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Como sempre, as redações do meu curso de inglês me fazem recordar um passado tão remoto quanto os vestidos da Hebe. Hoje, ao pegar a folha de redação, me deparei com meu primeiro dia na escola.

O que escrever? Os anos, rápidos e imperdoáveis, apagaram o poder de comprovação das minhas lembranças. Será mesmo verdade o meu choro naquele primeiro dia? É verdadeiro o meu pânico ao sentir que entraria num outro mundo se ultrapassasse aquele portão azul?

Sei que eu era menor que um anão. Não, as coisas que eram gigantescas, enormes, desproporcionais aos meus sonhos e dedos pequeninos. Minha maior preocupação, na época, era guiar o Mário Bros por mundos escondidos nas estrelas.

Cheguei à escola e encarei o portão com o medo se derramando pelos olhos. Onde estaria a minha mãe para enxugar o meu desespero? Em seu lugar apareceu uma moça gorda, que disse ser minha professora. Ela se chamava Mirian, mas seu nome deveria ser Gentileza. A Mirian me mostrou como o mundo era pequeno, pois, afinal, ele cabia inteirinho dentro de um mapa.

Minha primeira professora também me ensinou o tamanho das palavras. Com elas, eu poderia transformar uma minhoca numa guerra nuclear, uma frase em uma revolução, um sentimento numa letra de música. As pequenas palavras são as mais importantes, dizia ela, pois carregam dentro delas coisas gigantescas e inexplicáveis: “céu”, “amor”, “dor”, “deus”.

O meu primeiro dia na escola foi o do meu primeiro amor. Me apaixonei pela Amanda assim que a vi. Era magrinha, com cabelos longos e despenteados. Em um ano, acho que nos falamos umas três vezes. O amor é indescritível mesmo na infância e, por mais que eu cresça, ainda não aprendi sua gramática.

Fiz várias amizades no primeiro dia. Tirando o Luciano, acho que nenhuma sobreviveu às brigas do futebol. Brigávamos como adultos, pois o Júnior não era um bom goleiro, o Michel perdia todos os gols e eu, infelizmente, era um péssimo árbitro. Contrariando as expectativas, nenhum de nós disputou uma Copa do Mundo.

Quando o sinal bateu marcando o final do dia, percebi que era um início de uma vida. O segundo dia dura até hoje.

 

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Comentários
Lindo!
Camila Caringe | 13/08/2010 |  
De uma sensibilidade ímpar. Lindo texto.
Concordo,lindo!
Talita | 30/08/2010
Achei justa sua briga no futebol... aqueles caras pareciam bem ruins, conforme
vc descreveu!
E que bom que a dona "Gentileza" surgiu em seu caminho,
vc demonstra que aprendeu muita coisa boa com ela. Então, escreva sempre!!!
É você mesmo?
Laís | 01/09/2010
Lenadro Machado, companheiro de curso no Senac de Jornalismo Literário, é
você mesmo?

Ótimo texto, colocou no blog.... de vez em quando dou uma
passada por lá!

Muito sucesso
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jornalirismo: Olá, boa sexta! Já se sentiu um peixe fora d´água? Então vai se identificar com a crônica líquida de Shellah Avellar: http://t.co/a6sXpoKD
3 day(s) ago from web

jornalirismo: E um quadrinho filosófico à Rainha do Mar: Olha a onda, olha a onda! http://t.co/WKgt8Fd8
3 day(s) ago from web

jornalirismo: @LiliFerrer Lili, que legal. Só de saber que nosso pôster te fez feliz a gente ganhou o dia. Beijão, muita sorte para ti.
3 day(s) ago from web

jornalirismo: Olá. "A mudança começa quando você sabe o que deve mudar dentro de você", diz Ana Paula Guedes. E não é mesmo? http://t.co/hKm3sXpf
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