A antítese do herói

“As aventuras do herói se passam fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além.” (Joseph Campbell)

A peça Galileu Galilei, em cartaz no Tuca, em São Paulo, tem notoriamente um toque feminino.

Presente na dramaturgia de Christine Röhrig, Cibele Forjaz, Maristela Chelala e Denise Fraga.

Presente também na atuação de Denise, que encarna o astrônomo, e em seus pares de longa data: Ary França, Rodrigo Pandolfo, Lúcia Romano, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luís Mármora, Silvio Restiffe e Théo Werneck.

Presente ainda na direção artística de Cibele Forjaz e nos figurinos de Marina Reis.

É uma montagem leve e delicada, que descaracteriza a pujança máscula do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e a esvanece em pinceladas de tons pastel. A propósito, o texto que origina o espetáculo é A Vida de Galileu, escrito por Brecht na segunda metade dos anos de 1930.

Como num bordado a várias mãos, muito bem cuidado, vai tecendo a trama, num ritmo próprio e atemporal. Perpassa no início os arroubos pueris de Andre (Rodrigo Pandolfo), discípulo de Galileu Galilei. E vai ganhando cores e tons mais vibrantes até a sua maturidade.

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Denise Fraga vive Galileu. Montagem preservou o princípio de “divertir para comunicar”, presente na obra de Bertolt Brecht

 

O figurino primoroso bebe na fonte da Renascença e também em outras fontes, até os dias de hoje, ora identificando épocas, ora as desfigurando. Utiliza-se de transparências, linhos e cotelês com aplicações plásticas.

Este ton sur ton flerta com o design gráfico e pontua a luz de Wagner Antônio, que contribui para a criação de climas e espacialização, valorizando a ótica estudada por Galileu e as situações cênicas mais ou menos vigorosas.

A cenografia de Márcio Medina opta por formas circulares, sugerindo uma transposição para o espaço sideral, de onde ocorrem as indagações e observações do astrônomo.

A trilha sonora de Lincoln Antônio e Théo Werneck cria novas canções e reinventa Hanns Eisler.

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Peça recoloca questões éticas e humanitárias: Ciência por quem? Como? Para quem?

 

Intervenções, com alusão ao Carnaval veneziano e ao Carnaval brasileiro, perpassam máscaras e também introduzem marchinhas, que deságuam em nossa realidade muito sutilmente.

O lúdico alinhava o espetáculo e culmina numa interação com o público, soltando a Terra como um balão à Slava Polunin (o russo considerado o melhor palhaço do mundo).

Se em A Alma Boa de Setsuan, também de Brecht, a questão principal era, “Como ser bom e ao mesmo tempo sobreviver no mundo competitivo?”, em Galileu, ela extrapola os limites do individual e provoca, “Infeliz do povo que ainda precisa de heróis”.

Confira e reflita!

GALILEU GALILEI, O GÊNIO

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Galileu Galilei, físico, matemático, astrônomo e filósofo. Nascido na cidade de Pisa, Itália, em 1564. Personalidade fundamental na revolução científica do geocentrismo (a Terra como centro) para o heliocentrismo (o Sol como centro). No século XVII, desenvolveu um telescópio superior aos existentes e com ele demonstrou a assertividade da teoria heliocêntrica do Sistema Solar, desenvolvida por Nicolau Copérnico.

Galileu começa então a propagar esta ideia, apesar de contrária aos dogmas da Igreja Católica. Entretanto, este cientista genial, movido por uma nova verdade, esbarra na negação da obviedade dos fatos. Vem a morrer no ano de 1642, nas cercanias de Florença.

 

GALILEU GALILEI, UM SOBREVIVENTE

Bertolt-Brecht

A peça A Vida de Galileu (no original em alemão, Leben des Galilei), base da encenação com Denise Fraga no papel do astrônomo, foi escrita por Bertolt Brecht (1898-1956) nos anos de 1937 e 1938 e, portanto, durante o domínio nazista na Alemanha.

O espetáculo prima pela ironia que transpassa as características de Galileu Galilei e o apresenta como “um sobrevivente”. Brecht nos faz reconhecer, por meio de suas metáforas, que o intelectual do século XX continuava sendo interrogado. O dramaturgo despe Galileu Galilei, desconstruindo verdades e criticando o poder dominante.

A análise deste contexto nos traz indagações sobre a situação “aqui e agora”, e nos alerta sobre o papel da ciência e como ela tem evoluído através dos tempos.

Brecht revive um Galileu que se coloca à frente dos problemas de se produzir ciência e conhecimento de maneira emancipada. Revive também incertezas de um intelectual na esfera do medo de ser inquirido e punido, como algo que se inclina contra a autoridade.

Galileu é mesmo o único a acolher seu próprio discurso e lhe faz eco. A seus discípulos e, em especial, a Andre, revela sua verdadeira medida. Tem opiniões boas demais sobre si mesmo e jamais duvidou de que sua boa sorte fosse merecida. Mas a vaidade de ser acolhido pela Igreja o embriaga. Ela o mantém subserviente nas águas negras da passividade e o engorda perversamente num encarceramento dourado.

 

SERVIÇO PEÇA GALILEU GALILEI

Onde: Teatro Tuca (rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes, Zona Oeste de São Paulo, tel.: 11 3670 8455)

Quando: Sextas-feiras e sábados, às 21h; domingos, às 19h. Até 30 de agosto (estreou em 15 de maio)

Ingressos: Sextas-feiras, R$ 50,00 (inteiro); sábados e domingos, R$ 70,00 (inteiro)

Duração: 140 minutos

 

FICHA TÉCNICA PEÇA GALILEU GALILEI

Direção Artística: Cibele Forjaz

Adaptação/Dramaturgia: Christine Röhrig, Cibele Forjaz, Maristela Chelala e Denise Fraga

Elenco: Denise Fraga, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Lúcia Romano, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luís Mármora, Silvio Restiffe e Théo Werneck

Cenografia: Márcio Medina

Trilha Sonora: Lincoln Antônio e Théo Werneck

Iluminação: Wagner Antonio

Figurino: Marina Reis

Visage: Simone Batata

Preparação Corporal e Coreografia: Lu Favoretto

Preparação Vocal: Andrea Drigo

Assistente de Direção: Artur Abe e Ivan Andrade

Programação Visual: Philippe Marks

Vídeos: Chico Gomes, Paulo Mosca, Bossa Nova Films

Produção Executiva: Lili Almeida

Direção de Produção: José Maria

Realização: NIA Teatro

 

Fotos da peça Galileu Galilei: João Caldas/Divulgação

Tela de Galileu Galilei: Justus Sustermans (cerca de 1640)

Foto de Bertolt Brecht: Jörg Kolbe/Arquivo Federal Alemão (1954)

 

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