A indesejada profissão de redator de rádio

O rádio é conversação. O improviso de apresentadores, comentaristas e entrevistados domina grande parte de uma programação jornalística em rádio.

O texto escrito, lido e interpretado entra aos poucos no ar. Alguns repórteres são capazes de falar bem de improviso e dispensam o texto escrito quando participam ao vivo de um programa. Alguns improvisam com base em tópicos que anotaram sobre o assunto em pauta. Outros procuram escrever, de fato, um texto.

Quando vai fechar uma reportagem e deixá-la gravada, para que possa ser usada durante a programação, o repórter sempre escreve o texto. Não costuma ser um texto rico. As pautas, normalmente, não ajudam. O rádio não faz uma grande busca por assuntos saborosos. No dia-a-dia, o repórter de rádio costuma acompanhar os compromissos de agenda do prefeito, do governador, do presidente, de parlamentares e ministros. É o jornalismo declaratório. “Fulano disse tal coisa sobre tal assunto.” “Beltrano criticou Fulano e prometeu tal coisa.” Os repórteres policiais acompanham as ocorrências e os relatos gravados por eles não diferem muito dos boletins registrados nas delegacias. Os repórteres esportivos cobrem o cotidiano dos clubes de futebol, ou seja, as reportagens falam das escalações dos times para os jogos, seguem pelo declaratório de treinadores e jogadores e vagam pelas notícias ou especulações sobre as negociações de atletas.

Os repórteres de rádio também trabalham muito nas tragédias: crimes, acidentes, desastres climáticos. Como o rádio é efêmero e as informações mais confiáveis sobre as tragédias demoram a aparecer, o repórter é obrigado a caminhar num terreno movediço. O que lhe passaram como informação correta há 15 minutos pode ser diferente daqui a uma hora.

Uma reportagem gravada deve ser rápida e rasteira. As rádios exigem que ela seja curta, ou seja, que tenha cerca de dois minutos, porque concluíram que o ouvinte não presta mais atenção depois disso. O repórter corre sempre o risco de ser superficial demais.

Normalmente, o material gravado pelo repórter é ouvido por um editor antes de ir ao ar. O editor deve fazer um controle de qualidade, cortar erros de gramática e de informação dos repórteres. Se for preciso, pede para que o repórter refaça o trabalho. Se for inevitável, “derruba” a reportagem e impede que ela seja veiculada.

Quando a reportagem está correta, o editor redige um texto curto de introdução do assunto. No rádio e na TV, esse texto é chamado de cabeça e vai ser lido pelo apresentador antes de a reportagem ser levada ao ar. A cabeça deve atrair a atenção do ouvinte para o tema da reportagem. Mas o editor não tem muito tempo para grandes elaborações e, às vezes, até mesmo os erros dos repórteres lhe escapam. Há uma grande quantidade de boletins a serem ouvidos e eles precisam alimentar logo a programação. O editor acaba optando por um texto simples, aproveitando muitas vezes a sugestão deixada pelo repórter.

O editor também seleciona trechos de entrevistas que são feitas ao vivo pelos apresentadores. As declarações consideradas importantes são reapresentadas ao longo da programação. Para que isso aconteça, o editor escreve um texto contextualizando o assunto.

O texto escrito também está presente em giros de manchetes na abertura de programas e em boletins informativos. A rádio CBN, por exemplo, veicula, a cada meia hora, o “Repórter CBN”, um boletim de dois minutos com uma seleção das principais notícias do dia.

O “Repórter CBN” é redigido com base nas informações dos repórteres da rádio e das agências de notícias. A TV e a Internet também são fontes. Num boletim curto como esse, entram, em média, quatro ou cinco assuntos.

Os erros de concordância dos apresentadores e repórteres, quando falam de improviso, até podem ser perdoados. O redator não costuma desfrutar da mesma tolerância.

Um chefe deve sempre reler o texto do redator antes de o boletim ser levado ao ar. Esse esquema de revisão é imprescindível, mas também não é infalível. O redator tem menos de meia hora para redigir o boletim. A revisão é feita em poucos minutos ou segundos. Com um tempo tão escasso para a leitura, um erro pode não ser percebido.

Um redator que erra muito não se sustenta. Por mais que haja um chefe revisor, a bomba sempre cai no colo do autor. Não há revisor que suporte um redator que erra em todo boletim, ou seja, que erra a cada meia hora.

O redator precisa fazer um trabalho confiável, isto é, ser o revisor de si mesmo e ser capaz de escrever um boletim impecável, que possa ir ao ar sem intermediários.

Ao redator também cabe boa parte da escolha dos assuntos que irão ao ar nesse boletim – os chefes também indicam assuntos. Em meio a uma infinidade de notícias pipocando na programação da rádio, nas agências de notícias, na TV e na Internet, ele precisa saber o que, de fato, é relevante para um público ouvinte vasto e heterogêneo.

As tais notícias relevantes podem ser de política, economia, justiça, polícia, ciência, esporte… E lá vai o redator traduzir o politiquês, o economês, o juridiquês, o policialês, o cientifiquês, o esportivês… Traduzir para um português aberto, sem mistérios, que todos possam entender.

Os meios de comunicação funcionam num processo infinito de retroalimentação. O redator é um coletor e tradutor do que está sendo veiculado na mídia.

Quem ouve rádio pode saber o nome dos apresentadores, locutores e repórteres que falam no ar. O redator, assim como o editor, fica no anonimato. O que ele escreve é lido no ar pelo locutor ou pelo apresentador.

As exigências de precisão e agilidade tornam a função de redator a mais indesejada pelos jornalistas de rádio. A pressão é grande; a margem de erro, pequena. O redator tampouco se distingue positivamente pelo salário. Ganha mal como os outros.

As chefias costumam escalar na função profissionais com alguma rodagem. A maioria foge da cadeira de redator como o diabo foge da cruz.

Um repórter se sente desprestigiado quando é escalado para ser redator, mesmo que temporariamente. É que o repórter trabalha com a notícia em primeira mão. E o redator trabalha com informação de segunda mão. A escrita do redator é, na verdade, uma reescrita. As notícias e as palavras não brotam da cabeça e das mãos do redator. Quem veicula a informação primeiro é o repórter (de rádio, agência de notícia, TV ou Internet). A todo momento, o redator copia ou transcreve um texto de repórter. Cabe a ele manter o respeito ao idioma e reescrever bem, para dar mais força ao texto. Precisa ser claro e conciso porque tem poucas linhas para mandar o recado.

Muita gente que exerce a função de redator comete o pecado de não reescrever. Em meio à pressão por agilidade, limita-se à cópia do texto. Normalmente, o resultado é um texto confuso e desinteressante. Não se procura um poeta para a função. Basta que saiba distinguir assuntos e informações e que seja capaz de dar ênfase ao que de fato tem importância em cada notícia.

No rádio, não há grande rigor na escolha dos profissionais que vão lidar com o texto. Um repórter ruim de texto pode ficar anos e anos na função. Do redator, também não se cobra nenhum conhecimento gramatical. O chefe revisor, às vezes, parece conhecer a língua ainda menos. Um estudante de jornalismo faz estágio na rádio e aprende a fazer produção, sai com os repórteres, mantém contato com editores, apresentadores, apuradores, chefes e comentaristas. Só passa longe do redator, não tem nenhum contato com ele. O rádio tem uma grande dificuldade para formar redatores.

Apresentadores e locutores, muitas vezes, deixam os pudores de lado e saem lendo no ar reportagens publicadas nos jornais, revistas e na Internet. Lêem como está escrito e nem sequer dão o crédito ao autor do texto, um colega de profissão que atua em outro veículo.

Para ouvir um texto mais elaborado no rádio é preciso ter muita paciência, esperar horas, dias ou, quem sabe, semanas. Até que se ouça um repórter inspirado, que consegue dar alguma cor a uma pauta cinzenta do dia-a-dia. Ou uma reportagem especial, de duração maior, quando o repórter pode se aprofundar mais e contar melhor uma história.

O cenário não é bonito e acompanha o panorama do jornalismo em geral. Os jornais, os canais de TV e a Internet sofrem dos mesmos males. Todo cidadão tem o direito de saber como o jornalismo é feito, questionar os ídolos de barro e cobrar mais qualidade dos meios de comunicação.

*Wellington Ramalhoso é redator e repórter da rádio CBN de São Paulo.

4 comentários para “A indesejada profissão de redator de rádio”

  1. eliezer moreira

    maravilha
    Caí por acaso na sua página, Wellington, e li o seu texto de cabo a rabo com enorme prazer. O assunto me interessa, claro, pois eu sou jornalista, ms não foi esse o motivo que me levou à última linha: fiquei impressionado com o sabor, a precisão e a riqueza de informação do seu texto e sobretudo com o seu conhecimento do que seja trabalhar como redator de rádio. Uma excelente aula de jornalismo.Parabéns!
    Eliezer Moreira.

    PS: Nunca trabalhei em rádio.

  2. fulana

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  3. Marilia Balbi

    Novas idéias
    Olá Wellington, trabalhei anos em jornal e TV, tenho um texto leve, e uma voz que dizem: promete para a rádio. Sempre gostei de rádio, mas nunca tive oportunidade de trabalhar com esta mídia. Dias atrás, recebi uma proposta para fazer rádio. Estou adorando a possibilidade e trabalhando algumas idéias. Gostaria de visitar a sua redação, na CBN, posso?

    Marilia Balbi- mtb 11.926
    Rua Bela Cintra 488/43 B – Consolação – cep 01415-000 SP
    tels. (11) 3231-3041 -cel. 9111-5286
    e-mail: [email protected]

    Atua há 25 anos no mercado editorial como jornalista, assessora de imprensa, editora,redatora. Foi repórter na Gazeta Mercantil, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo, editora na Folha de S. Paulo, redatora-chefe na Abril, editora-assistente em Isto É e Suplemento de Cultura do Caderno 2 (O Estado de S. Paulo); editora na TV Globo (RJ) e TV Cultura (SP). Editora no D.O Leitura/Cultura e Caderno Paulista, História e Personagens e História em Movimento, com o IMESP (Imprensa Oficial de São Paulo), coordenação editorial de Zélio Alves Pinto.
    Como assessora de imprensa atuou entre outros na S.O.S. Mata Atlântica na sua fundação. Com Marilena Chauí/Secretaria Municipal da Cultura/ 200 anos de Declaração dos Direitos Humanos. Divulgou a exposição "Rodin", na Pinacoteca do Estado em parceria com o Banco Real. Foi assessora de imprensa na abertura do Teatro S. Pedro, com a ópera La Cenerentola, Secretaria de Estado da Cultura/Marcos Mendonça, entre outros. Divulgou Musa Editora na Bienal Internacional do Livro de 1997 e Summus Editorial em 1999.
    Com a Editora Globo escreveu em coleção sobre Culinária Internacional, pesquisa histórica sobre imigração portuguesa e italiana no Brasil; com a Empresa da Artes escreveu o livro "Lendas Brasileiras", nos 80 anos da empresa Albarus (RS); com a Fundação Victor Civita e Assembléia Legislativa da Bahia, escreveu o perfil de Vitor Civita; com a Prêmio Editorial e Banco Multiplic, "Pense Grande 4" – coleção sobre empresários de sucesso, o perfil de O Boticário (Miguel Krigsner) e com a Editora Nacional, os 75 anos do Lar Sírio Pró-Infância. Com o Senac e Imesp participou do livro Cadernos Paulistas/História e Personagens, organização Zélio Alves Pinto, como editora de texto e autora dos textos (Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Euclides da Cunha).Escreveu bopgrafia de Portinari, o pintor do Brasil (2005- editora Boitempo), perfil de Fernando Peixoto, o teatro de resistência, editora Imprensa oficial do Estado (no prelo)
    nov.2007

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