A gripe

Numa madrugada de domingo para segunda-feira, acordei toda molhada de tanto suor; não me sentia muito bem. Levantei para tomar água. Assim que sentei na cama, escutei a porta do meu quarto se abrir bem devagar. Olho em sua direção e vejo minha filha segurando o travesseiro na mão esquerda e na mão direita a Julia, sua boneca preferida. Ela entra no quarto, coloco as minhas mãos sobre ela e percebo que está exatamente como eu.

Preocupada, levanto novamente, seguimos até seu quarto para pegar o termômetro. Sim, com travesseiro, Julia e Bê no colo. Não é permitido deixar ninguém para trás. Meço sua temperatura: 39,5°C. Ainda não me senti desesperada, mas diria que, se fosse uma escada, o desespero seria o próximo degrau. Ofereço uma chuveirada e ela aceita de prontidão. As duas pro chuveiro. O mesmo acontece com a medicação. A febre cede pouco. Logo, dá-se início a alternância de antitérmicos.

Na segunda-feira pela manhã, depois de ficar praticamente acordada, peço orientações à pediatra. Sim, pegamos a tal gripe, juntas. Recomendações: descanso, bastante água, medicações e ficar em casa.

Foram cerca de dez dias em casa. Quando digo em casa, é realmente dentro do apartamento. Não conseguia imaginar passar tudo de ruim que estava sentindo para outra pessoa. Cada vez que olhava a minha filha e entendia o que ela estava sentindo, não conseguia aceitar que outra criança passasse por isso. Juntas, em casa, no chuveiro, na cama, nas madrugadas, na medicação. Juntas.

Ainda bem que estamos cercadas por pessoas boas e com corações imensos. Sabendo da situação, minha irmã fez compras de supermercado e hortifrúti. Pediu para entregar aqui. O porteiro trouxe tudo até a porta do apartamento, tocou a campainha para que eu soubesse. Só abri a porta quando ele não estava mais lá, na tentativa de minimizar qualquer risco.

Mais madrugadas acordadas, mais medicações, mais chuveiradas, mais cama compartilhada. De tão cansada, deixei escapar uma reclamação, ou melhor, uma lamentação e falei com um tom de exaustão: “Filha, não dá pra gente ficar doente junta. A mamãe está tão cansada…”. Ela olhou para mim como se realmente entendesse meu esgotamento e disse: “Mamãe, eu te amo muito, muito, muito. Obrigada”. E com toda sua força me abraçou, bem apertadinho, por uns dez minutos. Dormimos assim, juntas. Sim, dormimos, finalmente.

Créditos da imagem: http://guiadobebe.uol.com.br/

Um comentário para “A gripe”

  1. Iasmine Dantas

    Mais um lindo texto! E mais lágrimas nos olhos: de encantamento!

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