A greve dos políticos

Queridos Henfil e Betinho,

Escrevo para contar tudim – não vou esconder nada –, nenhuma vírgula dos acontecidos em solo tupiniquim. Ao som de “Coração de Estudante”, escrevo para dividir notícias frescas sobre um tema pelo qual a maioria dos políticos demonstra o maior desprezo: educação.

No início do ano letivo de 2011, o governador de São Paulo decidiu abrir os trabalhos com uma aula inaugural (em uma escola da zona oeste) e a imprensa acompanhou o feito. Bem que um professor de escola pública (sacaneado, vilipendiado, exausto) poderia assumir por um dia o Palácio dos Bandeirantes. Tenho a certeza de que o professor (em seu governo inaugural) conseguiria implantar um plano de carreira, reajustar o salário (um dos mais baixos do país) e devolver um pouco de dignidade aos educadores.

Quem sabe o governador “24 horas” tivesse a sensibilidade (um bucadim de vergonha na cara) de rever a progressão continuada e as sequelas intelectuais deixadas. A manutenção dela tem significado um número cada vez maior de gente apartada do mundo letrado. Em todas as áreas existem problemas de formação, tesouras, pedaços de gaze e toda sorte de objetos esquecidos no corpo do paciente.

Outro dia li a ficha cadastral de uma candidata ao cargo docente (na Prefeitura de São Paulo) e atônito deparei com os seguintes predicados: disciplina que leciona: “englês”, naturalidade: “Bhaia”, endereço: rua “armonia”. E para o assombro coletivo é professora atuante na rede estadual de ensino.

Cursou faculdade em São Paulo (segundo cópia do certificado de conclusão) e apresenta, no mínimo, problemas graves de escrita. As faculdades (principalmente algumas particulares) necessitam de alunos e muitos deles são oriundos de escolas públicas e “formados” pela progressão continuada. Já existem professores que são crias do sistema, ou seja, profissionais com déficits crônicos de aprendizagem.

Enquanto o governador faz pose diante das câmeras, os resultados internacionais não são nada fotogênicos; a primeira edição (2000) do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa, mostra que o Brasil ficou em último lugar em uma avaliação de leitura – que envolveu 28 nações desenvolvidas e quatro emergentes.

No ano de 2003, a prioridade era a disciplina de matemática e o Brasil melhorou muito: ficou em penúltimo lugar. A má formação do professor está intimamente ligada à má formação ética da maioria dos homens públicos brasileiros. Gente que retira das crianças o sentido de responsabilidade, quando lançam os alunos (em uma espécie de catapulta da ignorância) em direção a um futuro incerto.

Mais do que uma aula inaugural, o governador, a “presidenta”, os senadores, deputados, prefeitos e vereadores deveriam tomar como paradigma pessoas como Anísio Teixeira, Paulo Freire, Antônio Candido, Rubem Alves e muitos educadores anônimos espalhados por todo o território nacional. Definitivamente, a classe política (com raríssimas exceções) não consegue entender que os discursos e as promessas todas causam náuseas e vergonha.

Enquanto alguns vivem em palácios, muitos professores e alunos (que reconhecem a escola como local de aprimoramento intelectual e humano) caminham com uma funda dispostos a enfrentar o gigantismo de um sistema estúpido e brutal.

E só para constar é bom que se diga que os políticos (um monte bem grande deles) estão em greve (desde a época do Império) – obstruíram as vias da educação e não permitem que as crianças (menos abastadas) tenham a mesma oportunidade. Que gentinha vil.

Um abraço (quase) educado,

Jornalirista

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