A capela, a mendiga e a fé

 

“Cite três coisas que você admira.” Foi esse um dos questionamentos com que me deparei na ficha de inscrição de um processo seletivo online. Aquilo ficou matutando em minha mente, porque geralmente elencamos pessoas que amamos ou por quem temos uma admiração, ou um temor. Manjado, talvez. Fiquei, no momento, sem saber o que escrever.

 

Na manhã seguinte, em pleno Dia de Todos os Santos (1º de novembro), decidi saldar uma dívida que tinha com São Miguel Paulista, o bairro onde vivo em São Paulo: fui à Capela de São Miguel Arcanjo, um dos primeiros bens tombados pelo Patrimônio Histórico, em 1938, sob a supervisão de Mário de Andrade, e construída pelos jesuítas, em 1622.

 

O lugar é aberto a visitação aos sábados e fica na praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, mas ninguém a chama por esse pomposo nome. É conhecida mesmo por Praça do Forró, porque, antes da reforma da capela e dos arredores, entre 2006 e 2011, havia um palco concretado para apresentação de grupos da região, predominantemente de baianos, pernambucanos, paraibanos e por aí vai. Inclusive, há uma avenida chamada Nordestina e, como só poderia ser, a família que tenho é alicerçada por nordestinos.

 

A entrada fica nos fundos, cercada de palmeiras que, reza a lenda, simbolizam os índios Guaianases que viviam ali. Totens, portas, janelas e outros elementos da igrejinha contam com entalhes e figuras andinas, ou seja, pode ser que índios vindos do Peru também tenham habitado São Miguel Paulista.

 

 

A Capela de São Miguel Arcanjo. Simplicidade e dignidade

 

 

Antes de entrar na administração do local, vi nas escadarias uma senhora grisalha, devia ter uns 60 anos, bem magra e com uma sacola avermelhada nas mãos. Pedia esmolas a quem se dirigia à estação da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, sem sucesso. De repente, o jato d’água do caminhão de uma empresa de limpeza urbana golpeou-a e ela saiu correndo para não cair das escadas.

 

Entrei, então, na administração da capela, paguei a entrada (quatro reais, mas deixei cinco), ouvi as orientações, como não fotografar a parte interna e não mexer nas imagens sacras, assinei o livro de visitantes, com nome completo e RG. Era a primeira do dia.

 

Segui para o pátio cercado, em meio aos banquinhos de madeira, e adentrei o altar central, um misto de singeleza e beleza. Lá moram um São Miguel Arcanjo, uma Nossa Senhora e um São Francisco – referindo-se aos franciscanos que, em meados do século XVIII, passaram a cuidar da capela, após a saída – forçada – dos jesuítas. Essas são imagens mais recentes, pois as originais, com origem entre os séculos XVII e XIX, ficam em outra parte da capela, protegidas por vidros após o restauro.

 

Naquele altar rezei e, entre pedidos, que se estendiam àquela moradora de rua vista instantes atrás, e agradecimentos, clamei para que chovesse nem que fosse por meia horinha. Estava tão concentrada que não percebi a segunda visitante, ajoelhada ao meu lado. Quando abri os olhos, ei-la rezando de mãos juntas.

 

Segui então para o circuito da igreja, passando por espaços que explicam a construção de taipas, as telhas “feitas nas coxas”, pinturas e histórias do bairro, que chegou a ter mais de um milhão de habitantes (hoje está em torno de 380 mil). Interessante observar aquele oásis de conhecimento cravado numa praça vazia, com poucas barraquinhas de artesanato, e a criançada brincando de bola no entorno, desviando dos moradores de rua e das pessoas apressadas em busca do trem.

 

Saí de lá pensativa e refletindo sobre a frase do questionário que mencionei. Se for para pensar em apenas três coisas que admiro, poderia colocar a mendiga, que precisa seguir em frente mesmo com as intempéries da vida, a fé que dá força nas adversidades e aquela capelinha, que, mesmo simples e independentemente do credo, ilustra a história de um povo. Três sobreviventes entre o tempo e o espaço.

 

E naquela tarde de sábado, para o meu contentamento, choveu um pouco mais de meia horinha.

 

 

Serviço:

Capela de São Miguel Arcanjo

Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, 10, fundos, São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo. Saiba mais no site dela, clicando aqui.

 

Foto: Keli Vasconcelos

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