A hora e a vez dos candangos

Alado Henfil,

Após o Carnaval, renasço das cinzas, feito a Fênix, ainda coberto pela fuligem de Cubatão, e arrisco outros voos sobre a devastada Mariana, sobre a olímpica e poluída baía de Guanabara, sobre as queimadas da Floresta Amazônica, sobre o rio São Francisco assoreado, e pouso suavemente para um descanso na escultura “Os Candangos”, na Praça dos Três Poderes.

Mas quais são estes três poderes? Os heróis têm lá as suas habilidades e conseguem (pelo menos no cinema norte-americano) evitar tragédias ambientais e até pôr atrás das grades um punhado de malfeitores. Mas no cinema brasileiro (em alguns filmes) tem milícia, corrupção envolvendo gente do poder Executivo, Legislativo e Judiciário. Pura ficção…

É só no cinema. Aqui o poder pode. A Justiça é cega e lembra o Demolidor ao usar seus outros sentidos com maestria para cumprir tudo o que está escrito no Código Penal. Contrabando de armas, madeira, animais silvestres e outras contravenções são punidas com o rigor da lei. Aqui não. Tudo é averiguado, rastreado, inspecionado, investigado, superfaturado, desviado, extorquido e negligenciado. O país do futuro. Há países de primeiro, segundo e terceiro mundo. O Brasil caminha e já é um país de outro mundo.

A saída para o Brasil? O aeroporto. Piada velha e cínica, que revela a vergonha dos escândalos que se multiplicam nos noticiários e nas delegacias. Nós pulamos o Carnaval e na Quarta-Feira de Cinzas acordamos para uma ressaca que dura até o outro Carnaval. Mesmo o futebol, que sempre foi outra válvula de escape, está chatinho – virou um negócio da China.

Falo direto da Praça dos Três Poderes em Brasília e só saio daqui se me derem uma pedrada saída de algum estilingue democrático. Rê, rê, rê, rê… A verdade é uma só: temos que enfiar o pé na bunda de muita gente corrupta. Já, já, eles aparecem na televisão e pedem nosso voto. Já, já, o debate patrocinado pelos grandes grupos midiáticos. Já, já, a mentira em horário nobre. Já, já, a nova corrida do ouro – o ouro dos cofres públicos, saqueados a cada novo mandato. Já, já, o povo toma as rédeas e escreve outra história. Deixa eu voar para outras bandas, que acabei de tomar uma pedrada democrática.

Jornalirista

 

Imagem: “Os Guerreiros” (1960), também batizada de “Os Candangos”, escultura feita com bronze por Bruno Giorgi (1905-1993). Foto de José Cruz/Agência Brasil

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