A descoberta da América do Sul – episódio 2

Queridos,

Tudo bem com vocês? Por aqui está ótimo! La Paz é uma cidade que merece ser visitada. É engraçado: é feia e bonita ao mesmo tempo. Ela fica em um vale. O centro fica na parte mais baixa, e ela vai crescendo nas encostas desse vale. A maior parte das casas não tem acabamento, tá no tijolo. Justamente por essa geografia, há quem compare a cidade com as favelas brasileiras, sobretudo as cariocas, o que eu entendo, embora não concorde.

Estou no centro da cidade e há muitos albergues e agências de turismo na região porque há muitos turistas. Muitos! Pra onde se olha, se vê um gringo. Eu mesmo, quando passo em alguma vitrine espelhada, me espanto!!! Eu tenho muita cara de gringo aqui!!!

Também hay cholas por todos os lugares. Todos! As cholas são aquelas bolivianas típicas, que andam com aqueles xales ultracoloridos nas costas e usam um tipo de cartola.

Esta é a capital mais alta do mundo e sinto um pouco de falta de ar por causa dessa altitude. Se você está num ambiente que não seja muito ventilado, já começa a perceber isso. E andando pelas ruas, então, muito mais! Se você está subindo uma das ladeiras de La Paz, tem de parar a cada duas quadras para respirar um pouco.

O trânsito é caótico. Não porque haja congestionamentos como os de São Paulo, mas porque a maior parte dos cruzamentos não tem farol. E aqui há uma espécie de cultura do enfrentamento, ou da buzina. A preferencial é de quem chegar primeiro. Então o cara toca a buzina e vai! E os outros que esperem. Os caras acabam buzinando sempre! Pra passar no cruzamento, buzinam sozinhos, pra nada… O negócio é tão feio, mas tão feio, que, em muitos cruzamentos, existe um cartaz que diz: "No toque la bocina. Silencio es salud". Aqui também tem um rodízio de carros como o de São Paulo: no centro expandido, e no mesmo esquema das placas.

Bom, além de buzina, toca-se muita música popular andina aqui, rock latino e um pouco de latino-romântico. E neste exato momento está tocando Whitney Houston no locutório onde estou!

O policiamento, pelo menos aqui no centro, é grande. Há um guarda em cada esquina. Quem gosta de compras não venha! Não venha porque é tudo muito barato e é capaz de você querer comprar meia Bolívia! Uma refeição simples, mas decente, pode sair por algo entre três e cinco dólares. Com dez dólares, você come em lugares muito bons.

No albergue, conheci três meninas (uma da Irlanda, uma da Bélgica e outra da Inglaterra) de um grupo de europeus que estão em viagem pela América do Sul. Convidei as garotas para sair, mas tinham de madrugar para seguir rumo à selva boliviana. Então fui comer uma pizza e tomar uma cerveja aqui do lado. Quando voltei, já tava pra lá de Bagdá, porque não tinha dormido nada nas duas noites anteriores. Capotei.

Acordei às 6h30 para fazer um passeio para o Chacaltaya e o Valle de la Luna. O Chacaltaya é uma montanha que está a uma hora e meia de carro de La Paz, e é o lugar onde se pode chegar mais alto no mundo inteiro dirigindo. O guia era o Freddy, uma figura.

Quando ele descobriu que eu era do Brasil, me perguntou qual é o meu time. Eu disse que torço para o São Paulo e perguntei o time dele, crente em que ele responderia Bolívar, Real Potosí ou alguma outra equipe local.

— Atlético Mineiro – ele respondeu com um belo de um sotaque. E disse "Toninho Cerezo" umas três vezes!!!

Na van, tinha outras 12 pessoas. Uns oito eram brasileiros, sendo quatro do Recife, gente muuuuuuuuuito legal. O Chacaltaya é lindo!!! Acho que foi a coisa mais linda que eu vi na vida! O topo dele, coberto de neve, é uma coisa que não dá nem pra explicar.

Foto de Fernando Gallo
A descoberta da América do Sul: Bolívia
Rumo ao Chacaltaya: as curvas da estrada são um desafio,
a altitude assusta, mas o esforço vale a pena.

Mas olha… se a estrada de Santa Cruz a La Paz é sinuosa, não vou nem contar da que leva ao Chacaltaya. E pior: esta é muito mais estreita. E o Eloy, nosso motorista, é daqueles sujeitos que acham, como eu achava quando tirei a carta, que o carro não se controla no pedal, mas sim no volante. Nas curvas – com aquele precipício gigante –, o Eloy acelerava e tentava consertar a trajetória do carro virando rapidamente o volante. A ponto de eu dizer:

Eloy, despacito, por favor. No tenemos prisa.

Chegamos de carro a 5.265 metros de altura, onde tem uma estação de apoio. De lá até o topo são 130 metros caminhando. Aí eu senti a altitude. A cada 15 ou 20 metros, tinha de parar com o coração totalmente acelerado e respirar uns cinco minutos até começar de novo.

Mas valeu cada passo! É incrível! Como disse o Gedeminas, o amigo lituano que fiz na viagem, "ellos dicen que allá abajo es La Paz… No. La Paz esta acá!". É verdade. Foi ótimo, o dia estava lindo, um baita sol e aquele friozinho da montanha.

Só que aí minha cabeça começou a doer. E eu decidi descer. As pernas balançavam… e eu torcendo pra chegar vivo! Cheguei à estação de apoio e me aventurei a tomar o famoso chá de coca, que dizem ser muito bom pra lidar com a altitude. E de fato ajudou.

De lá fomos ao Valle de la Luna, que é bonito e legal também. São umas formações rochosas onde antigamente havia um lago. E tem uma vista de La Paz com a parte mais alta do vale no fundo, e o Chacaltaya mais ao fundo ainda.

Foto de Fernando Gallo
A descoberta da América do Sul: Bolívia
A capital mais alta do mundo, encravada na cordilheira dos Andes.
Do Valle de la Luna, vê-se La Paz do alto e o Chacaltaya ao fundo.

Voltamos a La Paz e formos procurar um lugar para almoçar. Missão quase impossível, porque já eram 16h de um feriado. Depois de muito caminar, quando eu já voltava desesperançoso para o albergue, encontro El Lobo, a salvação dos turistas de La Paz, um restaurante de donos israelenses que serve de tudo um pouco e fica aberto o dia inteiro! Ufa!

Este pasquim pode voltar a qualquer hora, de qualquer lugar.

A saudade aumenta.

Abrazos,

Fernando

*Confira o primeiro relato da viagem de Fernando Gallo pela Bolívia aqui. 

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