A reinvenção da barbárie

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Franklin: A barbárie também se “modernizou”.
O mundo avança e se moderniza até no que tem de pior, como a barbárie. Foi o que declarou Franklin Leopoldo e Silva, professor titular de filosofia da USP, Universidade de São Paulo, na abertura do 1º Congresso de Jornalismo Cultural, nesta segunda-feira, 4 de maio, em São Paulo.

Na palestra “O que é cultura e como ela pode nos salvar da barbárie”, Franklin fez uma retrospectiva da barbárie humana, desde a origem do termo na Antiguidade.

Para os gregos, bárbaros eram os que não eram gregos, isto é, aqueles que tinham um modo de vida em sociedade diferente da cidadania política que vigorava na pólis grega, baseada no que chamavam de democracia.

Essa conotação grega para barbárie, segundo Franklin, significava que os bárbaros eram aqueles que ainda viviam sob a custódia de um déspota ou suserano, numa espécie de liberdade assistida dos dias de hoje.

Barbárie civilizada

De gregos a baianos, a barbárie teria ganhado o amparo da razão, transformando-se e atualizando-se, racionalmente justificada e legitimada. Para o professor, houve um deslocamento do poder e não a sua transformação; foi efetivada uma reconfiguração daquilo que continua sendo a barbárie explícita. “É a barbárie civilizada, que não é uma contradição de termos, porque ela não se repete, ela sempre se renova.”

De acordo com Franklin, o século XX foi, na verdade, o século da barbárie, dos genocídios calculados, de modo a se traduzirem em benefícios políticos e econômicos para os seus autores, como o lançamento da bomba atômica durante a Segunda Grande Guerra (1939-45), pelos Estados Unidos.

O professor qualificou como momentos efêmeros os movimentos de emancipação, contrários à barbárie institucionalizada, que tomaram lugar no século passado, como a Revolução Cubana, de 1959, e os protestos estudantis de maio de 1968, na França.

Entretanto Franklin acredita numa saída, numa possibilidade de redenção e libertação do homem por ele mesmo. Aquela baseada numa cultura que seja fundamentalmente questionamento. “A cultura não como dado, mas como ato”, exemplificou.

Citando o pensador alemão Walter Benjamin, o professor vociferou, em voz pausada, contra uma visão fetichista da obra de arte, como coisa acabada e sedimentada. “Nenhuma obra se encerra em si mesma. Nada é neutro, tudo é interpretado e reinterpretado.”

Nessa perspectiva, Franklin declarou que “tradição é transmissão”, isto é, se baseia na concepção de algo que está em movimento, pronto para ser lido e relido e adaptado e reinventado. Nada de ídolos, apenas inspiradores.

O professor convocou à resistência: a cada um de nós interferir na história para encontrar ou descobrir a história que não está sendo contada pelos vencedores.

Seria esse um caminho de redenção e, talvez, de salvação e libertação. O elefante de Drummond continuamente feito e refeito, como única possibilidade de liberdade e dignidade de cada um, num todo em comum.

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