A descoberta da América do Sul – episódio 5

Quedamos en pana.

Tivemos uma pane, anunciou o comissário de bordo do ônibus que eu tomara. Não foi na Bolívia nem no Peru. Foi em Arica, primeira cidade do norte do Chile, no caminho para Santiago.
 
Isso foi às 20h30, duas horas e meia depois da partida. A previsão era de que o carro com o mecânico que consertaria a bomba d’água chegaria em uma hora. Tentei assistir a mais um daqueles blockbusters que passariam a viagem inteira, mas fui vencido pelo cansaço. Estava viajando desde as 7h30, quando saí de Arequipa rumo a Tacna.

(Aliás, eu ouvi nas rodoviárias peruanas o grito “Aaaaaaaaaaaaaarequipa, Arequipa, Arequipa, Arequiiiiiiiiiiiiiiiiipa” mais de 58 mil vezes. Nas rodoviárias da Bolívia, eu ouvi “La Pá, La Pá, La Pá” umas 49 mil vezes.)

Esse trecho Arequipa-Tacna havia durado seis horas e meia em um ônibus econômico.
 
De Tacna a Arica foram mais duas horas, nas quais incluem-se passagens pelas imigrações de Peru e Chile e mais a aduana chilena, onde só faltou me revistarem os dentes. Fiz esse trecho a bordo de um carro muito velho, com três lugares na frente e três atrás e o câmbio ao lado do volante.
 
Bom, estávamos em pane. Dormi quando eram umas 21h. Um pouco depois, a Maria Teresa, uma peruana que trabalha como babá em Santiago e foi a minha companheira de viagem desde Tacna, me acorda meio aos tabefes:
 
– Fernando, Fernando… despiértate!
 
Não conseguiram consertar o ônibus, então mandaram outro. Era meia-noite, no meio de uma estrada desértica e deserta no Chile.
 
Mudamos de carro e seguimos viagem. Adormeci novamente. Às 4 da manhã, o nosso amigo comissário avisa lá de longe:

Aduanaaaaa!
 
Outra aduana, às 4 da manhã, a terceira só no Chile. E toca tirar o mochilão do bagageiro e deixar os policiais revistarem.
 
Enfim… foram 33 horas desde Arica até Santiago. Dentro de um ônibus semileito que só para para abastecer. Quarenta horas comendo bolachas e batatas chips. Uma saga. Vi uns três filmes blockbuster (pelo menos passaram O Terminal, com o Tom Hanks, que eu nunca tinha visto, e uma comédia com o Adam Sandler. Foi o terceiro filme com o Adam Sandler desde que eu saí de Santa Cruz de la Sierra!!!), terminei de ler um livro, dormi de novo, ouvi música…
 
Chegamos em Santiago à uma da manhã. Fui a dois albergues, mas não tinha vaga. Fiquei num hotel xexelento e depois consegui hospedagem num albergue bem bacana.
 
Fui conhecer o Palácio de La Moneda, os calçadões do centro, e os bairros mais legais daqui. Um dos bairros lembra a Vila Madalena (bairro boêmio de São Paulo), mas é melhor. Chama-se Bellavista.
 
É uma cidade encantadora. Não é tão charmosa quanto Buenos Aires (que vou revisitar nesta viagem), parece com São Paulo em alguns aspectos, mas é bastante verde e mais civilizada. Claro que ajudou o fato de conhecê-la num fim de semana, com dias de sol espetaculares!
 
Já estou me despedindo daqui. Daqui a duas horas, vou para o litoral: passarei um dia em Viña del Mar e outro em Valparaíso.
 
De maneira que está muito desagradável por aqui. Muito! Rsssss!
 
Abrazos,
 
Fernando

* Confira os quatro primeiros relatos da viagem de Fernando Gallo pela América do Sul:

4: aqui

3: aqui

2: aqui

1: aqui

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