Jornalirismo

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Sempre é difícil escolher sobre o que escrever. São tantas coisas, assuntos, visões, opiniões e preconceitos, mas que, irremediavelmente, sempre acabam em um caminho: o fim. Pronto, achei. Um assunto perfeito para ser tratado, dado o atual clima do dia, nublado, frio, chove sem parar (inclusive agora, aqui, enquanto dedilho este texto). Vamos lá.

A morte, ou fim irremediável, é um assunto que sempre nos assusta. O que notei ontem, entretanto, foi o modo como muitas pessoas – em especial, os jovens – lidam com ela, e isso, sim, me assustou. Ontem, conversando com uma amiga chamada A. por um dos vários aplicativos feitos para que possamos traçar um diálogo, com quem quer que seja, sem sair de casa, e, muitas vezes, sem nem conhecer a pessoa, ela diz (quero dizer, escreve):

“estou um pouco tirste

“uma amoga

“amiga (corrige o que havia escrito)

“faleceu”

Pergunto se ela havia morrido no mesmo dia, já que estava tão chateada com o ocorrido:

“n tem algusn meses

“q ela n acessava o Orkut

“e eu fui procurar

“e soube isso

Pronto! Esse foi o momento do assombro. No decorrer da conversa, ela escreve que soube do falecimento da “amiga” – coloco assim, entre aspas, porque elas nunca haviam tido contato senão pelas conversas do tal aplicativo – através de um recado (scrap) de luto lido no mural do perfil, na web. Através dele, ela adicionou o perfil de uma “amiga-da-amiga”, que confirmou a notícia. Para A., o recado foi dado tarde.

O meu estarrecimento não é por ela, e por toda uma geração, ter amigos através desses aplicativos, mas pelo fato de ela achar que a amiga ainda estava viva em seu avatar eletrônico meses depois de seu falecimento no mundo real. Há quanto tempo as duas não conversavam? E quando ela realmente deu por falta da amiga?

Quem lê se pergunta: “Por que A. não ligou?”. Bom, ela não tinha o telefone dela. Não deviam ter intimidade para isso – ou não achavam necessário, já que se comunicavam apenas pelos seus computadores, e isso bastava. Eu me pergunto: como deve ser estar vivo e morto ao mesmo tempo? Vivo em seu perfil nas redes sociais e morto na vida real? Nem Cristo soube como é! Teve de viver para morrer, e reviver. Fez uma coisa de cada vez. Não havia internet naquela época, creio eu.

Quantas pessoas não devem estar “descansando em paz”, com seus “perfis-zumbis” zanzando pela internet sem eira nem beira? Quantas pessoas, sem saber que o amigo ou conhecido bateu as botas, devem ter resmungado para si e para o mundo: “Nossa, que antipático fulano é! Nem respondeu meu recado”. É, nem respondeu, nem responderá, minha gente!

A garota era jovem, devia ter 20 e poucos anos. Filha da “Geração Y”, ou seria “Z”? Ou, recomeçando o alfabeto, da possível nova “Geração A”? As coisas andam tão rápidas, tão supérfluas, tão lacônicas, que nem sei em qual geração estamos. A vida se tornou assim, e as amizades, ou o que chamam de amizade, também.

A tecnologia é a resposta que temos para a morte. Afastá-la, expurgá-la, o mais longe possível de nós. Tentamos, em vão, estender a vida – por meio de remédios, exercícios, nanotecnologia e clonagem –, ao invés de compreender e aceitar a morte.

Essa geração da rapidez está em meio a tantas coisas legais, e breves, como sexo e amores; bebedeiras e aventuras; mil meninos, mil meninas, ou ambos; trabalho e estresse; tudo isso, e muito mais, também rápido e breve, que não temos o tempo necessário para pensar e refletir sobre o irremediável fim.

Vamos saber de sua existência quando ele bater na nossa porta, ou espiar pela nossa janela. Achamos que vamos dobrá-lo na esquina, despistá-lo, mas caímos com sua rasteira. Uma hora, qualquer hora, ele vem. O fim.

Acho que a tecnologia – além de instruir – ilude as crianças e jovens; com tantas coisas legais para se fazer em vida – de conversar com mil pessoas, e, também, ser mil pessoas –, que a morte se torna uma tarefa difícil. Muito mais difícil. Para todos nós. Amém!

 

*Victor Bin é... vivo, primeiramente, e estudante de jornalismo na Universidade São Judas Tadeu.

 

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