1.001 noites (de cárcere)

 

 

Há mais de 1.000 dias o soldado norte-americano Bradley Manning está encarcerado sem julgamento nos Estados Unidos. Desde a sua prisão, em 26 de maio de 2010 no Iraque, pela divulgação de documentos secretos do Pentágono sobre operações no Iraque e no Afeganistão, Manning não passou um dia sequer fora de uma cela, com direito a atenção especial. Pela importância de sua ação, o jovem de 25 anos recebe um tratamento exclusivo, com forte rigidez do governo Barack Obama.

 

No final de fevereiro, ativistas em mais de 70 cidades pelo mundo protestaram contra a prisão arbitrária e fora das normas legais e outras manifestações vêm surgindo aqui e ali. Manning passou 11 meses em confinamento solitário, na base de Quantico, na Virginia. A medida só foi aliviada após o advogado e jornalistas denunciarem os abusos contra o jovem. O relator especial da ONU para atos de tortura, Juan Méndez, disse que Manning era obrigado a ficar nu, sem óculos, sofrendo humilhação e privação de sono. Além disso, a lei militar dos Estados Unidos garante que um acusado detido seja levado a julgamento em até 120 dias. O dele, com muito atraso, está previsto para 3 de junho.

 

Bradley Manning era analista de serviços de informações no Iraque e foi preso ao entregar documentos sobre as operações militares no país e no Afeganistão e mais de 250 mil documentos diplomáticos. Bradley tentou, sem sucesso, contatar importantes jornais norte-americanos, como o The New York Times e o Washington Post. Claro que, naquele momento, esses importantes veículos de informação não queriam enfrentar o governo mais poderoso do mundo. Assim, Manning busca alternativas e conhece um exótico australiano de cabelos grisalhos: Julian Assange e seu Wikileaks, plataforma que quebrou paradigmas na comunicação.

 

O jovem se declarou culpado de 10 das 22 acusações – recusou a denúncia de “ajudar o inimigo”. Para ele, seu objetivo era mostrar o que estava acontecendo nas ocupações e como o governo dos Estados Unidos era responsável por sérios crimes de guerra. No vídeo “Collateral Murder”, divulgado pelo Wikileaks, é possível ver soldados atirando deliberadamente em jornalistas e crianças e, macabramente, rindo ao final de tudo. Ao notar as crianças feridas, um soldado solta a frase: “Ninguém manda trazer seus filhos para a batalha”. Estranho, já que os iraquianos não são os invasores.

 

 



Materiais de campanha pró-libertação de Bradley

 

 

Para repensar a guerra

É essa ilusão de heroísmo que Manning quis desmistificar com o vazamento dos documentos. Em suas palavras, ele queria “iniciar um debate sobre o papel do exército e da política externa em geral” e “levar a sociedade a reavaliar a necessidade e mesmo o desejo de atuar em operações de contraterrorismo e contrainsurgência que ignoram seu efeito nas pessoas que vivem naqueles ambientes todos os dias”. Ele, inclusive, denuncia a prisão abusiva de cidadãos iraquianos inocentes.

 

Manning ainda diz que se negou a vender os documentos para governos estrangeiros e que não causou danos à segurança nacional. Ele queria tornar o debate público e distante das ilusões da benevolência da guerra. O jovem assume ter agido por vontade própria e sem pressão. A acusação quer apresentar provas de como membros da Al-Qaeda tiveram acesso aos vazamentos do Wikileaks. É importante lembrar que toda a equipe do site fez uma minuciosa pesquisa, deletando quaisquer informações ou nomes de pessoas que poderiam sofrer retaliações.

 

Muitos combatentes norte-americanos retornaram e denunciaram os horrores e a inutilidade da ocupação, como é o caso dos participantes da ONG Veteranos contra a Guerra. Outros já voltaram orgulhosos, geralmente são os heróis patriotas que possuem o imaginário inflado pela cultura bélica dos Estados Unidos. Por fim, outros nem tiveram a oportunidade de retornar e perderam a vida por motivos ainda não tão claros – ou bem claros, mas dolorosos de acreditar.

 

Manning está entre os soldados que retornaram mas de uma maneira diferente: voltou preso. O jovem quis denunciar os crimes de guerra e as claras infrações da Convenção de Genebra (base do Direito Internacional Humanitário, que protege os civis, as pessoas que não participam de conflitos armados) cometidas pelo seu país no Iraque e no Afeganistão. Manning quebrou barreiras – nunca um soldado do Exército norte-americano havia sido tão ousado e corajoso ao vazar milhares de documentos secretos do Pentágono.

 

E assim o Wikileaks ganha notoriedade e causa um polêmico debate sobre transparência, informação e práticas jornalísticas. Cria pautas nos principais jornais do mundo, torna-se distribuidor de notícias e uma arma de ciberativistas. Estabelece um novo padrão de jornalismo e comunicação.

 

Antes de receber atenção mundial, o Wikileaks já era reconhecido e recebia importantes prêmios. Em 2008, o site ganhou o New Media Award da revista The Economist. A Anistia Internacional o condecorou com o Media Award em 2009, quando revelou um relatório da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Quênia. Mas foi com os documentos do governo norte-americano que o Wikileaks tornou-se mundialmente conhecido e começou a sofrer retaliações.

 

Sem transparência pública

A perseguição a Julian Assange (asilado desde 19 de junho de 2012 na Embaixada do Equador em Londres, sem dela poder sair, a fim de evitar a extradição para a Suécia, onde querem interrogá-lo sobre supostos crimes sexuais) e a prisão arbitrária de Bradley Manning indicam que a transparência de ações públicas ainda está longe de ser fundamentada e estabelecida. A liberdade de expressão também é cerceada em governos ditos democráticos. Por que os vazamentos são mais importantes do que o conteúdo das informações? Por que as provas irrefutáveis de guerras desastrosas e infrações não são reavaliadas e publicamente discutidas?

 

A liberdade de expressão também não é garantia da verdade. Quantos veículos questionaram a existência de armas de destruição de massa no Iraque? Quantos veículos questionaram a presença de Osama bin Laden no Afeganistão? Quantos veículos refletiram sobre as ações militares com drones (os letais veículos aéreos não tripulados ou remotamente pilotados) no Paquistão? Embora os jornais tenham usado e abusado das informações reveladas pelo Wikileaks, é sabido que a imprensa tem o seu papel ideológico e os compromissos financeiros – não é raro que muitas reportagens não estejam alinhadas com a verdade.

 

Sendo assim, o Wikileaks torna-se uma fortaleza radical da transparência – que se não é perfeita, é necessária. O engodo da democracia é percebido não apenas com as desigualdades sociais mas também quando é notado que o governo mente, esconde, manipula. E isso é importante para gerar reflexões entre os cidadãos. Se os governos são representantes do povo, a quem a soberania teoricamente pertence, é obrigação que todas as ações, investimentos e políticas sejam anunciados e debatidos no espaço público.

 

Por fim, o objetivo sempre foi e será o da conscientização – e da libertação pela informação. Talvez seja isso que Manning queria. E o motivo da criação do Wikileaks. O jovem soldado torna-se símbolo de uma luta contra a desumanização e o esquecimento de vítimas consideradas “efeitos colaterais”.

 

*Natássia Massote é jornalista.

 

Para saber mais:

O site Bradleymanning.org reúne informações sobre o processo contra Bradley Manning e formas de apoiar sua libertação. Veja aqui.

O vídeo “Collateral Murder”, que revela o ataque de helicóptero contra civis em Bagdá, em julho de 2007, pode ser visto clicando aqui.

 

 

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