sempre que buscar um caminho pela paz. Eu sempre acreditei mais na questão da cultura.
Primeiro, você tem que dar cultura para o povo, para que ele saiba cobrar saúde, educação.
Tem cara que não acredita nisso, que tem que pegar em arma. Eu não sei atirar, não tenho coragem de matar ninguém. Fiz uns versos que dizem assim (ele declama):"Guerrilha CulturalQuero tomar os latifúndios mentais que a desinformação cultiva/ Quero plantar conhecimento em toda mente produtiva/ Quero colher resultados em forma de arte e educação/ Minha guerrilha é cultural, viva a revolução." É mais ou menos isso o que eu penso.
que a gente possa inverter a situação para que em breve tenhamos menos
bandidos e mais artistas.
Parabéns!
"Guilhermes"!
Parabéns!
Dora
O poema é
maaaaaaraaaaviiiiilhooooooso e a entrevista, como sempre, inteligente e
sensível também.
Parabéns
Marlene
do negro. Parabéns, poeta.
Não é fácil conjugar humildade e força, como você o
faz. Emocionei-me duas vezes: com a beleza de sua poesia e ao lembrar aquela
morte mais que absurda.
Gostei da pegada, do ritmo e da
liberdade
que esse poema transporta.
Muito legal.
adorei o poema, bom mesmo.
a entrevista foi
danada, vc
mandou muuto bem! representô!!!
pela periferia.
Abraços;
Paulinho
