A descoberta da América do Sul – episódio 7

Como se hace un club nuevo?

Se você não viu Luna de Avellaneda (Clube da Lua, no Brasil), vá correndo ver. Essa frase saiu deste filme e poderia ser pronunciada por algum torcedor do Racing, clube da cidade de Avellaneda (vizinha a Buenos Aires), ou simplesmente La Academia.

Meu velho pai, santista de nascimento e de futebolística paixão que, na década de 60, viu a esquadra de Pelé jogar várias vezes na Vila Belmiro, me disse não faz muito: “Naquela época, meu filho, o time para o qual eu torcia na Argentina era o Racing”. La Academia Racing. 


Foi um domingo histórico para o Racing. Porque a esquadra de Avellaneda vive um momento delicado. A primeira crise, há alguns anos, obrigou o clube a decretar falência. Mas a Academia nunca morre, e o clube renasceu. Agora vive ameaçado de rebaixamento.


Então, decidi ver, em Avellaneda, Racing x Arsenal de Sarandí, campeão da Copa Sul-americana de 2007, time de propriedade de nada mais nada menos do que Julio Grondona, o presidente da CBF argentina.
 
 O repórter Fernando Gallo vestiu chapéu e cachecol e foi ao estádio Juan Domingo Perón, el Cilindro de Avellaneda. O Racing atravessa má fase, mas, em 1967, foi o primeiro time argentino a se sagrar campeão mundial.
Fernando Gallo vestiu chapéu e cachecol e foi ao estádio Juan Domingo Perón, el Cilindro de Avellaneda. Racing atravessa má fase, mas, em 1967, foi o primeiro time argentino a se sagrar campeão mundial.
 


Torcia por um 1 a 0 chorado para ver renascer a Academia. Quando começou o jogo, entendi por que o Racing está mal: lhe falta padrão de jogo, qualidade técnica, jogadas ensaiadas. O Racing era só raça!


Sava, o nosso limitado centro-avante, fazia as vezes de pivô clássico. Bola lançada pra frente, ele, de costas pro gol, ajeitava pra quem vinha de trás. De cabeça, de peito…


Bastia, nosso volante camisa 7, era um verdadeiro leão em campo. Do jeito que jogava, a Academia poderia ter uma linha de apenas um homem no meio.


A essa altura eu já tinha aprendido um dos cânticos da torcida de Avellaneda, que é uma versão de La Bamba:
 
“Para venir a Racing / para venir a Racing / se necesita un poco de locura / un poco de locura y otra cosita / y arriba y arriba / y arriba y arriba / y arriba iré / por la Acadé por la Acadé / laaaaaaaaaaaaaa-ca-demia-carajo-laaaaaaaaaaaaaaa-ca-demia carajo…”

Mais ou menos aos 20 minutos do segundo tempo, Sosa, um de nossos defensores, lembrou Zico. Um minuto antes, Bastia, depois de uma roubada de bola na intermediária adversária, partira em direção clara e reta ao gol, mas fora derrubado quase na meia-lua. Falta.

Na hora ouvi em minha cabeça o grito: “Rogério, Rogério!”. A Academia Racing não tinha Rogério Ceni, não tinha Zico, mas tinha Sosa, camisa 29, que anotou 1 a 0. Então eu provei a famosa avalanche da torcida argentina, da qual, por sorte, escapei ileso.

Um a zero, placar final. Renascia a Academia. Sem tática, sem técnica, sem nada, só com muita raça. Quanta raça, Racing!

Ao final do jogo, depois da fina chuva que caiu no intervalo, brilhava uma lua que, se não era uma lua cheia, era uma lua crescente bem assanhada. La Luna de Avellaneda.

Francisco, funcionário do albergue em Buenos Aires e torcedor do Racing, me disse que estou convidado para a próxima partida e que ele paga o meu ingresso.

Abrazos,

Fernando

* Confira os seis primeiros relatos da viagem de Fernando Gallo pela América do Sul:

6: aqui

5: aqui

4: aqui

3: aqui

2: aqui

1: aqui

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