O “Papo de Copa” se despede.
Na Espanha, hay fiesta. Que chegou até a unir bascos, catalães e espanhóis num só coração. Depois da vitória, a bandeira da Catalunha também tremulou no gramado, nos braços de Puyol e de Xavi.
E tem livro de jornalista e economista dizendo que o fim da hegemonia do Brasil no futebol já se consolida. O fato é que a gente quer votar para presidente da CBF!
Wellington Ramalhoso, 13 de julho, 0h25
Hermano,
O espírito Felipe Melo é um daqueles que encarna e não quer largar de jeito nenhum. Na final da Copa, ele voltou a aparecer. Encarnou sob um manto laranja, que ousadia! Nunca na história das Copas, os holandeses foram tão violentos e desleais. Começaram a partida aplicando todo tipo de golpe. O árbitro britânico fez vistas grossas até para solada no peito de espanhol. A gente quis ter boa vontade com esta Copa, até o futebol espanhol com seu pífio ataque foi chamado de artístico, mas na decisão senti novamente aquele terrível gosto de cerveja quente descendo pela goela a cada lance bisonho. Arghhh... o futebol das Copas é coisa para polvo mesmo.
Competições esportivas entre nações estimulam patriotadas e também expõem as entranhas dos países. A Espanha é um país dividido. País Basco, Catalunha, Galícia... são nações historicamente reprimidas pelo poder castelhano representado por Madri. Catalães e bascos estão mais preocupados com a autonomia de suas regiões do que com os destinos da seleção espanhola. O futebol, curiosamente, passou, especialmente durante a longa ditadura de Francisco Franco, a servir de canal político e de expressão para as nações oprimidas. Os bascos uniram-se em torno do Athletic Bilbao; os catalães, em torno do Barcelona.
Com uma boa geração de jogadores, a Espanha foi campeã europeia em 2008 e agora arremata a Copa. Mas as conquistas não cicatrizam as feridas históricas. A equipe campeã do mundo tem o Barcelona como base. Depois de fazer o gol da classificação espanhola diante dos alemães nas semifinais, o zagueiro Puyol, capitão do Barça, parecia contrariado e ao mesmo tempo desafiador ao cumprimentar, coberto somente com uma toalha, a rainha Sofia no vestiário do estádio sul-africano. Confira a cena:
O avanço da Espanha na Copa coincidiu com protestos catalães frente a uma decisão da Justiça que restringe a autonomia da região. Diante da situação, o La Vanguardia, principal jornal da Catalunha, achou uma saída paradoxal: cravou em manchete que a seleção que passara à final da Copa era a SeleBarça. No sábado, os catalães fizeram passeata contra a Justiça espanhola. No domingo, foram às ruas para acompanhar a exibição da final da Copa em telões, fato raro em Barcelona. Como não se entusiasmar com a Espanha se dessa vez a Espanha ia tão bem e era tão catalã?
Em campo, após a vitória e a entrega da Copa ao goleiro e capitão Casillas, Puyol e o meio-campista Xavi surgiram correndo no gramado desfraldando uma bandeira da Catalunha. O símbolo catalão era ali beijado por Puyol em cena transmitida para todo o mundo. No dia seguinte, em Madri, sede do poder contra o qual se batem os catalães, os campeões foram recebidos por uma multidão que gritava “yo soy español”. Sim, o futebol fez madrilenhos e catalães, galegos e bascos vibrarem pela Espanha. Será este título um golpe contra o nacionalismo catalão e basco? Tendo a pensar que não. A conquista esportiva pode ser doce, mas o sabor logo se vai. Catalães e bascos continuarão dizendo que são catalães e bascos, seguirão buscando autonomia e rejeitando a Espanha. Veremos como estarão em 2014!
Grande abraço, meu amigo!
Guilherme Azevedo, 13 de julho de 2010, 20h25
Olá, hermano.
Viva a SeleBarça, muito legal isso que escreveu sobre as questões políticas e nacionais da Espanha! Lá, eles chamam de pulpo, o Paul, hehehe.
Mais uma Copa que se foi. E tudo que passa, irremediavelmente, deixa sempre saudade em mim. Até do que foi ruim.
Mas achei merecida a vitória da Espanha. A equipe de Iniesta e Xavi e Villa toca a bola com uma destreza louvável, envolve, embora não saiba muito bem o que fazer com a pelota quando chega perto do gol. Ainda não nasceu um Ronaldo Nazário espanhol. Nem basco. Nem catalão.
Do Brasil, hermano, ficou, para mim, uma triste imagem: a da pisada do truculento e destemperado Felipe Melo em Robben, da Holanda. Um desfecho já anunciado por muita gente.
Hoje li resenha sobre o livro Soccernomics, de autoria do jornalista esportivo Simon Kuper, do Financial Times, e do economista Stefan Szymanski, da Cass Business School de Londres.
Segundo a resenha do jornalista Edson Pinto de Almeida, publicada no jornal Valor Econômico, países periféricos do futebol ameaçariam a hegemonia do nosso Brasil no esporte bretão. A Espanha é citada nominalmente.
Os economistas trabalham sobre fatos e dados concretos e, já faz muito tempo, o futebol espanhol é dos mais organizados e bem remunerados do mundo. Organização a longo prazo desempata o placar.
Será, hermano, que já não temos mais o melhor futebol do mundo? Ou, como dizem os autores de Soccernomics, atingimos nosso teto de performance? Não acho improvável. A nossa CBF, Confederação Brasileira de Futebol, reconhecidamente coloca a grana em primeiro lugar, às favas com a organização e o planejamento. Nosso futebol, como em todas as outras esferas da vida nacional, desperdiça talentos.
Pois, quando o futebol se globaliza e se homogeniza, os detalhes fazem ainda mais diferença nos resultados.
Aliás, sinceramente, hermano, deveria haver eleição direta para presidente da CBF, dado o status de Estado dado ao futebol por aqui. Aliás, também deveria haver eleições diretas para presidente de todas as federações estaduais de futebol. Eu quero votar para presidente da CBF.
A próxima Copa será aqui, sessenta e quatro anos depois de nossa primeira e única experiência como anfitriões, em 1950. Quero ver investimento sério no esporte, com profissionalismo. E com absoluta transparência. Em Angola, onde trabalhei no COCAN 2010, o comitê organizador da Copa Africana de Nações, a maior competição esportiva do continente africano, o critério político muitas vezes se sobrepôs ao critério técnico. E muitos problemas surgiram por causa disso. Eriçam-me os pelos quando lembro que é Ricardo Teixeira a figura central do processo de organização e realização do Mundial. Também me assusta ouvir o Lula dizer que está tudo pronto para o Brasil receber o maior evento do planeta. Claro que não está. Há problemas de infraestrutura graves, como transporte e segurança. Mas é possível organizar um grande Mundial.
A próxima Copa, e a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, também será uma grande oportunidade para o nosso jornalismo esportivo desapegar de paixões e avançar, com senso crítico e melhores salários, em todas as mídias. Também poderá ser a chance de outros esportes, sempre tão esquecidos, ganharem o destaque merecido. Nos próximos anos, assunto para um repórter esportivo não vai faltar. E a gente precisa saber o que está acontecendo.
Também deixo a sugestão para os grandes anunciantes: exigir ética e transparência das entidades e mídias que vai apoiar. Marcas, hoje, também precisam de espírito crítico na hora de anunciar. O país, ele é construído por todos nós.
Hermano, obrigado pela companhia virtual, foi um prazer. E ao leitor que nos acompanhou, obrigado pela paciência. Um abraço de oito braços em todos vocês.
