A cor e a estampa

 

Dia desses, cá estava eu diante da tela do caixa eletrônico, em um banco na avenida Marechal Tito, São Miguel Paulista, extremo leste da cidade de São Paulo, pagando contas e sacando alguns trocados, recebidos do último trabalho como freelancer. Em seguida, iria a uma perfumaria pertencente a um conglomerado de empresas de cosméticos, do outro lado da referida avenida.

Lembro de que o prédio ficou abandonado por muitos anos, após ter sido abrigo de diversos estabelecimentos, de agência de automóveis a “residência” de moradores de rua. Engraçadas são as extremidades no teto, com umas bolas grandes de concreto, hoje tingidas de vermelho vivo, mesmo com os respingos de poluição cinza.

Entre corredores, demonstradoras, prateleiras com secadores de cabelo, esmaltes, batons, shampoos, produtos de toucador e outras coisinhas hedonistas para cabeleireiros e mulherada empetecada, fui comprar três tubos de tintura – para a minha mãe, já que sou alérgica e confesso ter orgulho de meus parcos, porém belos, brancos, que brotam desta pobre e calejada cabeça de pensamentos, anseios e, evidentemente, sonhos – e um pacote de lixas de unhas.

A fila dos caixas, contudo, estava enorme.O que para uns é a chance de passar nervoso e perder tempo, para mim é a oportunidade de observar as pessoas. Como diria uma amiga, é hora de “visualizar a vida”.

Pois bem, à minha frente estava uma senhora que trajava blusa de mangas compridas pretas e a saia, da mesma cor, bem mais comprida, se arrastava no chão. Como eu estava ao lado da prateleira dos aparelhos de barbear descartáveis, de supetão, peguei um par:

― Por que você não leva este modelo aqui? – questionou a mulher, me mostrando um aparelho mais anatômico, de plástico rosa, mas que custava três vezes mais do que este que segurava em minha mão esquerda. Era bem simples, de material preto com vermelho e alguns tons azulados. Masculino, na visão dela.

― Nossa, está um tanto caro esse, senhora! – respondi.

― Ah, mas compensa mais, além de ser mais feminino – ela retrucou, sendo interrompida pelo “próximo” gritado pela operadora de caixa.

Minutos depois, dirigi-me para o caixa de número cinco. Fui atendida por uma moça com seus 26, 27 anos, parda, cabelos presos, meticulosamente arrumados em um rabo de cavalo e enfeitados com alguns prendedores vermelhos, que combinavam com a camisa polo do uniforme.

Após eu chegar com um“bom-dia” e receber como resposta um “CPF na nota?”, percebi que ela usava uma sombra clara e delineador negro, que deixava seus olhos castanhos bem profundos.

― Nossa, a estampa da sua blusa é bem bonita – ela me falou e, em seguida, soltou um brado para a companheira do lado. ― Sueeeeeeeeeellen, é essa a estampa que tinha falado. Meu, não é linda?

A amiga acenou positivamente, mas não se estendeu. Afinal, precisava passar o cartão de crédito da cliente apressada, que levava potes e mais potes de cremes reconstrutores de fios com óleo de argan.

― Obrigada, é étnica – eu disse, meio sem graça.

(Confesso a você que lê estas linhas que aprecio muito estampas, principalmente as que lembram vestimentas africanas. Também as florais e as que imitam pele de onça, animal print para os “fashionistas”. Sou espalhafatosa, em suma. Perdoe a fraqueza. E a franqueza.)

― Moça, fui no shopping ontem e vi um monte de vestidos com essa estampa que chama de étnica. Para mim, é um monte de cor, de figura – ela me contou.

― Não tem coragem de usar esse tipo de estampa? – desafiei.

― Ah, não sei… Não gosto de muita flor, muita cor, de vestido… Deu cinquenta e oito reais e noventa centavos, moça!

― Mas por que não gosta de vestido? Acho que compensa ter pelo menos um, além de ser… feminino – incentivei, meio ao estilo da senhora de preto com o aparelho de barbear rosado.

― É, acho que vou começar com uma blusinha assim igual à sua. Depois pego um vestido. Quando eu perceber, estou usando étnico! – sorriu, enquanto me dava a sacola plástica, que recusei, com a compra.

Coloquei tudo na ecobag que sempre carrego comigo, agradeci e segui meu rumo, pensando naquela jovem. Na espontaneidade de observar a estampa da blusa, de questionar-se sobre as cores, as formas, as nuanças.

Se ela vai usar ou não, sei lá! Só cheguei à conclusão de que gosto, em especial neste mundo cinza preenchido de contradições coloridas, não se discute. Se vivencia.

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