A descoberta da América do Sul – episódio 8

Minha gente,
 
Tô exausto! Nunca pensei que essa vida-mochileira poderia cansar tanto.
 
A viagem já vai chegando ao fim e, sinceramente, a ficha ainda não caiu. Não consigo acreditar que passei por tantos lugares, que vi tantas coisas lindas e que tive experiências tão diferentes.
 
Estar em Buenos Aires foi algo muito intenso. Claro, não poderia ser diferente: Buenos Aires é a cidade mais intensa entre as cidades visíveis e entre as cidades invisíveis.
 
No fim de semana, me emocionei pela primeira vez desde que estou viajando, e por duas vezes no mesmo dia. A primeira delas ao deixar Córdoba. Porque uma coisa que me ficou clara, muito clara, é que São Paulo, de onde venho, é uma cidade embrutecedora. Faz a gente desacreditar das pessoas e da bondade humana. E as minhas amigas de Córdoba foram de uma generosidade tão incrível que, quando me dei conta, fiquei até meio bobo.
 
A segunda vez que me emocionei foi na feirinha de San Telmo, em Buenos Aires. Eu dei uma longa volta por lá e depois fui almoçar. Quando voltava, vi uma coisa que já tinha visto em Santiago, no Chile, e que já vi no Brasil: a campanha dos “abraços grátis”. Não tem nada a ver com empresas, ONGs, nem nada. São pessoas que ficam em vias de grande movimento com cartazes que dizem “abraços grátis”. E quem quiser um abraço vai lá e abraça a pessoa. É uma forma de tornar a Terra um lugar mais agradável e a existência, menos dolorosa.
 
Duas pessoas estavam lá com os cartazes. Fiquei parado, prestando atenção, até que pensei: “Vou lá dar um abraço”. Cheguei para o sujeito que segurava o cartaz e disse:

Hola, amigo. Un abrazo de un amigo brasileño.

E ele respondeu:

Un abrazo de un amigo venezuelano, entonces.

E me deu um abraço.
 
Aí troquei duas palavras com ele, contei que tinha visto a campanha no Chile, também, e ele me disse que tem viajado por alguns países e sempre leva o cartaz.
 
Quando me virava para ir embora, me deparei com a cena que me emocionou pela segunda vez naquele dia. Um senhor extremamente maltrapilho (que não quero chamar de mendigo porque não tenho certeza de que ele o fosse), com poucos dentes na boca e um cabelo completamente despenteado, chegava para abraçar a outra menina que fazia parte da campanha. Na hora em que ela o abraçou, o senhor caiu num pranto, mas num pranto que vocês não imaginam. Ele chorava, chorava, chorava, e a menina o abraçava e passava a mão na cabeça dele.

De longe, fiquei observando aquela cena por uns dois minutos pra saber o que ia acontecer, mas não aguentei. Foi me dando um nó na garganta daqueles de perder o ar e achei melhor respirar bem fundo e seguir porque, senão, também ia começar a chorar no meio da feirinha de San Telmo.
 
Na segunda-feira, fui conhecer La Bombonera (estádio do Boca Juniors), depois passei pelo Caminito e comi uma empanada. Daí fiz o trajeto avenida Corrientes, Obelisco, avenida 9 de Julio, calle Florida, avenida de Mayo, Casa Rosada. Depois, perguntei a um cara onde eu poderia tomar o ônibus 17 pra chegar ao bairro da Recoleta. O sujeito me acompanhou até o ponto, tomou o ônibus comigo e desceu dois pontos antes do meu, não sem antes me explicar como é que eu deveria fazer quando chegasse na avenida del Libertador. E ainda dizem que os argentinos odeiam os brasileiros…

Casa Rosada, sede do governo argentino
Casa Rosada, sede do governo argentino: sombra e luz.

 
Bom, quando eu passeava pela Recoleta, fui abordado por Jimmy, terno preto, camisa preta, gravata preta e rabo-de-cavalo, o promoter de uma, digamos, casa de massagem.
 
Conversa vai, conversa vem, o Jimmy me conta que custam 40 pesos pra entrar, com direito a dois drinks. A proposta da casa é ser igual às outras do ramo, apenas diferente no horário de funcionamento, que é mais cedo, até as dez da noite. Lindas garotas, muito lindas, me diz o Jimmy. Quanto custa um programa? Ah, isso depende da garota, me conta. Mas, em média, uns 200 pesos. Se há quartos no local? Existe um espaço lá em cima, me diz. Eu até agora não entendi qual é a desse lugar. Pergunto se, como no Brasil, há todo tipo de mulher: loira, morena, ruiva. Ele me diz que sim. E negras? Também. Na verdade agora a Argentina tem um pouco de negras dominicanas. E se põe a me explicar sobre a Guerra do Paraguai, a República Dominicana e por que é que não existem tantos negros na Argentina.
 
Jimmy, pra ser bem sincero, eu tô dando uma volta por aí. Qualquer coisa eu apareço.
 
Uma quadra depois e sou abordado novamente, dessa vez por um mulato, de terno, que tenta me convencer a entrar num restaurante. Ele me pergunta de onde sou. De São Paulo, Brasil. Ele, também. É do Grajaú (zona sul de São Paulo), está há quatro anos em Buenos Aires. Pergunto se é fácil arrumar um trabalho por lá. “É só ter os documentos que você arruma um trabalho”, me garante. Don’t push it, man. Nem na Austrália é assim.
 
E, para finalizar a noite, uma empanada e uma cerveja na plaza Serrano, que ninguém é de ferro. E então se senta à minha mesa a Carla, filha de um cartonero (catador de papel), que me diz que seu irmão de um ano está doente e pergunta se eu não posso colaborar. Me conta que todo dia chega em casa às duas da manhã porque trabalha com o pai e o irmão. Converso com ela por uns dez minutos. Não sei se a historia é verdadeira ou não, mas, por fim, dou três pesos a ela. E vou dormir porque foi um dia cheio.

No dia seguinte, fui à livraria El Ateneo, a mais charmosa do mundo. Almocei em Puerto Madero, fiz um passeio pelos jardins de Palermo e voltei ao albergue porque iria a um tango à noite. Chegou um canadense no meu quarto que cismou que queria ver o show de tango comigo. Arrumou um ingresso no albergue, e fomos. Gente boa, o Adam.
 
O show foi espetacular, valeu cada centavo. Aí dormi quatro horas para pegar o Buquebus (barco) para Montevidéu bem cedinho.

O tanho é a alma dançante de Buenos Aires
 Espetáculo de tango, último programa em Buenos Aires.

Já dei um pequeno giro pela Ciudad Vieja, que é muy agradable, muito. E almocei no Mercado del Puerto. Nem vamos falar de dinheiro. Daqui pra frente só vou comer cachorro-quente e choripán (lanche de linguiça).
 
Abrazos,
 
Fernando

* Confira os sete primeiros relatos da viagem de Fernando Gallo pela América do Sul:

7: aqui

6: aqui

5: aqui

4: aqui

3: aqui

2: aqui

1: aqui
*Fotos de Fernando Gallo.
 

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