A instituição chamada medo

Tenho medo de barata; tenho medo de cachorro; tenho medo do escuro; tenho medo de ficar só; tenho medo de avião; tenho medo de elevador; tenho medo de ser assaltada; tenho medo da morte.

Estes, talvez, sejam os medos mais conscientes que temos e também os mais tolos, em minha opinião. Nossa vida está repleta de medo. Ele, o medo, é um monstro que, sem o nosso consentimento, habita nosso ser. Mais do que um fantasma, é parte nossa, minha e tua, acredite.

Desde que nascemos, vivemos num mundo em que a educação é toda pautada por ameaças. Se você fizer isto, vai acontecer aquilo. Se você fizer aquilo, vai acontecer isto. Duvido de que você não se recorde de uma frase parecida com esta lá da sua infância.

Vivemos isto primeiramente em nossas famílias, depois na escola (por longos anos), nas religiões, na política, nas ruas. Sem nos darmos conta, crescemos e nos desenvolvemos como pessoas através e por meio do medo. O medo tornou-se um recurso da educação, que se manifesta por ameaças sutis ou por uma simples relação de causa e efeito.

Porém, os efeitos do medo em nossas vidas são muito maiores do que imaginamos. É preciso pensar sobre, falar sobre e se conscientizar não sobre o medo, simplesmente, mas sobre o modo como ele é utilizado em nossa cultura e quais seus efeitos sobre a nossa formação como seres humanos e cidadãos.

O.k., eu concordo que “sentir medo” tem um lado bom, o da proteção, como diziam Freud e demais psicanalistas. Sim, o medo tanto protege quanto faz com que tenhamos reações de fuga para nos defendermos.

Sofisticada opressão

Mas não é deste medo que estou falando. É do medo institucionalizado em nosso país. Ele, o monstro Medo, tornou-se uma instituição. E ai de você se não senti-lo! Mais um pouco, sentiremos medo por não sentirmos medo. O medo é uma das formas de opressão, uma forma bem disfarçada e sofisticada, aliás, que faz você criar uma ideia de que está sendo protegido. Protegido por quem e do quê?

O medo é muito mais profundo do que imaginamos. Temos medo de tudo. Medo de baratas, de ratos, de insetos. Claro, medo da dengue! Medo de não nos sentirmos amados, medo de sermos rejeitados, medo de sermos julgados, medo de sermos condenados por alguém que amamos. Medo do futuro, daí o ótimo negócio da previdência privada, já que a governamental nos causa mais medo e insegurança ainda. Medo de termos nosso veículo furtado, enquanto pagamos as “suaves” prestações ao longo de quatro anos. Corremos então para as seguradoras (quanto dinheiro elas ganham, para nos proteger de nossos medos e inseguranças!). Medo de sofrermos com alguma doença e morrermos no corredor de um hospital público; então corremos para um plano de saúde particular e, mesmo gozando de boa saúde, iremos pagá-lo até a morte.

Estes “serviços” nos são vendidos com a ilusão de que estamos nos protegendo. E compramos esta ideia. Adquirimos seguro até para celulares. Só não inventaram, ainda, um seguro contra o medo. Não seria maravilhoso? Quem nos dera pagar um valor mensal, que arrancaria de dentro de nós este ser invisível que nos habita e tanto mal nos faz.

Mal!? Sim, muito mal. O medo tem outras faces. Além de ele fazer parte de uma grandiosa indústria, faz parte também de outra esfera, chamada psique, com que poucas pessoas se importam. Ela é preocupação de seu próprio dono apenas e interesse de médicos e da indústria farmacêutica.

Quanto mais medo tivermos, mais chances teremos de desenvolver alguma síndrome. Você já deve ter ouvido falar da síndrome do pânico, que provoca na pessoa um altíssimo grau de ansiedade e medo perturbador, impossível de ser controlado. É ela que tem levado uma legião de pessoas a consultórios médicos, que irão prescrever três ou quatro medicamentos para que possam se sentir melhor.

Tais medicamentos não são para o medo em si, e sim para as reações fisiológicas e psicológicas que o medo (em extremo exagero) provoca em nosso organismo. Os medicamentos vão desacelerar os batimentos cardíacos, e também diminuir os tremores e a ansiedade. Mas o que eles fazem, na verdade, é colocar o medo para dormir. Num momento qualquer da sua vida, ele poderá despertar e tomar conta de você novamente, como se fosse uma entidade. Aí, é só recorrer novamente ao médico e aos medicamentos, que, cada vez mais, são fabricados e comercializados, trazendo grande rentabilidade aos grandes laboratórios.

Nos anos recentes, após a redemocratização do país, muita coisa mudou, algumas vêm mudando e outras ainda estão por mudar. E, apesar de todos os tipos de manifestações públicas e coletivas que vivemos recentemente, reunindo multidões nas ruas (vitória do retorno da liberdade de expressão), ainda sentimos medo do que pode acontecer.

Medo de ataques dos chamados “infiltrados”, medo da reação dos policiais, medo das decisões dos políticos. E aqueles tantos outros medos, nossos conhecidos: do aumento das contas de água e de luz, dos juros que só crescem, do desemprego, de não conseguir pagar o aluguel do mês, de não ter comida para o almoço de amanhã, de ter a casa desmoronada pelas chuvas, de ter a casa inundada pelas águas etc. etc. Medo de sentirmos medo e medo de que as mesmas situações se repitam (e como se repetem com frequência em nosso país, entra e sai governo…). Medo, medo e cada vez mais medo.

Manter o povo desinformado (para não usar a palavra burro) é tão interessante para quem detém o poder quanto manter o povo com medo. É uma forma mascarada de manipulação e de opressão. Assim, ficamos paralisados, sem iniciativa, à espera de novas notícias sobre economia, sobre os juros e decisões parlamentares. Enquanto isso, dia vai, dia vem, o medo em nós permanece e vivemos nossa vidinha medíocre, ao lado do monstro Medo.

Resistir, sempre!

Porém, há uma geração mais nova, certamente inspirada na geração antiga, que tem provocado medo (agora a situação pode ser inversa). Essa geração não aceita o medo como ameaça, ao contrário, enfrenta-o; dá voz aos nossos medos cotidianos, colocam-se diante de todos e mobilizam milhões de pessoas a ir às ruas, reivindicando seus interesses e direitos, escancarando verdades, desmascarando entidades poderosas. Agora, os que sempre tiveram medo têm voz, as redes sociais não se calam, as pessoas se expõem com coragem, apresentam suas ideias, suas revoltas, suas indignações. Uma geração que, talvez, conheça o medo, mas não deixou se dominar por ele. Ainda é pouco, mas é um início gigantesco para mudarmos a cultura do medo.

Assistindo dia desses ao programa Resistir é preciso, na TV Cultura, que retratava o “medo” dos jornalistas na época da ditadura militar (1964-85) mas sobretudo a força deles e o modo como driblavam as censuras nos jornais, aprendi uma grande lição: resistir. Resistir não significa “suportar o medo”, significa ser forte, não ceder, não aceitar. Mais do que isso, descobri que resistir é driblar o medo e os poderosos. É não calar a boca porque ainda vivemos sob formas diferenciadas de opressão, mas driblar essa opressão, fazendo com que o medo diminua cada vez mais, deixando de ser um monstro em nossas vidas.

Sim, resistir! E eu complementaria: persistir! Este pode ser um bom caminho. O primeiro passo para isso é nos conscientizarmos de que o medo é “inserido dentro de nós porque está presente em nossa cultura”, mas nem toda cultura tem de ser mantida. Há culturas (costumo chamá-las de dominadoras e destrutivas) que precisam ser quebradas, rompidas, e o medo presente em nossa educação desde cedo é uma delas.

Educação e reeducação

Escolas com novos modelos de educação estão surgindo. A chamada educação democrática (tema muito abrangente para ser tratado aqui), mas que, de forma extremamente reduzida, diz respeito a dar voz às crianças e escolher e construir com elas o que vão aprender na escola. É ensinar, desde cedo e sem medo, o papel de cidadão atuante, desenvolver a autonomia, o poder livre de escolha sem ameaças.

Sonho meu o de que possa existir uma escola como essa para adultos, pois a maioria de nós precisa ser reeducada. Nascemos agora e iniciaremos um novo processo de educação, que diz respeito a preparar-se para a vida, para o mundo, e não uma educação opressora, que dialoga diariamente com o medo.

Chegará o dia (espero eu) em que o medo será mesmo apenas para nossa proteção, como seres que se dizem racionais. Até porque é normal você correr de uma barata ou de um cão na rua que late feito um louco, deixar o abajur aceso durante a noite, escolher subir de escada ao invés de usar o elevador, optar por um lugar mais próximo para que não tenha de viajar de avião. Só não é normal o medo que nos asfixia, o medo que asfixia nossas ideias, nossas vontades, nossos sonhos, nossos direitos de cidadão, nosso dinheiro, nossa liberdade de pensar e falar e nossa liberdade de ir e vir.

*Ssmaia Abdul é psicóloga narrativa, com especialização em práticas colaborativas. Atua como designer de grupos colaborativos e é pós-graduanda em Jornalismo Literário.

imagem: minhadocerevolta.blogspot.com

 

Um comentário para “A instituição chamada medo”

  1. mohamed

    "ótimo texto! Parabéns! "Amei,vou compartilhar!

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