Jornalirismo

Atenção, abrir em uma nova janela. E-mail

 

Se tivesse de escolher uma cena para sintetizar a minha vida, escolheria a do almoço de hoje.

Eu vinha como sempre, meio furtivo, meio esquivo, um tanto coxo, olhando para todo lado, mas sempre capaz de simpatia, pela calçada de piso irregular. Dado o negrume do céu, a chuva era iminente. Não me apressei, contudo. Apenas pedi, em silêncio, àquela criatura que a gente quer que exista bem na hora do aperto, mais uns dez minutos de tolerância. Não atendidos, por sinal.

Nunca tive medo da chuva. Com exceção, talvez, da tempestade de outro dia, da surra de granizo bem no lombo, no meio de uma montanha, a dois mil metros de altura. Na verdade, sempre amei a chuva, desde pequenininho.

Ela era uma obrigação até aprazível, nos caminhos ao ar livre íngremes, ardilosos e movediços que levavam às salas de aula da Escola Mutirão. Aliás, salas de aula que não tinham nem porta nem janela, pareciam até música do Vinicius; e quando chovia, chovia mesmo dentro, inclusive, muito. Nunca quis guarda-chuva, não; seria um trambolhão de carregar, e eu sempre fui muito atrapalhado e avoado. Deixaria, e deixei, certamente alguns por aí.

Era divertido jogar futebol no campo de terra do Mutirão durante e depois da chuva, uma imprevidência escorregadia dos diabos. Voltávamos todos, eu, Wlad, Maurinho, Pavão, Cecê, Thiaguinho, Alberto, Márcio, Álvaro, com os fundilhos cheios de lama. Cada tombo... Tenho saudade da chuva no Mutirão, tenho saudade do Mutirão, que já não existe mais. Tiraram até a placa onde se lia o nome da escola, pintado à mão em laranja, eu vi neste fim de semana, ficou um buraco na armação do lugar. Havia, pois sim, outra placa na entrada da propriedade, de um coelho que vendia tudo. E, por coincidência, chovia, chovia muito, e o mato que subia pelo muro era muito, e muito alto, também. Era triste o que restara do Mutirão, tudo vazio, o terreiro, as salas de aula, sem algazarra, sem hinos, “de manhã ao sair para a escola, lá se vai o estudante feliz...”, que a gente bem corrigia para “infeliz”, sem o detestado uniforme laranja, vergonha de toda a molecada, sem o sempre odiado e evitado almoço macrobiótico, de beterrabas e outras bizarrices, sem ninguém, ninguém, debaixo da chuva. Onde estava o Zé Carlos e sua inextricável matemática? A diretora Ana Maria? O Homero, nosso pai da história? O Chicão da educação física e sua ordem sempre unida? O motorista Heitor que comprava picolés para a gente? A Karla, minha primeira paixão, segurando a minha mão na brincadeira de roda? Estariam todos escondidos atrás das árvores, dos matos? Todos molhados?

E a chuva veio, forte, grossa, no almoço de hoje. Não era quente, não era fria. Não acariciava, não fustigava. Foi apenas estímulo a apertar um pouco o passo, confiante em que fosse breve. E, enquanto ia paulatinamente me molhando, me dei conta de que sorria. De que não sorria: gargalhava sob a forte chuva. Lá ia eu, entre apressados operários da construção de capacetes coloridos, a serviço dos opulentos prédios que estão subindo cada vez mais alto por aqui, andando rapidamente e gargalhando.

Imaginei a cena sendo retratada por um fotógrafo. Eu, e meu largo sorriso em close, o rosto todo lavado pela água, os olhos molhados, como chorasse, o ralo e já grisalho cabelo encharcado e despenteado, a calva refletindo as nuvens negras do céu, em movimento, com o fundo desfocado. Vira a exposição de Steve McCurry, ícone do fotojornalismo, e conhecera sua predileção por dias cinza, obnubilados. Para ele, nesses dias de luz tênue, é possível controlar melhor as cores. E disso, realmente, ele entende.

Eu ia gargalhando pela rua, sob a chuva. E era exatamente isso que importava: eu atravessava a chuva sorridentemente.

 

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Comentários
Smiling in The Rain
Shellah Avellar | 25/01/2012 |  
Que delícia de texto!Já tava com saudades deste malemolejo literário,em
tempos de chuva,suor e cerveja.A chuva tem isso.Principalmente as de
Verão...apesar dos paus ,pedras e fins de caminhos para alguns, há quem veja
em seu despencar ,um descarrego do velho, e o despertar de novas idéias,
projetos e amores..há os que Dançam na Chuva,como o gene Kelly ,os índios e
os que amam a vida do jeitinho que ela é...às vezes ensolarada, às vezes
chuvosa...mas há que botar o pé no caminho.Bjkas kósmikas!
Obrigado
Guilherme | 30/01/2012 |  
Shellah, obrigado, querida. Esquecemos de citar também um dos grandes poetas da
chuva, o finado Vicente Matheus e seu célebre verso: "Quem está na chuva
é pra se queimar". Beijão.
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