A greve nossa de cada dia

Ouço a canção “Comportamento Geral”, na voz do Gonzaguinha, e ainda que os governantes acenem com números irrefutáveis sobre a posição econômica do Brasil – ainda que o petróleo jorre no litoral de São Paulo, o país continua mergulhado em um pegajoso mar de corrupção.

No interior do Maranhão (Escola Municipal Nova Canaã), os alunos estudam em um casebre de barro (sem água) – sentam sobre pedaços de madeira, fazem suas necessidades fisiológicas (os meninos e meninas) ao redor da “sala de aula” porque não existem sanitários no espaço escolar.

NÃO EXISTEM SANITÁRIOS. NÃO EXISTEM SANITÁRIOS. NÃO EXISTEM SANITÁRIOS. NÃO EXISTEM BANHEIROS?
A situação nacional das escolas públicas é (salvo raras exceções) a mesma – mas os palanques vomitam ano após ano, década após década, que a educação é imprescindível, que uma nação desenvolvida passa pelas escolas e principalmente pelo convívio com um profissional desprezado por boa parte da sociedade brasileira: o professor.
Ao longo da história, as palavras RESPEITO e DIGNIDADE, como diria o poeta Thiago de Mello, passaram a ser motivos de galhofa no pântano enganoso das bocas desumanas que disputam a qualquer preço o poder.
Estamos no ano de 2014 e os professores do município de São Paulo estão em greve por causa de tudo que é asqueroso: o corrupto, o corruptor, o “jeitinho brasileiro”, o mensalão, a conversa peçonhenta do horário político, a precariedade do atendimento público hospitalar, a falta de moradia, a violência, a insanidade do sistema carcerário, a falta de escolas para abrigar pessoas com necessidades especiais, o transporte público indecente, as licitações duvidosas, A FALTA DE VERGONHA NA CARA DA MAIORIA DOS GOVERNANTES.

Mas que fique bem claro: como em qualquer outra atividade humana (não sejamos ingênuos) há professores sem compromisso – profissionais que não trabalham nem lutam pela melhoria de nada – gente satisfeita com o descaso e o caos.

Numa terça-feira (7/5/2014) aproximadamente cinco mil professores da rede municipal de ensino de São Paulo ocuparam uma das faixas da Avenida 23 de Maio e soltaram o grito libertário de quem não suporta mais conviver com a miséria intelectual oferecida em forma de Copa do Mundo de futebol.

Que lugares ocuparão, nos estádios que foram construídos para o Mundial de futebol, os pequenos estudantes da modestíssima Escola Municipal Nova Canaã? Será que poderão usar os sanitários destinados aos jogadores? Quem sabe um banho relaxante nas banheiras. Quem sabe assistir aos jogos nos camarotes destinados às autoridades brasileiras e internacionais. Que merda!

Numa terça-feira aproximadamente cinco mil professores da rede municipal de ensino de São Paulo caminharam na Avenida 23 de Maio – olhando nos olhos das pessoas e propondo aos poucos uma revolução pacífica, um levante intelectual.

Numa terça-feira aproximadamente cinco mil professores da rede municipal de ensino caminharam na Avenida 23 de Maio com os corpos eretos e as cabeças erguidas – olhando profundamente nos olhos das pessoas.

*Sílvio Valentin Liorbano é professor de Português da rede municipal de ensino de São Paulo e também escritor.