25 anos de exílio

 

Dona Maria,

Minha correspondência é para lembrar que já faz 25 anos que o Henfil come junto da senhora os seus biscoitos de farinha com os manos Betinho e Chico Mário. Sei que agora cada biscoito é mais gostoso porque é mastigado enquanto um irmão olha no olho do outro.

Sei que a Elis canta “O Bêbado e a Equilibrista” na varanda da casa de vocês – em algum paraíso cercado de montanhas feito Minas Gerais. Sei que vocês estão felizes, mas já são mais de duas décadas de exílio e gente como a senhora e seus filhos fazem falta demais.

O Brasil caminha e só para atualizá-la temos uma mulher na Presidência da República. Se é bom? Ainda não comi biscoito de farinha, olhando profundamente nos olhos dela.

Avise o Betinho que sua campanha continua, mas ainda tem o Brasil do caviar e o outro, desdentado e faminto. O Brasil do caviar posa de sexta economia mundial e o outro continua com os pés no atoleiro do terceiro mundo. É tudo uma questão de números.

Avise o Henfil e o Dom Paulo Evaristo Arns que deu praga do Egito em Brasília – por lá cada gafanhoto é um corrupto em sobrevoo feito ave de mau agouro sobre o dinheiro público. Eta, bichinho nojento, Dona Maria.

Não precisa ficar preocupada porque o alemão e o primo citados nas cartas do Henfil já estão no… no… no… infer… campo de batalha. Rê, rê, rê! Hoje a gente fala e o político “democrata” só responde via imprensa – ou melhor, responde a imprensa.

Ninguém consegue uma audiência com uma autoridade – seja em que nível for… Cambada de gafanhotos! Que bobagem, a minha. Gafanhoto não fala.

E para terminar peço que convide o jornalista Ivan Lessa para provar seus biscoitos. Diga-lhe que sua máxima ainda é muito atual: “A cada quinze anos, o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos”.

A maioria das pessoas ainda pensa pelo estômago – falta biscoito de farinha e dignidade. Dê um abraço na Dona Zilda Arns e diga que as crianças sobreviveram.

Já são duas horas da manhã, Dona Maria. Só resta dizer que, por aqui, a gente sente saudade do Henfil e, como diz a letra da canção, “de tanta gente que partiu…”

Já são duas horas da manhã e 25 anos de exílio, Dona Maria.

*Henfil, cartunista e escritor que ousou satirizar a Ditadura Militar (1964-1985), escrevendo, entre outros textos, cartas a sua mãe, Dona Maria, publicadas nos jornais, morreu no dia 4 de janeiro de 1988, há 25 anos. Desde agosto de 2010, Sílvio Valentin Liorbano, escritor e professor de português da rede pública de São Paulo, vem escrevendo cartas ao cartunista, informando o de lá sobre coisas que vão mal por aqui.

Ouça outra vez, aqui, “O Bêbado e a Equilibrista”, com Elis:

https://www.youtube.com/watch?v=6kVBqefGcf4

 

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