A redenção pelo sexo e pela religião na Cidade Triste

Sabe aqueles relatos de sexo, confissões entre amigos, entre amigas, textos em revista, na internet?… Muita autocensura, não é? E muito exagero também, não é? São os relatos mais imprecisos que existem. Ou é muito mais ou é muito menos do que aquilo que contam. E quando se faz tanta questão de relatar um bom sexo é porque, na média, as coisas não vão ou não iam muito bem. O mais provável é que as coisas realmente não sejam tão espetaculares, assim como não é tão garantido o passaporte para o paraíso.
 
Não era sobre isso que eu ia falar, mas sei lá por qual motivo isso me veio à cabeça.
 
O que queria dizer é que atravessaram as pontes e viadutos da Cidade Triste, lotaram os ônibus e os trens, fecharam as ruas. Milhões… E não era pra trabalhar. As avenidas foram tomadas pela multidão. Ou melhor, por duas multidões. Multidões furiosas, ávidas pela chance de se manifestar. E não era pra derrubar ou formar governo, não era pra comemorar título nem pra cortejo fúnebre.
  As multidões não se encontraram. Uma celebrou a religiosidade no feriado de quinta-feira, Corpus Christi, e a outra celebrou a liberdade sexual três dias depois, no domingo.
 
Assim tem sido nos últimos tempos na Cidade Triste. As duas multidões crescem a cada ano como se houvesse uma competição entre elas. Mas não duvido de que existam os que participem das duas celebrações. Assim como há os que participam mesmo sem um vínculo forte com as causas em questão.
 
A marcha evangélica e a parada gay se popularizam, tornam-se tradicionais. Viram um colosso, como tudo na Cidade Triste. Cidade livre? Cidade celebrada? Cidade ainda triste.
 
Nenhuma das multidões hasteou a faixa “Basta de corrupção!!! Prisão aos criminosos do colarinho branco!!!”. Nem a “Chega de desigualdade e miséria” nem a “Estatizem tudo” nem a “Privatizem tudo”. Nem mesmo se viu a faixa “Moradia já, Saúde agora, Educação imediatamente”. Nem ao menos a trivial “Justiça!” foi carregada.
 
As multidões não gritaram pela restrição aos carros nem por mais investimentos em transportes para a melhoria da circulação pela Cidade Triste. Não clamaram pela limpeza dos rios nem pela construção de mais parques. Não bradaram contra a violência dos bandidos e da polícia. Não urraram por mais lazer e espaços públicos.
 
Mas o que significa mesmo ler nas entrelinhas? O que dizem e pedem, então, as multidões em suas espetaculares marchas pela Cidade Triste? Pedem respeito à sua fé e à sua orientação sexual? Sim, pedem. Pedem porque carecem de espaço público e liberdade, carecem de festa e lazer.
 
Não é de admirar que a religião e o sexo impulsionem as maiores manifestações populares da Cidade Triste. As multidões pedem respeito porque, conscientemente ou não, sabem que a religião e o sexo são dois dos últimos refúgios onde se abriga o indivíduo que se vê num ambiente violento, restritivo, insalubre e deplorável.
 
“O mundo é bárbaro e corrupto, mas Deus me conforta, tenho orgulho disso e me deixa orar, irmão!” “O mundo é desigual e miserável, mas o sexo me redime, tenho orgulho disso e me deixa pelo menos trepar!”
 
Não é tão simples assim, mas o mundo é amargo mesmo e o que é ruim fica pior e monstruoso na Cidade Triste, megalópole mal-amada do terceiro mundo (ou quinto?). A cidade toda é uma grande Carençolândia*.
 
Talvez isso seja uma nova configuração de tradições. A marcha evangélica vai ocupando o lugar das celebrações católicas e a parada gay deixa na poeira o Carnaval da cidade sem-Carnaval. Tudo ampliado e mais agudo dentro desse caldeirão traiçoeiro.
 
E o tempo foi passando, o texto foi acabando e não consegui arrumar uma explicação para aquele começo. Deixa ele lá.
 
*Expressão criada pelo jornalista, escritor, ator e compositor Xico Sá.

3 comentários para “A redenção pelo sexo e pela religião na Cidade Triste”

  1. Juvenal

    Matou na mosca
    Taqui o Wellington, mais uma vez, dando um banho de texto. Simplesmente maravilhoso!
    E concordo com tudo que o escriba disse a respeito da "libertação pelo sexo e/ou pela religião". E concordo também com o comentário da Andréa, quando diz que "parece que a cidade triste está precisando gritar". Sem dúvida, sem dúvida. O que poderia nos restar a não ser um berro primal diante dos desmandos pelos quais passam nossos quatro poderes, oficializando-se a patranha de que a imprensa ainda é (seria) o quarto deles?

  2. Lis Vilaça

    É muito mais ou é muito menos do que aqu
    Enquanto o refúgio das massas estiver sepultado em crenças e necessidades fisiológicas, estaremos seguros. Enquanto astearem bandeiras e tapetes coloridos, em vez do luto, poderemos sorrir. Brincar de "Poliana moça" e seu "jogo do contente" faz parte da vida pública. Talvez porque, como você mesmo disse, aquilo que se vive no dia-a-dia privado "é muito mais ou é muito menos do que aquilo que contam" nas ruas…eu ainda acredito nisso!
    Parabéns pelo texto, mais uma vez!!!
    🙂

  3. Andréa

    Cidade triste
    Muito interessante o seu texto. Parece que a cidade triste está precisando gritar. E marchar, mesmo sem saber direito para qual direção.
    Bela análise. Parabéns.

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