A aventura da arte

“Apesar de tudo, segundo Aristóteles, ‘a arte é útil do ponto de vista medicinal por despertar e purgar as emoções perigosas’” Susan Sontag

Acompanhei, como espectadora, o início do processo criativo da turma F16 (Formação 16 de Atores), da ELT (Escola Livre de Teatro), em Santo André (região do ABC paulista), ainda claudicando em seus primeiros passos na busca por uma linguagem teatral que justificasse sua trajetória de três anos rumo ao grand finale.

E hoje me surpreendo e me extasio diante do espetáculo maduro a que tive oportunidade de assistir. Chama-se APORIA 23S 46O. Nem submissão vulgar, nem vontade insubmissa, a distância entre a coisa dada e o que lhe é devolvido é simultaneamente a estampa da fecundidade.

Logo na entrada, nos sentimos à margem, e iniciamos nosso itinerário de peregrinos, em caminhos tortuosos na busca desesperada por pistas; entretanto, tudo nos conduz para lá, para o Castelo de Franz Kafka (o texto se inspira no célebre texto do autor), ou seu Inconsciente, deixando para trás a Vila, a Praça, ou nosso suposto Consciente.

A obsessão da curiosidade nos obriga a farejar este roteiro, quando nos descobrimos na sua própria arena, que se afunda e se metamorfoseia, como num formigueiro à espera de suas presas no fundo da cavidade.

Embora lá longe o desejar seja a loucura, o enigma não é a submissão à repetição, embora ela seja tratada sabiamente. E o espetáculo não nos dará respostas para nossas indagações humanas perante um mundo de ruídos silenciosos. Porque não há como se revoltar contra a indiferença, que nos torna completamente disponíveis ao status quo.

As personagens desfilam os tormentos de sua morte interna num cerimonial hostil à realidade demente, e desmentem-se todo o tempo. Num ritual fantasmagórico, recriam uma comunidade que não identifica o lugar, mas prova sua resistência. Assim como num museu, onde descansam obras do passado, tornadas mitos, tão incompreensíveis como as civilizações que depositam suas pegadas no planeta.

Sim, o espetáculo vai de encontro ao Estado, numa crítica à sua burocracia engessada, e às incertezas geradas pela urbanização desenfreada. Mostra a vida que é subtraída de seu contexto histórico, revelando a ordinária putrescência a que estamos condenados.

A importância da luz que dialoga todo o tempo com onomatopeias dissonantes abruptas e um trabalho coletivo de corpo em uníssono trazem uma síndrome maníaca, que, entretanto, se subverte em maravilha. Uma imprecisa conjuntura assume a verdade do gesto artístico. A vida singular, que deixa o tempo correr, transforma um mero fato em acontecimento, quando os miseráveis nos confins dos limites se insurgem contra sua efervescência mórbida.

Extraindo a comicidade da simplicidade, resgatam o filósofo Henri Bergson, estudioso do cômico e do riso, e nos proporcionam deliciosos momentos de uma zombaria sutil dos axiomas da nossa vulgaridade.

Identificamos a utilização de vários recursos teatrais, como máscara neutra, commedia dell´arte, kenpo, vocalização, musicalização, jogos textuais e corporais. Uma aventura a que se aplicam os meios de estilo e ela resulta poema sem prosa. Ora tímido, ora brutal, o espetáculo tem seu trunfo na imprevisibilidade. Ganha sua força na ausência de protagonismo, em que o coletivo assume a confusão de formas numa fixidez de eternidade.

Sim! A ELT forma, (de)forma e (trans)forma artistas. E isso é feito com uma virulência perturbadora, que faz borbulhar na penumbra uma força desconhecida que emerge num esforço de se adequar a este mundo que ataca os nervos da vida que escorre em meio às suas próprias teias. E nos permite não nos deixar ajoelhar diante do correr das coisas que tentam nos levar para a fossa do comum.

Imperdível.

 

Afinal, o que é ser artista? Por Adriano Milan. Assista.

O que é ser artista? from Adriano Milan on Vimeo.

 

A perplexidade diante das perguntas mais urgentes

Jovens atores vivem “APORIA” dentro e também fora dos palcos
Jovens atores vivem “APORIA” dentro e também fora dos palcos

 

Os Aprendizes da F16 testemunharam a conturbada relação política com a Prefeitura de Santo André (região do ABC paulista), em 2013, quando aprendizes e artistas ocuparam a Secretaria de Cultura do município, exigindo que a escola se mantivesse dentro de seu projeto original. O teatro em reforma refletia (reflete) a vivência deles na ELT, quando a deterioração do espaço gritava em todos os processos de criação. A montagem da peça APORIA representa uma nova etapa para eles e também para a escola, que, este ano, completa 25 anos de (r)existência.

A equipe de mestres e artistas que orientou o processo, emocionada, relata que esta peça se tornou um registro vivo de despedida e de esperança. Não fosse a teimosia de fazer acontecer, não fossem todos os viciados no risco (no riso), este trabalho não teria nem sequer nascido. Partiram do romance O Castelo, de Franz Kafka, contemplando a multiplicidade de línguas que o povoam. Tomaram partido da dissonância, na tentativa de verem com os olhos do outro, para cometerem as mesmas barbaridades.

Para todos, aprendizes e mestres, se aporia é, como diz a noção da filosofia, “a impossibilidade de se chegar a uma resposta objetiva a partir de uma determinada indagação”, é desta impossibilidade também que se extrai a perspectiva do movimento, e se extrai ainda, contraditoriamente, a possibilidade do novo e o alcance da utopia. Bravo!

 

Os mestres

Vinicius Torres Machado, de 32 anos, bacharel em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo, vem de uma família de artistas e músicos. Mestre da ELT e da Faculdade Célia Helena. É o diretor-geral de APORIA, cuja dramaturgia dividiu com Marina Tranjan e Thiago Antunes. E, com este último, também a direção cênica. Thiago Antunes, além de mestre da ELT, é integrante da Cia Nova Dança, e foi responsável pelo excelente trabalho corporal de APORIA. A direção musical é de Gregory Slivar, formado pela Unicamp. É de Eliseu Weide, artista plástico com especialização no Berlim Ensemble, a direção de arte, cenografia e figurinos.

Ao iniciar o processo, Vinicius baseou-se no exemplo de Ernest Henry Shackleton, explorador polar britânico, cujas qualidades de liderança chamaram a atenção no início do século XXI, principalmente devido ao sucesso obtido nas operações de salvamento da Expedição Transantártica Imperial (1914-17), cujas características mais marcantes foram assegurar o cuidado e atenção com o bem-estar de todos os seus homens, apesar das adversidades.

Segundo o diretor, foram tentando colocar as cenas numa ordem, sem sequência alguma, como num happening, inspirados na colagem teatral preconizada pela escritora, crítica de arte e diretora Susan Sontag. “Para mim, o artista é aquele que cria e se recria. Ele não faz só uma obra. Mesmo como espectador, não consigo estar fora. A sensação de totalidade que o espetáculo tem é que ele é maior que nós e, no entanto, sou eu integral, comendo, regurgitando e insone. APORIA é uma entidade criada que precisa ser cuidada”, sugere Vinicius.

E naturalmente assistida, digerida e aplaudida.

 

Serviço

APORIA 23S 46O (peça do terceiro ano da turma Formação 16, da Escola Livre de Teatro de Santo André)

Onde: Teatro Conchita de Moraes – Escola Livre de Teatro de Santo André (Praça Rui Barbosa, 12, Santa Terezinha, Santo André, SP, próximo à estação Prefeito Saladino, da CPTM)

Quando: Sábados e domingos, às 20h30 (até 31 de maio)

Quanto: Entrada gratuita (ingressos distribuídos 30 minutos antes do espetáculo)

Informações: (11) 4990-4474

Blog: www.escolalivredeteatro.blogspot.com

 

Ficha Técnica

Aprendizes/Elenco: Adriano Milan, Ailton Barros, André Cantuário, Andressa Ferreira, Antonio Salles, Ayiosha Avellar, Filipe Santos, Giuliana Lavorato, Julio Lorosh, Kako Arancibia, Karen Lenz, Laís Loesch, Linn Santos, Michael Souza, Renata Santos, Thiago Felix, Vinícius Vilas Boas, Wesley Salatiel

Aprendiz/Assistência de produção: Vanessa Lemes

Direção geral: Vinicius Torres Machado

Direção cênica: Thiago Antunes (até 1ª etapa) e Vinicius Torres Machado

Direção musical: Gregory Slivar

Dramaturgia: Marina Tranjan, Thiago Antunes e Vinicius Torres Machado

Professor de ginástica: Thiago Antunes

Direção de arte e cenografia: Eliseu Weide

Assistência de direção: Pedro Stempniewski

Experimentação vocal: Natália Nery

Assistência de direção de arte: João Pedro Uvo e Thiago Audrá Vesecky

Cenotecnia: Flavia Ribeiro de Oliveira, Jessica Rodrigues, Leon Henrico Geraldi e Mantú Novaes

Iluminação: Ailton Barros, Gilda Genofre, John Halles, Leonardo Carvalho e Vinicius Torres Machado

Operação de luz: Gilda Genofre, John Halles, Leonardo Carvalho

Registro e edição de vídeo: Adriano Milan

Design gráfico: Kako Arancibia

Produção: Formação 16

 

Videodocumentário: Adriano Milan

Fotos: Divulgação

 

4 comentários para “A aventura da arte”

  1. Kil Abreu

    Talentos grandes, teatro grande
    A maneira hiperbólica, quase sempre deslocada, como uma parte dos que assistimos Aporia reagiu à apresentação no FETO nos diz já muito sobre o belo trabalho dos meninos e meninas da Escola Livre de Teatro de Santo André. Muito sobre muitas coisas. Seria preciso um seminário para confrontar nossas impressões (nem sempre alinhadas no juízo de gosto, como é esperado diante de um espetáculo assim). Não são poucas as sugestões e temas e os desdobramentos de tantas ordens que o espetáculo provoca: a poética e suas instâncias construtivas, a estética em conexão umbilical com a política (o que é o belo “em contexto”? O que é a urgência da vida?, são perguntas primeiras), a pedagógica (que processos formativos se mobilizaram pra que se chegasse a resultado tão animadoramente complexo?), a existencial (o que é o ofício e o que é a energia vital mobilizada em favor dele?). Muitas portas chamando e então o difícil é totalizar isso tudo em uma síntese minimamente satisfatória. Então deixaremos o difícil de lado e faremos algumas notas sobre aspectos que nos parecem mais salientes.
    O espetáculo, ainda que se enraíze primeiro em circunstâncias determinadas – as formas massacrantes como, no campo disso a que chamamos Política, são tratados os atos de sobrevivência cultural – ilumina um entorno amplo porque o trabalho não é só sobre os lances de uma promessa de reforma, transmudada em narrativa kafkiana, de um espaço público, de uma escola e de um teatro. Trata-se precisamente do cozinhar lento das experiências humanas de exceção. Trata-se desses seres fora da ordem que muitos somos , confinados nos cada vez mais estreitos territórios da resistência poética, nestes lugares precariamente permitidos em que acontecem os movimentos de uma pulsação vital que se recusa a caber na época. É de dentro, pois, destas “ilhas de desordem”, como diria o Celso Frateschi, aqui simbolicamente representadas pela ELT, de que falamos. E isto talvez ofereça o contorno do espaço amplo dessa espécie de ecologia ameaçada, que inclui o teatro (não todo o teatro, a parte rebelde dele), mas não só. Inclui a operação dos perversos processos eletivos que vivemos dia a dia na periferia do capitalismo e suas formas instauradas, quase sempre violentas, de sociabilidade.
    Mesmo diante desse quadro cheio de boas razões, que em um primeiro momento já justificariam o trabalho do pessoal de Santo André, o mais belo e o mais notável no espetáculo, entretanto, é que apesar das circunstâncias ele não se deixa aprisionar ao lugar da vítima impotente, de quem em geral sentimos piedade. Ao contrário, sem prejuízo a estas demandas de base que são parte do universo de pensamento que se mobiliza na forma da montagem, é a própria ação empenhada sobre/no corpo do teatro – articulado em ossatura, nervos, carne, sangue, pensamento e pulsação – o que nos desloca e o que motiva a nossa empatia e interesse.
    Sem concessão a naturalismos de nenhuma ordem o espetáculo se faz como uma espécie de coreografia nonsense bem orientada nas linhas de fuga do espaço, em composições atorais firmes, máscaras originais e bem demarcadas, uma ambientação (em luz e cenografia) que instaura sem vacilos certo imaginário muito favorável à evolução dos acontecimentos e, sobretudo, um contorno figural, erguido em uma gestualidade de composição rigorosa do elenco, que cria os tempos e ritmos da cena como se se tratasse também de uma composição musical viva, com seus andamentos bem estudados, escritos “em ato” na dinâmica bem alinhavada dos atores pelo espaço.
    Toda essa estranha geometria funciona a favor, primeiro, daquela afirmação das questões de fundo em trilhas inventadas no próprio corpo aberto do teatro. É quando temas e forma se aproximam ao ponto do amalgamamento e de uma maneira que um só pode ser visto a partir do outro. E esse ser novo, que só pode ser compreendido e sentido nessa ordem própria que é a da criação poética, ainda que seja filho certamente de um embate radical e em princípio, talvez, entre termos inconciliáveis (é o que a idéia de ‘aporia’ nos diz’), esse organismo peculiar de alguma maneira vai sendo tecido diante dos nossos olhos e se ergue, ao final, com uma unidade surpreendente, fruto do que para o povo da ELT, parece, era uma situação limite aparentemente intransponível, mas que também era, no mesmo movimento, o único lugar possível onde se poderia sobreviver.
    É, pois, a própria situação em que se demarca, naquela guerra real, mas também no enfrentamento com a linguagem, o lugar de exceção da Escola , que muitos de nós podemos nos reconhecer, nas nossas próprias circunstâncias – íntimas, sociais. É quando, reveladoramente, o espetáculo nos informa que apesar de nem sempre nos vermos ali, no fundo temos a mesma história.
    Os alunos e mestres da Escola Livre devem se orgulhar não só por terem criado uma jóia teatral em circunstâncias adversas. Mas, também por colocar em moldura um algo tão renegado a segundo plano na época da forma-mercadoria: a arte, a vida, não apenas como o que observamos imediatamente no aqui agora (um espetáculo, por exemplo), mas como o resultado, assim como o devir, de todo o seu processo. Ao assimilar uma coisa à outra através de uma obra tão inteligentemente, formalmente bela, e com os meios de uma aventura radical no coração do teatro, é como se estas Aporias nos dissessem também isto. Não é pouco

  2. Hélio Toste

    APORIA 23ºS 46ºO
    Uma aula para todo estudante de Teatro, um espetáculo para o Humano.
    Escola Livre de Teatro em máxima potência!

    Para F16:
    Espaço redimensionado,
    um misto de carinho e estranhamento, tanta energia e história, conhecidas e desconhecidas, principalmente
    desconhecidas
    uma sensação de que algo seria brotado ali
    naquele espaço, naquele tempo
    com aquelas pessoas, rumo ao desconhecido porém familiar
    do ator,
    do humano.
    Corpos entregues, tempos dilatados, agradável e desesperador de assistir, risos misturados com silêncios sufocantes,
    salto no abismo,
    confiança gerada para me entregar ao escuro de vocês
    nosso
    uma luz irá surgir, para novamente
    apagar
    escuta afinada, jogos estabelecidos, indivíduos que não se anulam, personalidades distintas, um CORO potente
    processo rigorosamente legítimo onde toda a trajetória da turma está implícita na obra, um espaço construído e ocupado por vocês, cada milímetro apropriado, livre para desconstruir e construir uma arte nossa e existente residindo e resistindo em todo nós.
    Obrigado, EVOÉ!

  3. Ruy Cortez

    Atenção programadores e curadores da capital paulistana, estado, país. Ontem fui assistir a um belo e potente trabalho na Escola Livre de Teatro, "APORIA 23ºS 46ºO" com direção do Vinicius Torres Machado. É uma obra estudantil com a potência teatral ampliada, sua força anárquica, poética, extrapola categorias amadoras, profissionais e se configura no além e nos limites delas, como um verdadeiro acontecimento teatral. O espetáculo toma como de partida "O Castelo" de Franz Kafka e deságua no absurdo real em que se transformou o contexto teatral de tantos artistas, espaços e teatros, ameaçados que estão por tantos podres e vorazes poderes, como o da especulação imobiliária, só pra ficar num exemplo atualíssimo. Além de uma criação dramatúrgica, encenação e trabalho de um verdadeiro coletivo de atores, a peça extravasa outras qualidades e pertinências, como a de uma linguagem apoiada em técnicas muito esquecidas nos palcos da cidade. Assistindo ao espetáculo não pude deixar de me remeter aos meados dos anos 80, início de 90, quando víamos obras filhas da comedia dell’arte, do clown, da bufonaria, de toda uma tradição teatral filha da máscara, em contágio com outras teatralidades, o teatro físico, a dança, o teatro do absurdo, de Genet a Kantor, com sua violência político-poética. Uma viagem lucidamente alucinógena, vigorosa, embrenhada da força desses jovens atores e artistas que parecem insistir na arte como um veiculo. Hoje, rememorando o trabalho, não pude conter o desejo de que essa obra circule, ganhe outros espaços e públicos, celebrando sem reverências inúteis os 25 anos dessa instituição ameaçada, que sim, é um dos mais importantes centros de formação teatral do pais. E também não pude deixar de me lembrar de Grotowski e de sua imagem do que deveria ser o teatro – um lugar afastado, abandonado e em ruínas, habitado por aqueles que se colocam à margem, pura e simplesmente para ver, sentir e falar com uma esquizofrênica lucidez.

    Viva a Escola Livre de Teatro! Que venham muitos anos de arte e labor e que muitas gerações de jovens artistas ainda possam desabrochar nos duros asfaltos das nossas cidades.

    http://escolalivredeteatro.blogspot.com.br/…/aporia-23s-46o…

    Ruy CORTEZ

    Professor da Escola de Teatro Wolf Maya

    Diretor Artístico Pedagógico do Centro Internacional de Teatro ECUM

    Diretor Artístico da CIA Da MEMÒRIA

    Estudou Direção Teatral na MXAT Faculade de Teatro de Moscou

  4. Vinicius Torres Machado

    Achei ótimo! Uma escrita poética muito linda. Sem querer explicar a peça mas fazendo um poema que se coloca ao lado dela.Fiquei muito feliz.Obrigado!

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